Estou em um esforço para emparelhar a minha produção por aí com os textos do blog. Este texto aí foi publicado hoje no Literatortura (www.literatortura.com). Eu considero a literatura como um ato de subversão, e o mais íntimo deles: uma subversão a si mesmo. O autor contra si mesmo. Ou o texto vale a pena ou o silêncio é uma alternativa melhor.
A literatura como ato de subversão
Escrever é um ato subversivo por natureza. Não consigo conceber a literatura sem subversão, sem o rompimento de limites, sem o desejo incessante de buscar algo imanente e que jamais será alcançado – a literatura é prender uma nuvem dentro de um copo. Se hoje você acordou e escreveu um texto pensando em agradar certo tipo de público ou usando alguma fórmula já batida, neste caso, meu amigo, você é um escrevinhador, não um escritor. Será feliz, talvez terá fama, dinheiro ou outras efemeridades, mas nunca saberá o que é morrer um pouco quando escreve algo. Deixar vida nas palavras, perder a sanidade uma gota de tinta de cada vez.
Se eu tivesse que escolher uma expressão para classificar “literatura”, escolheria “dor”. Escrever machuca, por dentro e por fora. A cada texto que termino, não sinto esta descarga de alívio que muitos relatam; parece que envelheci alguns anos. As costas doem, as pernas estão rijas ou sofrendo câimbras. Não sei o que faço com os dentes, mas o queixo lateja. Os dedos que seguram a caneta estão roxos. Os olhos queimam, vermelhos. Sem contar a dor de cabeça, que precisa aguentar a polifonia teimando em escorrer pelos dedos, na corda bamba que é optar por aquela palavra e não por outra. Sinto como se tivesse corrido uma maratona. Escrever é o mais próximo de morrer que conheço e, apesar de ser uma loucura, de ser algo que me leva a infernos que preferia não conhecer, ainda assim, escrevo. Faço por que não tenho opção, pois o não-escrever é ainda pior. Acreditem-me, eu tentei.
Não conto isto para me glorificar ou buscar compreensão. É um problema meu com a literatura, uma luta particular que travamos há muitos anos e que não vejo perspectiva de acabar. Falo por que a subversão não precisa ser temática (é impressionante a quantidade de escritores que colocam palavrões, podridões e dejetos no texto achando que estão sendo “subversivos”), ela necessita ser interna, uma luta contra si próprio estabelecida dentro de cada texto, de cada linha. Não existe história pela metade ou “meia boca”. Ou é tudo ou não é texto. Ou o escritor se arremessa com a alma no que escreve ou é melhor ficar calado, e isto vale para todas as artes. Dom Quixote quebrou-se todo ao se jogar contra o moinho de vento, mas nunca duvidou que pudesse derrubar o gigante.
Em 1895, um escritor russo escreveu uma peça de teatro e leu-a para um grupo de amigos e de encenadores. Ao final da apresentação, o diretor do teatro disse: “meu amigo, isto não é para o palco!”. O autor reescreveu trechos da obra, mas sabia que a ideia principal precisava ser mantida. Um ano depois, contra recomendações, ele levou a peça aos palcos pela primeira vez. Ela foi vaiada do início ao fim, com uma quantidade tão agressiva de apupos que o escritor viu-se forçado a fugir do teatro, temendo pela sua integridade física. Somente em 1898 ele deixou a peça vir novamente a público, virando um gigantesco sucesso. O título dela era “A Gaivota”, e o seu autor Anton Tchekhóv. A trama passou para os manuais de Literatura como uma das peças teatrais mais representadas de todos os tempos.
Quando lembro esta história, não penso nas críticas, nas vaias, na vitória final. Tudo o que consigo pensar é na solidão de Tchekhóv na noite em que saiu do teatro com medo de levar uma surra. Na sua caminhada pela neve, as vaias ainda ribombando nos ouvidos. Na figura esguia contornando becos, fugindo da vergonha que vinha com a luz. No que ele deve ter pensado enquanto ia para a sua casa com todo mundo lhe dizendo para jogar fora o que escreveu, que ninguém gostava, que ele não teria sucesso algum.
E, apesar de tudo, Tchekhóv prosseguiu. Não está mais vivo, mas a peça continua sendo representada. Pois a subversão nunca é contra o mundo, é contra si próprio. Seria muito simples para Tchekhóv jogar fora “A Gaivota” ou fazer algo que agradasse ao público, mas ele estaria se corrompendo, e não existe maior violência do que ir contra si mesmo.
Escrever é viver, e viver é sempre perigoso. Para Deleuze, escrever é uma forma de traçar rotas de fuga: dos outros e de si mesmo. Somente fugindo do fluxo pré-estabelecido, a literatura existiria como um elemento dissonante, capaz de escapar do sistema de poderes que subjugam a sociedade. Quanto mais o escritor lutar para se afastar de si próprio, mais ele estará se aproximando do conceito de devir, se considerarmos que o próprio ato de escrever se torna um fluxo que participa na corrente, na contracorrente, no redemoinho com outros fluxos e que a literatura é uma máquina de guerra, que deve ser necessariamente associada a outros fluxos. Quando a literatura é suficientemente intensa, conjuga-se às outras máquinas de guerra estabelecidas na sociedade e torna-se veículo de resistência ao sistema. Escrever não é algo indiferente; quando você preenche uma linha sequer, ela tem que significar algo muito maior do que você mesmo. Ela tem que doer – em quem escreve, em quem lê.
Quem entende a literatura como um ato mecânico ou de glorificação do ego, está entendendo tudo errado. Igualmente o faz quem entende como um exercício panfletário ou um tratado sociológico. Literatura é despedaçar-se em palavras. É entregar a alma para um demônio faminto. É olhar o verdadeiro rosto no espelho, o semblante que temos medo. O preço de procurar o limite, aquela zona em que a história sai do comodismo e entra nas planícies excitantes da subversão ao próprio autor, todos sabemos: é ser vaiado, criticado, caminhar sozinho na neve como Tchekhóv. E, ainda assim, nunca desistir de si mesmo e da história que precisa ser contada.
(Texto originalmente publicado no link: http://literatortura.com/?p=18558 )

Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo
