Profissionalização do escritor,
Literatura brasileira,
Mercado editorial,
Academia,
Pesquisa acadêmica
Larissa Nakamura
Crédito da Imagem: Grant Snider
No final do mês passado, defendi meu trabalho intitulado “A profissionalização do escritor entre a literatura e o mercado”, uma reflexão que teve início ainda nos tempos de graduação. Fazer uma análise do caminho percorrido até aqui me traz a sensação de dever cumprido por ter escolhido um tema que, muitas vezes, parecia fugidio demais para mim e para a própria comunidade acadêmica. Mas voltemos ao começo.
Ainda na graduação, momento em que realizava minha iniciação científica, o tema da profissionalização foi sugerido pela orientadora. Meu projeto se resumia a tentar montar um perfil do autor Luiz Ruffato a partir da leitura e análise da recepção crítica de suas obras (resenhas em cadernos literários e revistas acadêmicas, trabalhos acadêmicos, divulgação na grande imprensa, entrevistas) e de dois livros ficcionais do escritor. Com o desenvolvimento da pesquisa, em uma segunda etapa, a sugestão para considerar a profissionalização como um veio de pesquisa me instigou a ampliar meu olhar sobre o campo literário brasileiro. A partir de então, dei início às primeiras leituras, que me acompanhariam até o mestrado. Mas havia ainda problemas que não pude resolver em tempos de graduação: foram insuficientes as referências bibliográficas coletadas e lidas, e eu ainda lutava para entender exatamente o que era a profissionalização do escritor.
Passado o processo de seleção, já como aluna do programa de pós-graduação, teria tempo para me dedicar inteiramente ao meu tema escolhido. O projeto inicial passou por mudanças necessárias para fugir da minha zona de conforto e enfrentar desafios maiores: ao invés de investir minhas energias na investigação da carreira profissional de um autor específico (Milton Hatoum e Luiz Ruffato, que eu já conhecia bem), me voltaria à investigação das condições de profissionalização do escritor brasileiro nas últimas décadas, tentando traçar um breve panorama histórico da profissionalização no Brasil, para discutir a intrincada relação entre a arte e o mercado.
Com um assunto tão atual, mas ao mesmo tempo, tão pouco discutido, comecei a encarar alguns dos empecilhos que viriam à frente. Como afirmo na dissertação, o próprio termo “escritor profissional” constitui um problema e definir a profissionalização, é um obstáculo tanto para os teóricos que se debruçam sobre o assunto quanto para os produtores culturais que movimentam a vida literária. São diversas as razões para essa dificuldade, como, por exemplo, o limitado número de referências bibliográficas que se detêm especificamente no tema, além do fato de a discussão sobre a profissionalização dos escritores ser, de modo geral, ainda controversa e pouco tratada no espaço acadêmico devido ao envolvimento da arte com a lógica econômica.
Diante desse problema, busquei auxílio teórico também em outras áreas, me esforçando para dar conta da complexidade da profissionalização, como a sociologia e as ciências políticas. As reflexões que propus nos posts do blog foram também de imensa ajuda, serviram como necessário exercício de escrita e para ir “tateando” os assuntos afins à pesquisa, as maiores inquietações do momento e que poderiam reverberar no momento da escrita da dissertação. Em especial, os posts “ Literatura e vida literária: censura, cultura e profissionalização ”, “ O ano em que vivi de literatura, de Paulo Scott ”, “ Literatura e profissionalização ”, “ As agruras de um poderoso editor ” e “As oficinas literárias e a profissionalização do autor” foram posteriormente expandidos e incorporados ao meu texto final por tratarem de questões imprescindíveis à pesquisa, além de tocarem na problemática central sob óticas diferentes, tornando-a mais complexa, mais ramificada.
Os desafios foram inúmeros e montar o quebra-cabeça, ou seja, escrever a dissertação, o que envolve não apenas a problematização das referências bibliográficas selecionadas para discussão, mas sobretudo a maturação e exposição das minhas próprias ideias em relação ao tema, foi apenas mais uma peça no grande processo da pesquisa. Sobre a dissertação, cada capítulo e subcapítulo do trabalho final foi pensado de modo a guiar o leitor pelas múltiplas facetas que a profissionalização guarda, respeitando a complexidade que o tema possui. O primeiro capítulo, separado em dois subcapítulos, buscou discutir em que consiste a profissionalização literária, considerando a abordagem de diferentes teóricos, além de apresentar uma breve trajetória da profissionalização literária no Brasil. O segundo capítulo, também dividido em dois subcapítulos, baseou-se na coleta de entrevistas de escritores, na tentativa de apresentar as posições/concepções de diferentes agentes do campo literário sobre a profissionalização, discutir as instâncias responsáveis por sua promoção (a participação em diversos eventos literários, as oficinas de escrita criativa, os prêmios literários etc.), enfim, as dinâmicas do próprio campo literário. Por fim, no terceiro capítulo, a partir da
análise das obras O ano em que vivi de literatura (2015), de Paulo Scott, e Ninguém (2016), de Ieda Magri, promovi uma discussão sobre como o tema da profissionalização
é abordado dentro da literatura em relação às questões discutidas em capítulos anteriores.
