Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Seu Justino Vieira está aposentado do cargo de secretário da Faculdade de Mitologia de Rio das Paridas. Viúvo e esquecido pelos filhos, sua especialidade é remoer seu passado: sua infância no Alvide, um rincão quase esquecido, seu tempo com seu tio Barbarino, tudo que fez e, principalmente, o que deixou de fazer. O principal alvo das suas memórias, contudo, é seu chefe, que o perseguiu e maltratou ao longo de tantos anos e que tanto prazer demonstrava em ser superior e em galgar posições sociais. De nome estranho – Jileu Bicalho Melão – o diretor da Faculdade de Mitologia parece ser o centro da narrativa de Justino Vieira, mas aos poucos vamos percebendo que o que ele quer contar é outra história. Sua própria história de amor.
Francisco J. C. Dantas, sergipano de Riachão do Dantas e um dos melhores escritores do Brasil, tem como especialidade justamente a narrativa de memórias de sujeitos interioranos, amargurados, cheio de arrependimentos. Títulos como Coivara da Memória, Cartilha do Silêncio, Cabo Josino Viloso e seu mais recente livro, Caderno de Ruminações, demonstram isso. Uma habilidade notável do sergipano, além disso, é a forma como ele constrói a linguagem. Mesclando palavras do dia-a-dia de um legítimo habitante do interior nordestino – beiços, bulir, traseiro, chilique – a vocábulos raramente encontrados por aí – sáfaro, vetusto, desaçaimado, facundioso, filipa, serôdia, caliginoso, siderado…
A lista é extensa, mas não há sinal de boçalidade, nem de artificialismo no seu texto. É trabalho de artífice. Lembro-me de Cormac McCarthy, especialmente em Meridiano de Sangue, onde cada palavra “rima” com a outra, levando a uma sonoridade surpreendente e agradável. Não há impulso, não há improviso, nem pressa: Francisco J. C. Dantas passa a impressão de escrever com paciência, talvez no ritmo do balançar de uma rede, na boca da noite, no alpendre da sua casa, no interior de Riachão de Dantas. Talvez haja ali uma luz tênue, o suficiente para que ele enxergue, em seu caderno de estudante, as palavras desenhadas a lápis. O caderno repousa nos seus joelhos, dobrados, e sua cabeça está apoiada num travesseiro fofo, o mesmo que ele usa para dormir. Ele escreve uma frase, relê, não gosta. Apaga um trecho com uma daquelas borracha vermelha e azul, já consumida pelo uso. Fecha os olhos e revê toda a frase em sua cabeça. Repete-a em voz alta e encontra o verbo a ser substituído. Ao acabar, chega a algo assim:
“Hoje, de cabeça fria, branca, e ainda por cima pelada, cansado de ter rodado muito sem dar jeito a nada, já com tanto tempo de permeio, pondero ao arrepio da desforra que, naqueles dias amargos, o sangue quente reclamava. Já não posso dizer se agi bem ou se fui mal”.
Relaxa o pescoço e afunda a cabeça no travesseiro. Tira os óculos, estira as pernas, respira fundo e contrai levemente os cantos dos lábios, um quase sorriso de quem sabe que agiu bem.
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