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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Um livro de regressos/recomeços
Avisos de Conteúdo: Morte, Luto, Referência a Tentativa de Suicídio, Alzheimer
A morte de alguém que nos é próximo desfragmenta-nos e deixa muitas sombras em nós, que se manifestam num rasto intenso de culpa, quando nos sentimos implicados no acontecimento. Este talvez seja um pensamento evidente, transversal ao ser humano, mas torna-se ainda mais notório no livro de Miguel Jesus.
UMA NARRATIVA DURA E MUSICAL
Lugar Para Dois acompanha a vida de Daniel Stoffel, responsável financeiro do Metropolitano de Lisboa, após uma tragédia que virou a sua realidade do avesso, destruindo laços familiares e a aparente paz que os movia. Por esse motivo, o protagonista sentiu necessidade de partir, de recomeçar num sítio onde o passado não lhe chegasse, contudo, chegava sempre, porque as memórias pesam e alimentam-se da nossa vulnerabilidade.
«Partimos do mundo quase como chegámos, levando o pouco que viemos buscar»
A construção e o crescimento desta personagem fascinou-me: pela maneira como gere a sua dor, pelo quanto se afunda num vício, pela urgência de reencontrar o seu propósito. Além disso, é inebriante a dicotomia que a envolve, impulsionada pelos muros que tenta edificar para se proteger. É que se, por um lado, transmite uma imagem amargurada e desinteressada de problemas alheios, por outro, vamos compreendendo que isso não passa de uma fachada. Embora afirme que não «é um local de chegada», sabe acolher para que permaneçam.
«- Hoje deixei-te sair daqui com uma arma na mão porque acho que
já morreste e não sabes. Morremos quando deixamos de viver»
Parti para a leitura sem expectativas criadas, atendendo a que sabia pouco do seu enredo, e fui conquistada pela escrita melódica, pela maneira como as personagens se relacionam, pela sensação de mágoa sempre presente, palpável; pelas peças que se vão encaixando - e reencontrando - com o tempo e, claro, pelo amor que sustenta todos os passos, mesmo quando é revestido de uma certa distância, como se fosse maior o desapego. Sendo, também, uma história de contrastes, sentimo-nos sempre à procura do nosso lugar.
«- Tem vezes que me pergunto de que amor és feito. Se do que permites
quando te esqueces da tristeza, se deste, em que secas tudo à tua volta»
A narrativa dura divide palco com um tom poético e bastante melódico, até porque a música é uma componente essencial do livro. Com acesso a códigos QR, podemos escutar temas alusivos àquele episódio, tornando a experiência de leitura original e ainda mais emotiva. E talvez seja por este embalo que as descrições se revelam tão cinematográficas, ao ponto de quase sentirmos e detetarmos os aromas enumerados, os sons naturais, os silêncios e os toques suspensos de quem ainda não foi capaz de expiar os seus fantasmas.
«Era a primeira vez que me sentia pertencer»
Lugar Para Dois é uma história sobre paternidade, resistência e mudança. É, sobretudo, uma história sobre renascer quando sentimos ter perdido tudo e sobre, no meio do caos, termos a capacidade de nos perdoarmos - por mais complexo que seja. Desarmou-me em vários momentos e revelações, com particular destaque para o momento em que percebi quem era o narrador. Portanto, sei que é um romance que continuará por perto.
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