Resenha publicada em “A Tribuna” de Santos em 13 de março de 2001

O autor deste texto entra numa livraria da região e pergunta pela recente edição da Civilização Brasileira (o original é de 1968) do romance 62-Modelo para armar (na tradução de Gloría Rodriguez). O vendedor se volta para outro: Ei, Fulano, temos 62 maneiras de amar???!!!!

A situação certamente teria deliciado o autor, Julio Cortázar (1914-1984).

Não por acaso, Modelo para armar se inicia por um trocadilho, uma confusão semântica. Os jogos lingüísticos e associações de idéias abundam no texto. Cortázar o conduz sob o signo do experimentalismo formal que caracterizou seu projeto artístico e que já se revela no subtítulo, Modelo para armar.

E o 62? Não, leitor, não um número que circunscreva as maneiras de amar. É o capítulo de Rayuela- O jogo da amarelinha (1963) no qual se propõe um determinado objetivo: “Numa certa época Morelli imaginara um livro que estacionou em notas avulsas. A que melhor o resumia é esta: Psicologia, palavra com ar de velha… Se tivesse escrito este livro, os comportamentos standard seriam inexplicáveis com o instrumental psicológico em uso. Os atores pareceriam insanos ou totalmente idiotas.  Não que se mostrassem incapazes dos challenge and response correntes: amor, ciúme, piedade e assim sucessivamente, mas que neles algo que o homo sapiens guarda no plano subliminar se abriria penosamente um caminho como se um terceiro olho pestanejasse penosamente debaixo do osso frontal. Tudo seria como uma inquietude, um desassossego, um desenraizamento contínuo, um território onde a causalidade psicológica cederia desconcertada, e esses fantoches se destroçariam ou se amariam ou se reconheceriam sem suspeitar demasiado que a vida procura tocar a clave em, através e por eles, que uma tentativa apenas concebível nasce no homem como em outro tempo foram nascendo a clave-razão, a clave-sentimento, a clave-pragmatismo”.

Parece difícil, não? Imagine, leitor, 250 páginas nesse clima. Como se explica, então, que Cortázar tenha conseguido fazer de 62-Modelo para armar um romance tão charmoso e absorvente, sem a menor aridez, e também sem abrir mão da complexidade? Talvez isso aconteça porque ao contrário, por exemplo, da nouvelle vague francesa (pelo menos na sua vertente godardiana), o grande escritor argentino quase nunca prescindiu do apelo lúdico, que se traduz em prazer de leitura.

Em Modelo para armar há efetivamente um grupo de “atores”, isto é, de personagens difusos (um deles diz: “parecemos fantasmas que falam de outros fantasmas”) que ás vezes parecem insanos ou idiotas (chegam até a falar numa linguagem tatibitate, para chocar uma velha senhora muito convencional) e que se destroçam, se amam e se reconhecem. São os tártaros, grupo ligado por razões de amizade e outras mais complicadas e destrutivas, e que como Sherezades contam histórias uns para os outros para sobreviver na grande rotina, em Paris, Londres, Viena, numa região pantanosa ou na cidade de Arcueil, para onde todos vão no clímax do romance, por causa da inauguração de uma estátua realizada por um dos membros do grupo, constituído por Juan, Marrast, Polanco, Austin (os homens) e Hélène, Nicole, Tell, Celia e Feuille Morte (as mulheres), além de misteriosos paredros de cada um deles, um luxo a mais numa narrativa que passa da terceira para a primeira pessoa sem a menor cerimônia; mais ainda, um personagem pode tomar a palavra e no meio de um parágrafo passar para a terceira pessoa.

Entretanto, o que torna o livro um empreendimento talvez ainda mais arrojado do que o mágico Rayuela é a distorção temporal dos acontecimentos que apresenta. Quem ler com atenção, verá que o texto se torna uma mandala, um jogo de cobra que morde o próprio rabo, pois eventos que deveriam já ser passado transformam-se em presente, ou seja, acontecem quando já deviam ter acontecido, na perspectiva cronológica do senso comum. Nem o inesquecível O ano passado em Marienbad, da dupla  Resnais & Robbe-Grillet, fez tanto o tempo cronológico de gato-sapato.

O leitor poderá ficar impaciente, mas como se afirma a certa altura, “perdoa-me essa linguagem, a única possível”. Ou ainda: “o antes e o depois se desmanchavam em suas mãos”.

Contar de maneira convencional seria “pôr ordem como quem disseca pássaros”. E como exigir isso, se os personagens da narrativa têm uma visão do mundo como numa galeria de espelhos (aliás, o romance começa a partir de um trocadilho e de um espelho num restaurante)?

Uma narrativa-caleidoscópio, portanto, que procura envolver o leitor nas dobras e avessos da grande rotina que é a Vida, nas passagens para outras realidades: “parando nos portais, onde como sempre o atraía a possibilidade de uma comunicação menos óbvia, a penumbra propícia ao cigarro e à passagem”, “…as interrupções da lógica estalam em velocidade prodigiosa, e dos dois lados da fagulha de uma exceção se abrem os intermináveis bocejos da simples causalidade infalível”.

E,quebrando a ilusão dos espelhos, de repente a visão do artista compondo o quadro: “…dizer tudo isso representa estar ainda mais sozinho num quarto onde há um gato e uma máquina de escrever”. Para nós, leitores, abençoada solidão!