Passado um mês desde a defesa, o sentimento de que a tarefa foi cumprida torna-se cada vez mais sólido e também a esperança de que o trabalho (em breve disponível no repositório institucional da UFBA) poderá ser útil para outros pesquisadores que queiram dialogar e que se disponham a enfrentar os desafios colocados pelo passado, os que permanecem no presente e os que surgirão aos estudiosos futuros que continuarem acreditando que o estudo e a investigação valem a pena.
Literatura contemporânea,
Relação escritor e mercado financeiro,
Profissionalização da escrita,
Mito do escritor romântico,
Poesia versus Prosa
Davi Lara
Créditos da imagem: André, Derain. Portrait of a Man with a Newspaper (Chevalier X).
Não faz muito tempo, conversando com uma jovem escritora amiga minha, lhe falei de Ben Lerner, um dos meus autores contemporâneos favoritos, mais ou menos com essas palavras: “Ben Lerner é um escritor americano que iniciou sua carreira publicando livros de poesia, que se declara poeta, que se vê como um poeta, mas escreve romances para poder ganhar dinheiro. Já escreveu dois até agora e, para seu infortúnio, são romances admiráveis, o que o tornou muito mais conhecido como romancista do que como poeta.” Talvez seja importante dizer que esta minha amiga nutre um ódio perfeitamente irracional pela poesia. E eu, que acho esse ódio divertidíssimo, sempre que posso, toco no assunto para ver sua reação. Assim, mal terminei de falar, a jovem prosadora fez uma careta de desaprovação e perguntou como isso poderia ser interessante. Acontece que, nesse caso, o desapontamento dela com minha apresentação tendenciosa de Ben Lerner não se devia ao fato de ele valorizar a poesia acima da prosa, mas ao fato de ele escrever por dinheiro, e ainda por cima admitir isso.
Esse episódio me fez pensar no imaginário que se construiu em torno do escritor como uma figura quase sacerdotal que precisa abdicar das distrações mundanas, como a fama e o dinheiro, para poder consagrar sua vida à literatura. É o que se vê, por exemplo, em Ilusões Perdidas, esse grande clássico do século XIX de Honoré de Balzac, no qual conhecemos a história de Lucien Chardon, um jovem poeta provinciano que se muda para a capital em busca do sonho de ganhar a vida como escritor. Na capital, Lucien, que era extremamente talentoso, se vê entre dois grupos distintos: de lado, os jornalistas, que lhe oferecem uma forma rápida de ascender socialmente, mas que o obrigam a usar sua pena para um tipo de escrita mercenária que estava aquém do seu potencial literário; e, de outro, o Cenáculo, um grupo de escritores talentosos e austeros liderado por Daniel d’Arthez, que acreditavam no potencial de Lucien, mas tinham a desvantagem de serem extremamente pobres.
Já faz muito tempo que li esse livro, logo, muita coisa de suas quase 800 páginas se perdeu. Mas ainda tenho vívida na memória a desolação que senti ao ler a descrição das condições de vida precárias de Daniel d’Arthez, que mal tinha dinheiro para comprar lenha para se aquecer no inverno. Lembro, também, que fiquei bastante impressionado com a força moral deste escritor que não se deixa corromper pela via fácil da literatura de aluguel do jornalismo e condenei Lucien quando se afastou do Cenáculo para se tornar um jornalista. Hoje, mais de dez anos depois, não me sinto mais tão confortável para condenar o jovem Lucien por escolher uma profissão que lhe garantisse o básico para sua sobrevivência. Seja como for, o próprio romance induz o leitor a condenar a escolha de Lucien ao tomar partido de uma visão de mundo romântica de acordo com a qual o mercado é um grande vilão que impede o florescimento da boa literatura.
É interessante notar que o caso do próprio Balzac testemunha contra essa tese, posto que ele foi um dos primeiros escritores profissionais, isto é, que recebia por livro escrito, e ainda assim conseguiu escrever obras-primas como esse Ilusões Perdidas. De qualquer modo, o que me interessa pontuar é que, hoje, apesar de essa visão sacerdotal do escritor ainda ter bastante força, ela convive com a constatação de que o escritor, como um profissional qualquer, precisa de dinheiro para sobreviver. Prova disso é a maior abertura com que os escritores falam desse tema em seus romances. Um bom exemplo é o próprio Ben Lerner, que no seu último romance, o ótimo 10:04, fala abertamente que, depois do sucesso de seu primeiro romance, só voltou a este gênero por causa do cheque de seis dígitos que lhe foi oferecido por uma importante casa editorial americana.
Poderíamos citar, também, o escritor catalão Enrique Vila-Matas, que, sempre que pode, se queixa da vida do escritor contemporâneo. É o que acontece em Doutor Pasavento, por exemplo, romance no qual o protagonista é um escritor catalão de êxito que, cansado da rotina de palestras, entrevistas e autógrafos, decide desaparecer, arrumar as malas e fugir para um lugar onde ninguém o conhece para poder escrever em paz. “Los escritores de antes”, um texto já comentado aqui no blog em que o escritor espanhol homenageia Roberto Bolaño, segue a mesma linha. Nele, o autor espanhol descreve Bolaño como a encarnação daquele que, para Vila-Matas, é o ideal de escritor, isto é, um escritor como aqueles de antigamente, que escreviam “com a única finalidade de comunicar-se com os mortos e não haviam ouvido falar do mercado”.
O que acho mais interessante deste texto é que, diferentemente destes “escritores de antes” de que Vila-Matas fala, Bolaño viveu numa época onde não só se ouve falar do mercado, como o mercado parece ter se imposto a todos os setores da vida humana, inclusive a literatura. Curiosamente, apesar do mito que se criou em torno de seu nome, a trajetória de Bolaño não passa incólume aos tentáculos onipresentes do mercado, como mostra o episódio da publicação póstuma de 2666.
Como se sabe, este romance é composto de cinco partes, que Bolaño queria que fossem publicados separadamente, visando assegurar a situação econômica de seus filhos. Acontece que, depois de sua morte, instruídos por Ignacio Echevarría, amigo indicado pelo próprio Bolaño para aconselhar seus herdeiros em assuntos literários, decidiu-se publicar os cinco livros em um só volume. É verdade que esse caso não está totalmente alheio ao mito-Bolaño, posto que reforça a ideia de um escritor abnegado, que dedicou os últimos dias de sua vida para compor uma obra que garantisse o conforto financeiro de seus filhos. No entanto, junto a tudo isto, sobressai a figura de um escritor que não só é bastante consciente do funcionamento do mercado, como está disposto a sacrificar seu projeto literário em prol de uma estratégia mercadológica. O que vai de encontro à imagem de Bolaño (que, diga-se de passagem, assim como Lerner, era um poeta que migrou para a prosa por questões financeiras) como o ideal de autor romântico.
Seja como for, todos esses exemplos são bastante ambíguos no que diz respeito à relação dos escritores com o mercado. No entanto, o fato de existir, hoje, um espaço crescente dentro dos romances dedicado aos meandros práticos da profissão da escrita pode indicar uma mudança da figura do escritor no nosso imaginário.
Profissionalização do escritor,
Mercado editorial,
Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica),
Carreira literária,
Relação autor-leitor
Por Larissa Nakamura
“profissionalizar-se antes de se tornar um profissional das letras” – Silviano Santiago
Aconteceu em outubro nossa Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que a cada ano cresce e atrai mais visitantes (quem quiser saber mais, pode acessar a recente entrevista que o organizador do evento, Emmanuel Mirdad, concedeu ao blog). Aproveitamos a oportunidade para assistir às mesas literárias, conhecer os escritores e também entrevistá-los sobre um assunto que muito nos interessa: a profissionalização do autor.
A participação dos autores revela como cada escritor reflete sobre sua carreira, sobre a interação com a mídia, o mercado e os leitores. João Filho cita a importância de travar parcerias com editores competentes e pequenas editoras locais, que pouco a pouco fortalecem seus catálogos e têm uma preocupação com a qualidade editorial, tornando os livros atrativos e comerciáveis o suficiente para concorrer com as demais publicações do mercado. Além disso, há também o interesse em atingir o grande público, vender e popularizar suas histórias. Notamos que longe de rejeitar os possíveis ganhos econômicos advindos da produção artística, João Filho os compreende como necessários para o escritor, para a construção de uma carreira no campo das letras.
João Filho: […] no Brasil, tem que divulgar a obra. O que é ser escritor profissional no Brasil hoje? Hatoum tava falando mais cedo que os Dois irmãos, que eu considero a obra-prima dele vendeu um negócio absurdo, não foi? Um negócio assim, uma coisa linda, uma cifra maravilhosa, é muito bom acontecer isso. Isso é profissionalização? Eu não sei, até chegar direito autoral, livro que não chega, livro que você tem que ir atrás e a editora é pequena. […] O Gustavo Felicíssimo é o editor da Mondrongo, que publicou A dimensão necessária, ele me convidou em 2013, o livro foi publicado em 2014 e ganhou prêmio em 2015 da Biblioteca Nacional, então pra mim é tudo parceria, porque nesse sentido eu sou profissional. […] eu ganho dinheiro com a literatura e eu quero ganhar dinheiro, eu faço minhas palavras com as de Aurélio Schommer que é quando ele diz “Quero ficar rico”. Eu também quero, entendeu? Eu quero ganhar dinheiro, é claro. Você vê o seu livro adaptado (aponta para Milton Hatoum) pra tevê e eu falei para ele, para Milton, […] ele vai ser o novo Jorge Amado […] eu falo em questões de venda, isso vai ser ótimo para você, é claro. E Jorge Amado deu um conselho para João Ubaldo no seguinte: João Ubaldo reclamando da adaptação que fizeram de O sorriso do lagarto e aí Jorge falou assim: “Cobre o máximo que você puder e não veja.”. É claro que você quer fazer sucesso com o que você produz e eu produzo literatura, então nesse sentido sou profissional. Agora, essa pergunta sempre me deixa sem muita opção de resposta, porque eu só consigo responder assim: eu me empenho no que faço e tento fazer uma parceria com pequenos editores, que eu publico que é o Gustavo Felicíssimo, da Mondrongo, a P55, do Cláudio Portugal. O primeiro (livro), na verdade, foi quase um presente pra mim e todos são quase presentes pra mim, […] e tudo em edições pequenas, bonitas, edições benfeitas, e você trabalha como um mercador, como eu passei minha vida inteira dentro de um comércio, de uma venda no interior, eu continuo mercando, entendeu? Com os meus livros agora.
Eduardo Spohr destaca a pertinência de uma sólida rotina de trabalho que envolve tanto a escrita como o diálogo com os leitores, seja em um evento ou na interação proporcionada pelas mídias sociais.
Eduardo Spohr: Eu acho que o escritor profissional não é só aquele que ganha dinheiro com isso, eu já me considerava escritor profissional desde muito antes. Eu acho que, isso na minha visão, é aquele que leva a profissão a sério: escreve sempre que pode, persiste e tem uma rotina de trabalho. Acho que não só eu, como muitos que aí que não vivem de escrever, eu considero como escritor profissional, que tem essa seriedade na literatura. As feiras literárias fomentam a profissionalização no fato que levam mais gente a se interessar em ler e escrever, e isso que é excelente, a gente precisa de mais gente lendo e escrevendo, alguns vão se tornar escritores, outros não. Tem dois lados no espaço para se divulgar enquanto autor e ter contato com os leitores. O autor fica muito solitário e não vê muito o rosto de leitores, e quando ele vem a esses festivais, feiras, esse encontro é maravilhoso. E para o leitor também é legal, falando enquanto leitor, quando eu vou a feiras e vejo os autores que eu gosto, é o maior barato, porque você vai lá e conhece aquela figura que escreveu aquele texto, o contato é muito importante. Eu uso tudo que posso nas redes sociais para ter contato com os leitores, tenho o Twitter, Facebook, Snapchat, tô um pouco velho, mas, às vezes, eu uso também o Instagram.
Dois tabus são desconstruídos pelos comentários dos autores: o primeiro, presente na fala de Spohr, diz respeito à ideia de que todo autor de best-seller, sem exceção, vive confortavelmente das cifras de suas vendas sem se importar com a fatura de composição do texto; o segundo, é desmistificado pela preocupação trazida à tona por João Filho com a questão da sobrevivência financeira do autor, o que abala o culto ao artista amador, sem plano de trabalho ou projetos futuros.
