Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

A genialidade de Gustave Flaubert está em dar início e valor a algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por concluir com algo tão complexo que ninguém consiga entender.

Explorando os sentimentos e as necessidades mais íntimas das suas personagens – medíocres, diga-se de passagem -, permeando a narrativa com uma esmerada análise da condição humana, o literato apresenta-nos nesse romance o mais íntimo do ser humano: o andrajo da alma: o inevitável e inesgotável conflito entre o impulso ao desejo e a fragilidade da razão.

O romance conta a história de Charles Bovary, um médico interiorano, sem atrativos, comum, passivo, que, de tão apaixonado pela esposa, acaba por apresentar-se somente como uma figura patética, inofensiva e com ideias puramente formulaicas. Charles tem uma paixão: Emma. Uma mulher sonhadora “pequeno-burguesa”, que aprendeu a “entender” e ver a vida através da literatura. Bela, requintada e insaciável – para os padrões provincianos -, casa-se com Charles Bovary, com o qual tem uma filha.

Após cimentarem-se em uma confortável residência, o casal começa a conviver com o cotidiano: Charles medica ou bajula a esposa, enquanto que Emma lê ou sonha com uma vida aventureira. Ela não está feliz. Imaginem que segundo o autor: “A conversa de Charles era sem relevo como uma calçada e as ideias de todo o mundo nela desfilaram com seu traje comum, sem excitar emoções, riso ou devaneio (…) não sabia nadar, nem equitação, nem atirar pôde, um dia, explicar-lhe um termo de equitação que ela encontrara num romance”. (p.60)

Torturada por impulsos que a colocavam em guerra com algumas das mais “cruéis” convenções de nossa sociedade – dentre elas, a fidelidade conjugal – a bela Bovary cede, por fim, às tentações que lhes cruzaram o caminho. Elas – as tentações – têm nome: Léon e Rodolphe.

Detalhe: não pense você leitor que eles – as personagens que se aventuraram nesses relacionamentos extraconjugais – perderam de vista a seriedade de suas ações, como se tudo mão passasse de uma brincadeira momentânea. Não, em nenhum momento. A todo instante podemos perceber o medo através dos seus olhos; o pavor daquele espectro ceifador e juiz dos mortais: a própria consciência, impregnada de antigos valores românticos e tradicionais. Assim, um mero movimento, um efêmero gesto, um simples objeto eram mais do que suficientes para evocar as lembranças do adultério e suas possíveis consequências.

Tecendo um panorama de uma época em que as mulheres estavam terminantemente proibidas de expressar os seus mais íntimos desejos, na qual desconheciam a participação política e eram condicionadas/educadas para serem apenas “mulheres dos seus maridos”, Ema Bovary guiou-se para outro caminho. Viveu intensamente – na medida do possível, claro –  as paixões e aventuras humanas até não mais poder suportar o fardo das suas escolhas.

Ao mesmo tempo em que projetou Flaubert no meio literário, o livro também causou grandes problemas ao seu compositor. Após a sua publicação alguns trechos foram considerados por demais “picantes”, o que levou Flaubert aos tribunais, com a acusação de ter disseminado a “imoralidade” na sociedade francesa. Todavia, um ano depois, o autor foi julgado, absolvido e teve a obra publicada.

Não obstante ser um livro que respeite a sua época e trabalhe de forma precisa o seu “tempo presente“, Madame Bovary é um desses clássicos que descortinam horizontes inesperados ao leitor atual, e nos convidam ainda a refazer uma nova leitura.