Juntando as palavras – Confiro-lhe o grau de alfabetizada
Confiro-lhe o grau de alfabetizada
Arrumando gavetas e organizando papéis dias atrás, encontrei meu certificado de conclusão da graduação, que me orgulha e até emociona. Impresso em papel bonito, letras douradas e que ficará mais bonito ainda quando mandar emoldurar, um dia.
Emoções a parte, a arrumação continuou e encontrei outro certificado, o de alfabetização. Isso mesmo, minha professora da 1ª série do primeiro grau (sou do tempo do 1º e 2º grau), elaborou um certificado de alfabetização para os alunos aprovados. O meu é datado de 1986 e impresso em mimeógrafo, lembram disso? Os mais jovens que me perdoem, mas estas são minhas memórias de escola.
Fiquei pensando na importância da alfabetização, na forma como a leitura abre nossos olhos, nos permite compreender o mundo, saber ler nos dá dignidade.
Coincidentemente acompanhei nas últimas semanas que foi divulgado pelo Instituto Nacional de Alfabetização o índice de analfabetismo funcional, e para minha surpresa 38 por cento dos universitários são analfabetos funcionais, ou seja, têm dificuldade de leitura, de compreensão textual e de expressão escrita. Nunca imaginei que esse número fosse tão expressivo. Algumas vezes me deparei com colegas de faculdade com dificuldade de resumir algum texto ou capítulo de livro, de sintetizar com suas palavras o que foi abordado em aula, mas achei que fosse apenas uma falta de habilidade com a nossa língua portuguesa que, aliás, é bem complexa.
Automaticamente associei esse assunto com algumas situações do trabalho, pois percebo que são poucas as pessoas com capacidade de análise, de compreensão de determinadas situações e conseqüentemente de solucionar problemas. Não sei se isso tem alguma relação com a questão da alfabetização, mas minha associação foi instantânea.
A instrução formal dos brasileiros está crescendo, cada vez mais um número maior de pessoas está freqüentando a escola inclusive o ensino superior, porém parece que a qualidade do ensino não tem acompanhado essa demanda.
Enfim, depois dessa reflexão me sinto ainda mais orgulhosa do meu certificado impresso em mimeógrafo e é capaz dele ser emoldurado antes do outro e acho até que eu merecia na época uma formatura de alfabetização, com a professora me chamando e dizendo: Letícia confiro-lhe o grau de alfabetizada.
Letícia Portella
9 de agosto de 2012