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A figura, recusada por três editoras, rebelou-se contra a prensa, Gutemberg e os jornais impressos.

Affonso Duprat

No entrevero da discussão, de um lado, aqueles que veem o impresso como coisa obsoleta, chata, antiecológica. Para estes não há sentido em preencher uma folha de papel com palavras. Enchendo a boca, eles defendem o fim das folhas de papel. Do outro, os amantes de Gutemberg, defensores da experiência sensorial de pegar um livro novo, folheá-lo, sentir seu cheiro e, no decorrer da leitura, ir rabiscando, destacando, voltando, rasurando; quase como um namoro. Começar um novo livro é uma aventura manual.

“Vocês estão com os dias contados”, cuspiu fogo um pernóstico cidadão, cheio de pretensões a “best seller”. Cochichando, um amigo contou que a figura havia sido recusada por três editoras. Rebelou-se contra a prensa, Gutemberg e os jornais impressos. Sem dinheiro, ele chegou a cogitar uma autopublicação; entretanto, julgou ser coisa de plebeu, um escritor de sua envergadura teria que começar logo sendo distribuído pela Penguin Books, pensava. Talvez ele não soubesse quem foi José de Alencar e, mais, como foi à praça seu primeiro romance.

E esse sujeito cheio de dor de cotovelo começou a briga. Dono de um blog na internet, terreno pantanoso em que mescla opinião e (quase) literatura, ele costuma colocar a mesóclise onde não é chamada. E o pior: tem dimensão. Centenas – quiçá milhares em dia bom – compram os biscoitos de polvilho do sujeito. Seu ego inflou e resolveu começar uma campanha virtual para o fim das publicações do impresso.

O movimento tomou certa expressão. E seus leitores arrebanhados pelo ódio aos editores – esses destruidores de sonhos – se juntaram ao fulano da mesóclise irregular.

Não demorou para que ambientalistas radicais – juntos pelo fim do desmatamento –, blogueiros millenials – que ganham lá seus dinheiros gritando e gritando em vídeos curtos no YouTube – e cidadãos lugar-comum – os amantes de Nicholas Sparks – se juntassem ao movimento. Fogo neles.

Essa turma decolou em questão de semana. O pessoal marcou passeata na Praça dos Ciclistas, no final da Av. Paulista quase com a Consolação. Curiosamente, com cartazes de papel – um ato falho que recaiu sobre duras penas aoz adeptos. “Fim das grandes editoras”, pediam em cartaz.

Em seus celulares, disparavam tweets e compartilhavam o ódio à milhão. Gritavam, em caps lock. Ninguém percebeu, mas aquilo era uma manifestação pulsando ódio. Cada um em seu smartphone, descarregando catataus virtuais em seus blogs, Facebooks, etc. Passaram-se uns minutos e a turba se dispersou, a discussão ficou no Fórum, este, sobretudo, virtual.

O líder do grupo, inflamado, dias depois, resolveu convocar uma nova passeata em que, desta vez, prometia lotar a Av. Paulista. Sabendo disso, um amigo resolveu tocar a pauta e desvendar os porquês do movimento insano.  Durante a apuração, indignado, ele me contava toda esta história, com requintes de detalhes, pois infiltrou-se para fazer uma reportagem sobre aquele grupo cibernético. E pior: para um jornal impresso. Se descobrissem, perderia a cabeça.

E em sua criteriosa investigação, ligando os fatos, o amigo riu vendo que o Fulano se prostrava para o Farenheit 451. “Fogo nos livros”, dizia o revolucionário em um post de Facebook. Hoje, a realidade pende mais para a distopia de Bradbury, por motivos políticos, financeiros, etc. Meu amigo ponderou, usando bom crivo jornalístico, resolveu engavetar aquela loucura “militonta” de rede social. Ele concluiu “Não vou publicar isso não, prefiro não gastar papel com esse tipo de gente”.