Há mais de uma década, quando o crítico Jean-Yves Tadié suscitou o furor dos leitores mais apaixonados de Em busca do tempo perdido aconselhando-os a “esquecerem um pouco Proust”, ainda não se conhecia a existência de um impressionante lote de 900 manuscritos que haviam pertencido ao escritor francês. O tesouro se encontrava nas mãos dos herdeiros de Suzy Mante-Proust, sobrinha de Marcel Proust morta no final dos anos 1980.
No último mês de setembro, a casa Sotheby’s levou o lote a leilão, com um valor estimado em quase 8 milhões de euros. Preço salgado, mas proporcional à curva astronômica do mercado proustiano, que viu em 2018 uma edição original de No caminho de Swann impressa em papel washi e dedicada a seu amante Lucien Daudet ser arrematada por 1,5 milhão de euros, também na Sotheby’s.
O principal interessado pela aquisição é a Biblioteca Nacional da França, que possui o direito de preempção e se viu obrigada a lançar — diante de uma inédita crise de endividamento público — uma campanha de arrecadação de fundos por incentivo fiscal. No catálogo constam trabalhos escolares de Proust; escritos de sua juventude; cartas íntimas e mais provas e manuscritos preparatórios de seu longo romance, verdadeiras Mil e uma noites do mundo moderno, como seu próprio narrador o diz.
A certeza é de que os novos documentos preencherão lacunas importantes da biografia ainda cifrada de Proust — reconstituída até hoje tanto por Tadié quanto por Painter muito mais pelo prisma da criação poética de sua obra do que pelos seus próprios dados íntimos, ainda bastante fragmentários. Os rascunhos inéditos, por meio do contraste entre os numerosos esboços, prometem esclarecer novas etapas do amadurecimento poético de Proust e do longo processo editorial da Busca do tempo perdido: método científico que os estudos literários nomeiam crítica genética e que tem na Escola Normal Superior de Paris um de seus principais centros de pesquisa.

As várias etapas da Recherche
Em busca do tempo perdido foi concebido nos seus primórdios não como o conjunto de sete volumes póstumos impressos por Gallimard com a anuência do irmão do autor, Robert Proust, mas, antes, como um tríptico em que o tempo perdido reencontrava o tempo redescoberto através do contato intermediário entre os mundos dos personagens Charles Swann e Oriane de Guermantes. Ciclos trágicos — como o amor do herói por Albertine ou do Barão de Charlus pelo alfaiate Jupien ou o violinista Morel — foram sendo acrescentados em camadas, pouco a pouco, entre idas e vindas da narrativa, sem que Proust pudesse dar ao texto (apesar do categórico “fim” de sua página final) suas pinceladas definitivas.
Nesse novo baú, a joia da coroa são os rascunhos do episódio de memória involuntária desencadeado milagrosamente pelas migalhas de madeleine em contato com chá de tília. Cena emblemática do romance, em que uma fagulha espontânea e imprevisível do mundo físico atiça os sentidos e determina os rumos da jornada do herói Marcel em seu próprio inconsciente. Episódio que funda, no feliz dizer do romeno Mircea Cărtărescu em uma conferência na Maison de la Poésie de Paris há algumas semanas, a própria ideia de memória orgânica na literatura ocidental.
Antes de ser madeleine, o bolinho de leite e manteiga com delicada forma de vieira foi também uma fatia de pão dormido, uma fatia de pão tostado e então uma torrada. Essas outras etapas primordiais do episódio já haviam sido descobertas em 2018, quando da morte de Bernard de Fallois, primeiro editor dos manuscritos de Jean Santeuil (1952) e Contra Sainte-Beuve (1954).

‘Graal proustiano’
Nos anos cinquenta, Bernard de Fallois — ainda um jovem pesquisador com obscuro passado colaboracionista e ambições revisionistas — recebeu da sobrinha de Marcel Proust, Suzy Mante-Proust, a tarefa de organizar a montanha de papéis deixada por seu tio. Após a guerra, Proust já não despertava grande interesse do público leitor. Foi Fallois um dos grandes responsáveis pelo novo momento de vulgarização da Busca do tempo perdido e pelo combate da leitura desse romance como uma obra autobiográfica, em que narrador e herói convergem em uma figura esnobe e mundana do autor.
Fallois conservou consigo uma pasta com setenta e cinco fólios que contêm os primeiros instantes de redação da Busca do tempo perdido, etapa criativa em que o célebre caminho de Swann, por exemplo, ainda se nomeava Villebon. Somente sete décadas depois, após a morte de Fallois, os documentos foram doados à Biblioteca Nacional da França.
Guardada em segredo por todo esse período, a pasta chegou a ser apelidada pela crítica de “graal proustiano”. A combinação dos novos novecentos documentos com os setenta e cinco fólios e mais os conhecidos manuscritos de Contra Sainte-Beuve completa — em tese — a gênese inicial de Em busca do tempo perdido.
Quando chegaram ao Departamento de Manuscritos da Biblioteca Nacional da França, os setenta e cinco fólios foram confiados à conservadora Frédérique Pelletier para uma restauração. O procedimento — minimalista — buscou preservar as dobras das páginas e manchas das mãos.
O dossiê recebeu somente uma nova encadernação e teve furos preenchidos. Sobre o papel, foram encontrados resquícios do mítico Pó Louis Legras, medicamento a base de datura, resina de java e nitrato de potássio do qual Proust e a maior parte dos asmáticos da virada do século eram adeptos contumazes. Uma assinatura química de autenticidade.
Se a Biblioteca Nacional da França lograr adquirir o novo lote de documentos do espólio de Marcel Proust, passará a ser o maior depositário — e público, e livre e digital, importante sublinhar — dos arquivos do escritor. Os esforços da instituição para incorporar os manuscritos de Proust ao tesouro nacional francês datam dos anos sessenta, quando a administração de Julien Cain adquiriu um primeiro lote de documentos dos herdeiros. Em 1977, foi comprado um novo lote da família e, em 1983, somou-se uma terceira aquisição de 13 cadernos de rascunho pertencentes à coleção de Jacques Guérin.
Com manuscritos que não cessam de se multiplicar, ganha fôlego a dúvida do narrador de Proust diante da morte do escritor Bergotte: “morto para sempre? Quem poderia dizê-lo?”
Fillipe Mauro é professor de civilização brasileira na Universidade de La Rochelle. Autor do livro Três leituras brasileiras de Proust (Classiques Garnier, 2023), pesquisa o romance Em busca do tempo perdido e sua recepção no Brasil.