Foi engraçado? Foi. Eu ri da minha própria loucura? Ri muito. Eu sou a única? Pode ser, mas eu duvido.

Maria Paula Curto *

Essa semana foi muito difícil escrever. Aliás, foi quase impossível ser mulher nesse país. Mas eu prometi a mim mesma que não iria mais transbordar minha tristeza em texto. Dessa vez, eu precisava de um pequeno respiro. Nem que fosse para disfarçar essa percepção (quase certeza?) de que a humanidade, de fato, não deu certo…será?

Resolvi recorrer ao humor. Rir de si mesma talvez seja a melhor forma de encarar essa rotina insana e cruel, de tentar seguir em frente com um pouco de leveza. Assim sendo, começo o resumo da peça: a vida louca de MP, em três atos.

PRIMEIRO ATO: O Almoço

Marco com uma amiga de almoçar no shopping Iguatemi (eu sei, muito chique para a desleixada aqui, mas era o mais próximo do compromisso da tarde). Fui dirigindo pela Faria Lima e, claro, não poderia apenas curtir o momento e ouvir uma musiquinha básica, já aproveitei para ligar para outra amiga no RJ e colocar a conversa em dia. Cheguei no estacionamento do shopping, peguei o cartãozinho que, para minha surpresa, não era o de papel usual, mas sim de plástico, mais durinho, e guardei. Fui almoçar, falamos loucamente durante toda a refeição (algo que é bem pouco comum para a minha pessoa…SQN) e, ao pagar a conta, resolvo usar o cartão VR que eu tinha acabado de receber da empresa, toda feliz. (Nada como um VR para fazer um ser humano contente, não?). Claro que o cartão não passou. Primeiro, achei que tinha problema na máquina do restaurante. Não era. Depois, achei que tinha errado a senha. Digito outra. Erro novamente. Vendo aquela situação estranha, minha querida e empática amiga já se oferece para pagar a conta, no que eu respondo: não precisa, vou com meu cartão de crédito normal. Por dentro, eu me xingava e me perguntava porque eu havia inventado uma senha diferente da usual. Saio do restaurante e resolvo ligar no RH da empresa para ver o que tinha acontecido. Detalhe: sabe quem cuida do RH da empresa? Pois é, eu mesma. Vai vendo… A minha analista, supereficiente, fala: MP entra no aplicativo da VR e redefine a senha. O dinheiro já foi depositado sim. Tento fazer isso enquanto ando pelos corredores do shopping, com o celular no pescoço (não, eu não carrego fone de ouvido), a mão direita abrindo a bolsa e a esquerda procurando a chave do carro. Quase tropeço numas 5 pessoas. Decido sentar, antes de fazer um strike humano. Descubro que não tenho o tal aplicativo. Instalo. Digito CPF,  RG, nome completo, data de nascimento, nacionalidade, estado civil, peso, altura, índices de creatinina, hemoglobina glicada, TGO, TGP, PIS, minha intenção de voto e, o número do cartão. Aparece cartão inválido. Como assim inválido??? Resolvo olhar o cartão. Não era o VR. Era um cartão de “vale presente de natal”, que havia sido dado pela empresa em dezembro (estávamos em março!!) e que eu já havia utilizado todo o crédito. FIM DO PRIMEIRO ATO.

SEGUNDO ATO: O Estacionamento

Levanto – após uns 30 minutos nessa confusão toda – e caminho para o caixa para pagar o estacionamento. Meu telefone toca. Atendo. Como não posso perder mais tempo, vou falando (com o celular no pobre do pescoço, novamente) e enfio a mão na bolsa à procura do tal cartão de plástico. Após uma breve mexida no fundo, encontro algo durinho e, toda feliz (primeiro por ter logo encontrado o cartão e segundo, ainda mais importante, fazia muito tempo que minha mão não agarrava algo duro nessa vida…), enfio o tal cartão na máquina do estacionamento. Após alguns segundos, a máquina devolve. Não entendi a rejeição e volto a enfiar o cartão. A máquina, novamente, cospe o bendito do cartão fora. Não querendo dar o braço a torcer e já puta da vida que mais uma vez as coisas não davam certo para mim naquele dia, sem deixar de falar no celular (nem me lembro mais com quem eu estava conversando), pego o tal cartão (o duro, que fique claro) e dou uma olhada no dito cujo. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que eu estava tentando pagar o estacionamento com o crachá da empresa!!!!! Nesse momento, eu não sabia se ria ou chorava (afinal, a coisa já começava a ficar séria para o meu lado, pois eu poderia me tornar um perigo para a sociedade!!), resolvi desligar o celular e procurar o cartão verdadeiro. Viro a bolsa de ponta cabeça (ou de cabeça para baixo, na versão carioca) e nada de encontrar o durinho… senti uma certa semelhança com a vida real – a tal ausência do duro – e resolvi voltar para o carro. Lá estava ele. Ao lado do câmbio. (extremamente simbólico, já que o câmbio é a coisa mais dura que minhas pobres e cansadas mãos andam tocando ultimamente), e faço todo o caminho de volta para, enfim, conseguir pagar o estacionamento com o cartão correto. FIM DO SEGUNDO ATO

Não há relógio em cassinos. De repente, vejo que fiquei tempo demais no tal joguinho e que eu deveria ter recebido um WhatsApp. Foto: Acervo da autora.

TERCEIRO ATO: O Celular

No fim do dia, para dar uma relaxada após essa confusão mental que eu mesma armei, resolvi jogar no celular um jogo de montar palavras a partir de letras embaralhadas. Comecei a me empolgar – típico da pessoa aqui – e peço ajuda das minhas filhas, no famoso 3 em 1: eu me distraio, elas também e ainda aprendem um pouco de português de uma forma lúdica. Não sei se vocês já perceberam, mas quando a gente está jogando alguma coisa no celular, não aparece o reloginho. Você tem que sair do aplicativo para ver que horas são. Isso torna a coisa muito mais viciante. Não há relógio em cassinos. De repente, vejo que fiquei tempo demais no tal joguinho e que eu deveria ter recebido um WhatsApp. Olho para uma das minhas filhas e falo: filha, cadê meu celular? Preciso checar se fulana me mandou mensagem. Urgente! A pobrezinha, não acreditando na loucura da própria mãe, responde com um elegante “Como assim, mãe?” Eu, completamente surtada, já olhava em volta da mesa e nas cadeiras, repetindo: onde enfiei o raio do celular? Isso, sem parar de completar o tal joguinho no….celular!!!! Bem, nessa altura do campeonato, ela caiu na gargalhada e só conseguiu soltar um: “mas está na sua mão”!!!! FIM DO TERCEIRO ATO.

Foi engraçado? Foi. Eu ri da minha própria loucura? Ri muito. Eu sou a única? Pode ser, mas eu duvido. Se você não se identificou, parabéns. Você é um ser de luz. Estou longe desse nirvana. Mas se algo parecido já aconteceu com você, me diga: será que não tem algo errado? Precisamos de toda essa velocidade? De toda essa loucura? Ah, tá, temos uma corrida contra o tempo. O problema é que, nessa disputa, nós já sabemos de antemão quem será o vencedor. Então por que insistir na luta? Bora fazer diferente? Que tal desacelerar, curtir a paisagem e aproveitar a companhia?

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.