Será que só eu tenho a certeza de que não, eu não nasci para ser mãe. Essa função não me foi passada por herança genética nem está no meu DNA.

Maria Paula Curto*

Se a minha vida seria mais simples sem as minhas duas princesas de Wakanda? Com toda certeza. Mas, seguramente, seria muito mais enfadonha. Não, definitivamente eu não nasci para ser mãe. Mas venho tentando aprender. . Foto: acervo da autora.

Passou o Dia das Mães e logo me veio à mente a seguinte frase, que eu sempre ouço e questiono: “Toda mulher nasceu para ser mãe”. Será? Pela quantidade de crianças abandonadas, largadas ou malcuidadas, eu tenho dúvidas. Será mesmo? Você, então, pode me contestar dizendo que esses são casos isolados, que ocorrem devido a questões sociais ou de (falta) de políticas públicas. E que mulheres com boas condições socioeconômicas são, sim, boas mães. Continuo a perguntar: Será? Será que as mães da classe alta ou média alta são sempre mães maravilhosas? Será que o critério para definir se uma criança é bem cuidada passa apenas por moradia, escola, comida e sistema de saúde de qualidade? Claro que esses itens são importantes, fundamentais até, eu diria, mas serão suficientes? Onde entram afeto, carinho, ou algo bem mais simples como: atenção? Quantas mães da Faria Lima conversam com seus filhos olho no olho? Quantas realmente conhecem seus desejos, receios ou expectativas? Ou quantas apenas terceirizam os cuidados da sua criança com outras mães que, para sustentar suas proles, acabam por deixá-las à própria sorte, sendo cuidadas por parentes ou vizinhas? E aí me vêm outra pergunta: entre essas duas, qual tem maior instinto maternal? Conseguimos avaliar? Eu, particularmente, tenho uma pista, mas vou guardar pra mim para criar um pouco de suspense.

Nascer para ser mãe. O que será isso? Um útero fértil e um parto indolor, em que o bebê nasce forte e saudável em 45 minutos? Talvez isso signifique ser uma boa parideira, mas ser mãe deve requerer outros aspectos, não é mesmo? Ter bastante leite e amamentar até 1 ano de idade para garantir uma criança saudável? Também não deve ser só isso, ou estaríamos comparando a maternidade com uma leiteria. Largar o emprego e se dedicar 100% àquele novo ser? Será isso? Não creio, ou estaríamos condenando grande parte das mães brasileiras, que são hoje chefes de família, a uma categoria de mãe displicente. Mas então, que raios é nascer para ser mãe? Será que toda mãe já nasce pronta? Com um cinto de utilidades, pronto para ser usado nos momentos de desespero? Santa maternidade criativa, Batman! Será que existe receita? Os 10 passos infalíveis para ser uma boa mãe ou Motherhood for dummies, versão em português, 5.0? Se tivesse, eu teria uma biblioteca para dar inveja à de Alexandria, pode apostar.

Talvez o grande barato da maternidade seja a travessia em si. Sem colete salva vidas. Sem bússola nem lanterna. Só com a vontade. E uma certa dose de loucura. Foto: Acervo da autora.

Será que só eu tenho a certeza de que não, eu não nasci para ser mãe. Essa função não me foi passada por herança genética nem está no meu DNA. Ela vem sendo construída aos trancos e barrancos, com altos e baixos (muito mais baixos do que altos, eu diria), no famoso método tentativa e erro. E volto a perguntar: só eu sinto isso? Só eu perco a paciência e falo mais duro do que deveria? Só eu reclamo dia e noite da falta de estudo, de curiosidade e de interesse pelo mundo dessa nova geração? Só eu que, às vezes, tenho vontade de jogar tudo pra cima e sair correndo? Só eu perco o sono e acordo exausta achando que não vou dar conta de mais um dia? Só eu fico desanimada, achando que por mais que eu fale, fica tudo no vácuo e que eu só tomo balão? Só eu repito a mesma ladainha todos os dias e continuo com a sensação – ou a certeza – de que nada muda? Só eu canso a minha beleza – que já não é das maiores – repetindo que educação é que faz a diferença e fico vendo as caras de tédio, rolando as telas do celular em busca do próximo hit do TikTok? Só eu olho para o céu e peço a Deus que me dê paz e tranquilidade, pois se ele me der força eu vou bater de par em par até virar ímpar? Só eu? Euzinha apenas? Tudo bem, então. Eu assumo o meu fracasso. Sou uma mãe falha. Cheia de defeitos. Que erra bem mais do que acerta. Que briga, berra, se descabela. Cansa. Chora. Pensa: Será que me meti numa super roubada?

Ser mãe, para mim, não é nada fácil. É muito mais complexo do que cálculo diferencial integral ou física quântica. Ou Heidegger e seu dasein. Ser mãe, pelo menos para mim (e não tenho a menor pretensão de falar pelas outras mães, por favor), não é um ofício nato, é luta. Diária. E para a qual eu vim bem desarmada, totalmente despreparada e terrivelmente analfabeta. Não consigo encontrar uma fórmula, um método, um simples padrão a ser seguido. Me sinto estrangeira nesse novo mundo. Morrendo de medo de não conseguir fazer a travessia, de não conseguir chegar lá. Se é que existe um “lá” possível. Talvez não exista mesmo. Talvez o grande barato da maternidade seja a travessia em si. Sem colete salva vidas. Sem bússola nem lanterna. Só com a vontade. E uma certa dose de loucura. Loucura essa que faz a gente seguir em frente, mesmo sabendo o que nos aguarda no fim (essa consciência da finitude é um spoiler do caramba, não?)

Se a minha vida seria mais simples sem as minhas duas princesas de Wakanda? Com toda certeza. Mas, seguramente, seria muito mais enfadonha. Não, definitivamente eu não nasci para ser mãe. Mas venho tentando aprender. Se vai dar certo? Não faço a menor ideia. E quem pode saber?

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP