A escritora Toni Morrison na juventude (Creative Commons) Além de tratar do racismo, O olho mais azul reflete os dias atuais pelo olhar minucioso da Nobel Toni Morrison. Sara Beatriz Rodrigues Para alguns, o ditado se prova verdadeiro: a beleza está nos olhos de quem vê. Para outros, a beleza consiste em ter olhos azuis. O romance O Olho Mais Azul, escrito pela vencedora do Nobel Toni Morrison conta a história de Pécola, uma menina negra retinta que era considerada feia pelas outras pessoas – e por si própria – e sonhava em ter olhos azuis para ser, mais do que bonita, amada e aceita. A maior parte da história é narrada por Cláudia, uma mulher negra que tenta recuperar o que ocorreu durante sua infância na primavera de 1941. O romance é construído através de recortes das histórias das personagens, com várias digressões ao longo do livro. Através desses flashbacks, Morrison conseguiu trazer a visão de que ninguém é só bom ou só mal, de modo que vilanizar alguns personagens por suas ações, no mínimo duvidosas, se torna extremamente difícil, uma vez que vislumbramos os abusos, exclusões, violências e sofrimentos que carregam. A infância de Pécola, Cláudia e sua irmã, Frieda se passa na cidade de Nova Iorque, onde as personagens e o leitor percebem nitidamente a diferença de tratamento que os professores e até suas próprias mães endereçam a elas, meninas de pele escura, e as elas, meninas loiras de olhos azuis ou até mesmo negras de pele mais clara. Cláudia menciona que não sente ódio pelas meninas de olhos azuis, mas sim o que tem por trás; o porquê essas meninas recebem olhares mais afetuosos do que ela. “A Coisa a temer era a Coisa que tornava bonita a ela e não a nós.”, diz ela. “Lançada dessa maneira, na convicção de que só um milagre poderia socorrê-la, ela jamais conheceria a própria beleza. Veria apenas o que havia para ver, os olhos das outras pessoas.”, completa Morrison. Construída cheia de pequenos detalhes, ler a história composta por Morrison é como ser transportado numa viagem no tempo. Sentimos alívio, medo, sofrimento e pequenas alegrias junto com os personagens. Percorremos a rua da Broadway e visitamos Kentucky e Geórgia do século XX. A trama dá voz a temas constantemente silenciados, porém necessários, principalmente nos dias de hoje, com ondas de protestos sobre a importância de vidas negras eclodindo ao redor do mundo. Todos deveriam ler O Olho Mais Azul, que além de tratar do racismo, ressignifica os motes como a autoestima de pessoas negras, feminismo negro, abuso infantil, entre outros que ainda refletem os dias atuais e são levantados pelo olhar minucioso de Toni Morrison. O olho mais azul Toni Morrison Companhia das Letras 2019