04/11/2110
Terminei.
Lá estava o jovem “menino de boné” (piada interna que será explicada no final do texto) mais uma vez sem saber o que escrever para o blog, sobre mais um livro lido por ele num curto – nem tanto – intervalo de tempo, quando, de repente, não mais do que de repente, uma graciosa moça de seios fartos e saudáveis, semelhantes a duas tigelas de arroz chinês, atravessou o corredor em direção ao simplório “atendente de trancamento”. Imediatamente os olhos do garoto e toda a sua capacidade imaginativa deram início ao simples e imanente processo masculino de despir o causador daquela rompante atração sexual. E para completar a singularidade do momento, a jovem, já sentada ao lado do ingênuo “boy”, com um gesto gracioso e terno (as mãos dela estavam quentes), pegou a mão do menino, direcionou ao teclado, e escolheu, carinhosamente, as disciplinas para o trancamento – o que resultou na total quebra do processo natural, atendente/atendido. Ela não sabia, mas inconscientemente – ou não – estava “atendendo” os interesses do embasbacado estudante de história, que teimava em ruminar os seguintes pensamentos:
Pensamento 1 – “Cheiro feminino, cheiro de sexo”.
Pensamento 2 – “Cristo, ela ficaria linda com um “chapéu de coco”.
Pensamento 3 – “Cheiro feminino, cheiro de sexo”.
Pensamento 4 – “A diferença entre mim e Tomas é igual ao resultado final; logo, é igual a: Reinaldo foi sozinho para casa após o trabalho, enquanto que Tomas, sem sombra de dúvida, iria para a cama com Ela.
Ultimamente ando um tanto quanto promíscuo. Frase curiosa, embora verdadeira. Explico. A palavra de caráter sexual não se encaixa perfeitamente à minha vida pessoal no sentido denotativo, no entanto, ela ganha valor conotativo quando: relacionada à situação vivida por mim; pelo mais recente livro lido por mim; pela infidelidade à lista de livros que até então seguia a risca, e que há pouco tempo deixei de lado para ler outras obras – que nesse caso dá título ao post de hoje.
Quando falo em promiscuidade, e se o causo acima tem um caráter sexual, é porque assim me vejo percebendo algumas situações após a leitura do atraente e promíscuo, A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera – não apenas pela forma e conteúdo, mas também pela caracterização das suas quatro principais personagens: Tomas, Tereza, Sabina e Franz.
Lançado em 1982, este romance nos oferece, além de um sensível e apurado estudo histórico (Primavera de Praga, 1968), a reflexão sobre a existência humana – através de teorias Nietzschianas, Parmenidianas e Sartreanas -, conjugadas a um enredo erótico-amoroso, protagonizado por personagens que, por forças de suas escolhas ou por mera brincadeira do acaso, experimentam, cada um à sua maneira, a vida e tudo aquilo que ela pode representar e acarretar. Mas enquanto algumas personagens atuam perfeitamente o seu discurso e suas preocupações de caráter existencial – diga-se Sabina e Tomas -, outros, como é o caso do chatíssimo Franz, e a sua arrogante maneira burguesa de interpretar o mundo – semelhante ao Theo, de Os Sonhadores -, nada mais fazem do que gastar, transar e chorar, por causa de um mundo injusto e eternamente – pasmem – hipócrita. É assim que mais uma vez termino um romance no qual o discurso e a teoria foram aplicados, incansavelmente, por mais uma personagem feminina: diga-se Lucy Tantamount, em Contraponto; diga-se Sabina, em A insustentável leveza do ser.
Como eu havia escrito, os personagens de Milan Kundera viveram cada um à sua maneira um pouco da “leveza” oferecida pela vida, não sabendo eles que tudo aquilo que escolhemos baseados somente na leveza, acabará se revelando, mais cedo ou mais tarde, um peso insustentável.
Sim, eu estava no trabalho. Sim, eu estava trabalhando no trancamento de disciplinas Sim, eu estava com a razão quando exclamei interiormente o 5º pensamento: “Sou humano, adorei imaginá-la nua com um chapéu de coco”. Sim, eu não escolheria sair com ela mesmo que tivesse o charme e poder aquisitivo de Tomas (da mesma forma que não respondi as cantadas e piscadelas de uma senhora de 40 nos, que teimava em me chamar pelo carinhoso “menino de boné”. Sim, a situação foi cômica; tanto com a Jovem quanto com a Senhora.
Definitivamente não resisti ao violento e já clássico livro de Milan Kundera (e, definitivamente, não consegui não imaginar as duas personagens, Sabina e Tereza, não sendo representadas pelas sensuais atrizes Julie Delpy – Antes do Amanhecer – e Eva Green – Os Sonhadores -, respectivamente).
Acho que é isso:
“Enquanto as pessoas são ainda mais ou menos jovens e a partitura de suas vidas está somente nos primeiros compassos, elas podem compô-la juntas e trocar os motivos (…), mas, quando se encontram numa idade mais madura, suas partituras estão mais ou menos terminadas, e cada palavra, cada objeto, significa algo diferente na partitura de cada um”. (pág. 88)
