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Dez20

Maria do Rosário Pedreira

Estamos no final de um ano que foi para esquecer (mas que não será esquecido, suspeito, pela sua singularidade). O vírus mudou as nossas vidas e separou-nos frequentemente dos que amamos, às vezes da pior maneira. Proibiram-nos os abraços e os beijos, passámos a respirar atrás de máscaras, cancelámos mil jantares, viagens e encontros com amigos. Tivemos medo de pôr o nariz fora da porta, desinfectámos as solas dos sapatos, as patas dos cães e as compras do supermercado, fomos impedidos de passear em muitas tardes de fim-de-semana. Para mim, que até gosto de recolhimento e silêncio, foi um ano tremendo, com cujos efeitos (directos e indirectos) ainda estou a tentar lidar. Mas houve algumas boas surpresas: os dois prémios maiores da literatura brasileira atribuídos a Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, o Man Booker Prize International para O Dessassossego da Noite, o romance de estreia de uma holandesa, Marieke Lucas Rijneveld, que comprei já em plena pandemia; o Grande Prémio de Tradução Literária para Guerra e Terebintina, do flamengo Stefan Hertmans, que publiquei no início de 2019. Enfim, apesar da cacetada que levou o mercado do livro, sempre houve algumas boas notícias. Agora vem aí uma vacina e vamos lá ver quando poderemos respirar fundo e beijar e abraçar. Para já, vamos tentar que o Natal não estrague o início do ano. Por isso, tenham juízo e protejam-se. Quero ter-vos cá em 2021. Sim, só voltarei ao blogue em Janeiro. Entretanto, leiam livros. O QI humano, que regra geral aumentava de ano para ano desde há quase um século, está em queda de há dez anos a esta parte. Entre outras coisas, pela pobreza da linguagem utilizada originada pela falta de leitura. Vacinem-se também contra a ignorância. E boas festas para todos!