Gosto de ler a descrição das personalidades de raças de cachorro. Parece um catálogo de produto, o tipo de produto pra adquirir em rede social de afeto: “brincalhão, extrovertido, inteligente, amigável, sociável, ativo”. Sibélia Zanon* Quando a babá tira os óculos de sol do rosto do bebê e diz “que coisa mais linda”, acredito nela. O menino de cerca de um ano tem olhos escuros e cílios bem longos, daqueles marcantes que as mulheres costumam comprar nas farmácias. Cílios longos são sedutores. Outro dia me peguei fixando o olhar num homem por causa dos cílios, só por eles. Da pessoa por trás dos cílios, já nem me lembro. Com cílios longos ou curtos, filhotes de toda espécie são coisas sedutoras. Filhotes de humanos não saem da regra. Será que temos gosto por miniaturas? O que nos encanta? Talvez a permissão em ser selvagem. Cuspir a comida quando não gosta, resmungar, chorar e fazer careta quando bem entende… espontaneidades que vamos perdendo com a idade. Perto da hora do almoço, as ruas do bairro com o metro quadrado mais caro da cidade lotam de carrinhos passeando recheados de bebês com as babás na condução. Nem toda calçada é boa pra rodar, mas as motoristas se ajeitam nos altos e baixos da vida. Uma babá mostra pra criancinha um pombo que cisca calmamente. De repente, ela sai correndo pra aterrorizar a ave. O coitado do pombo voa atabalhoado. A criança acha interessante, eu também. Achava que essa coisa de criança correr atrás de pássaro pra espantar era ideia de criança mesmo, mas parece que é daqueles ensinamentos que vêm do berço. . “Para os filhos também: podem desejar uma mãe mais no estilo lulu da pomerânia e recebem uma com perfil de doberman“. Foto: Divulgação. Outra babá segue em marcha rápida e monólogo constante. A menina dentro do veículo – não só os olhos, mas a menina toda – parece ter sido abduzida pelo cachorro que atravessa a rua na faixa de pedestres em frente. Como é mesmo o nome dessa raça? Lulu da pomerânia, responde o Google. Basta pesquisar “cachorros da moda” e bingo, a primeira foto é dele. Gosto de ler a descrição das personalidades de raças de cachorro. Parece um catálogo de produto, o tipo de produto pra adquirir em rede social de afeto: “brincalhão, extrovertido, inteligente, amigável, sociável, ativo”. Pena que as crianças não vêm com essa descrição. Nem as mães. É tudo uma grande surpresa. De repente você tem um filho que parece um pastor alemão e tudo o que você esperava era um golden ou vice e versa. Para os filhos também: podem desejar uma mãe mais no estilo lulu da pomerânia e recebem uma com perfil de doberman. “Pena que as crianças não vêm com essa descrição. Nem as mães. É tudo uma grande surpresa.”. Foto: Divulgação/ Internet. O maluco é que as babás ficam no meio dessas personalidades todas, se adaptando à direção, numa calçada que nunca é a sua. É claro que acabam espantando uns pombos de vez em quando pelo caminho. Já não podem resmungar, chorar nem fazer careta – mesmo quando sentem dirigir na contramão da vida. Sibélia Zanon* é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta e Casca Vazia.