Confissões do ansioso
ansiedade, saúde mental, introspecção, perfeccionismo, crise existencial
A suposição volta esmagadora e penso voltar o gravador para a primeira voz. Aquela que abre a porta do inferno, onde pergunto o porquê disso tudo. Matheus Lopes Quirino Está tudo bem. Alguém me diz, assim que me levanto da cama. Algo me diz que não. Corro ao computador, porque o celular descarregou. De princípio, parece estar tudo bem. Mas na verdade não está. Sinto que não, como sinto o cheiro do ralo. Levanto-me da escrivaninha. Os outros almoçam quietos e fingem normalidade. O dia está escaldante. Os finos raios de luz penetram as cortinas pálidas. Escuto algo cair no andar de cima. É o contorno da fechadura. A amálgama de ferro que contorna o fecho. Com o bater ruidoso da porta, ela estremece e a rodinha é arremessada pelo corredor. As coisas vão bem, penso. Quando subo as escadas em direção ao leito, me sobe também um terrível desgosto. Um desgosto falso. Explico. O calor começa a atormentar meu corpo, suo para burro, começo a me despir até ficar só de short. Recosto o corpo na parede gelada. E daí? Aí o desgosto vem. Ele brota em uma tarde de domingo completamente sorrateiro. Inexpressivo, de início, ele toma proporções monumentais. Estou suando por dentro e por fora. Um milhão de preocupações me atingem como os raios solares atravessam os finos fios da cortina. O remédio está fazendo efeito? Pergunto a mim mesmo. E, para completar, respondo. Está. “Mas é que”. E começa uma tarde gostosa sambando no inferno da suposição, molhando a própria carne no gosmento líquido prolixo que parece contaminar via perdigotos aos pensamentos. “É que”. Só a guilhotina é capaz de cortar pela raiz a razão do problema. Se é que há. A sandice é uma espécie de bronzeador nessa queima gratuita dos problemas crônicos de auto estima. Cenoura e bronze. Tá mais para queimadura de terceiro grau. Sossego e levanto para poder ter uns segundos de paz antes de engatar na próxima cruzada moral. Observo as linhas do assoalho. As rachaduras nas estremas (com s mesmo, vá ao dicionário) do teto acabado em gesso. Estou completamente obcecado para resolver um perrengue imaginário. Não há uma luz que me faça voltar atrás. Por isso ando em círculos. Não estando atrás, nem na frente, o privilégio do meio é ter risíveis minutos acrescentados à conta do martírio. A suposição volta esmagadora e penso voltar o gravador para a primeira voz. Aquela que abre a porta do inferno, onde pergunto o porquê disso tudo. O primeiro porquê. A razão, minha razão de tudo. É preciso acabar com o primeiro ato antes que a tragédia se manche e faça da tarde um fracasso. Ligo para amigos, tento escrever, ler, dou mais voltas ao redor do quarto. Matuto, penso sobre a neura e volto atrás. Não abro mão do perfeccionismo para refutar o que, inventado, vem me fustigando. Detalhe por detalhe. E a soma é poderosa. Quando mais encho meu júri de argumentos de defesa. O outro eu contra-ataca com as minhas próprias sacadas. Melhor ficar calado e ligar o ventilador. Torcer para os ouvidos não começarem a sangrar. A viagem termina por alguns momentos. Quando chega o estado inerte de profundo desgosto. Fecho o vidro do quarto cujas paredes conservam um silêncio ensurdecedor. Ouço o sangue correndo pelo corpo até pegar no sono, não sem antes colocar na conta um ou outro pecado que não cometi, para já me adiantar.
Texto originalmente publicado em Revista Fina