João Filho é baiano, mestrando em literatura portuguesa, tem cinco obras lançadas e também traduzidas no exterior, participou de diversas antologias, e em 2015 ganhou o prêmio Alphonsus de Guimaraens pelo livro de poesia A dimensão necessária.
Eduardo Spohr é carioca, jornalista de formação, publicou cinco livros que são sucesso comercial no país e que agradam ao público jovem por conta das temáticas ligadas ao universo fantástico.
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curadoria literária,
carreira de escritor
Entrevista concedida pelo Whatsapp a Neila Brasil
Festas literárias, como a de Paraty e a de Cachoeira, desempenham importante papel na promoção dos escritores e de suas obras. Nessa entrevista, Emmanuel Mirdad, um dos organizadores da Flica, a Festa Literária de Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano, toca em muitas questões que já foram alvo de nosso interesse nos textos publicados aqui no blog, como por exemplo a questão da profissionalização do autor, do papel do agente literário. Chama a atenção o fato de Mirdad afirmar que os convites privilegiam autores que já possuem uma carreira literária mais ou menos estabelecida ou que tenham jogo de cintura para circular no campo literário. Não deixa de ser curiosa, então, a formação de um círculo vicioso alimentado pelas festas: o autor tem de ter algum destaque na vida literária para participar da festa, que como evento da vida literária, vai lhe dar algum destaque.
Agradecemos a entrevista e a reflexão que as respostas de Mirdad nos proporcionam. Vamos a ela:
Leituras contemporâneas: Após 5 edições da Flica, quais são os desafios e as conquistas?
Emmanuel Mirdad: Acho que a nossa maior conquista foi ter vingado uma festa literária na Bahia que não tinha e ela ter tido esse sucesso, tanto de público como de repercussão no meio literário. Os autores já conhecem a Flica, o mercado já sabe que tem a Flica. A Flica já está calendarizada. Isso é muito importante porque às vezes os bons eventos surgem e não conseguem se manter, e a gente conseguiu, com o apoio dos patrocinadores, fazer esse evento por cinco edições, chegando agora na sexta edição. Acho que a maior conquista foi isso, ter conseguido fazer uma festa literária na Bahia, porque já se pedia por isso, e também, de ter trazido para Cachoeira mais uma oportunidade de ter um evento cultural de relevância. Como nós já tínhamos a Festa da Boa Morte, a Festa da Ajuda, o São João, então a gente chegou para somar ao escopo de eventos culturais, turísticos da cidade. E o desafio agora é crescer mais e mais, conseguir trazer grandes nomes internacionais para cá e se firmar como uma opção a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que é a festa literária mais importante do Brasil.
Leituras contemporâneas: Quais são os critérios para a seleção e participação dos escritores e poetas na Flica?
Emmanuel Mirdad: Bom, esses critérios são definidos pelo curador e os curadores variam durante o tempo. Esse ano e das vezes que eu participei da curadoria, os critérios que a gente utilizou foram a programação, conseguir equilibrar o número de autores nacionais, internacionais e locais, colocar os locais no mesmo espaço de dignidade que nós oferecemos para os nacionais. Ou seja, não é mesa baiana só com baiano. É baiano com nacional, baiano com internacional, para poder valorizar, não é? E a gente sempre teve muito sucesso com isso, o que os autores baianos tiraram de letra. Todos os autores… e geralmente para os autores nacionais, o critério é que seja um grande nome já reconhecido e que esteja lançando um livro no momento. O autor baiano, ele vai a partir dessa condição, de quem está aparecendo mais, quem está vendendo livro, quem está lançando livro, de quem já tem história, de quem já tem experiência em participar desse tipo de evento, quem é disposto a falar, quem fala bem, quem tem o que falar. Então são muitos critérios que dependem especificamente do momento do autor, naquele instante, por exemplo, a gente sempre prioriza trazer autores que estejam lançando livros neste ano ou que tenham acabado de lançar livros. E a gente visa equilibrar a escolha a partir do que já foi definido do autor nacional.
Leituras contemporâneas: Há espaço para novos talentos na Flica?
Emmanuel Mirdad: Sempre teve. Por exemplo, na primeira edição a gente teve um poeta que era menor de idade. É como eu falei na questão anterior, tudo depende dessas variáveis. Se esse novo talento lançou um livro que está sendo bem comentado, que está sendo bem vendido, que tem resenhas boas por aí, que ele tenha uma aparição, então a gente… o autor, ele tem que existir para que venha fazer parte da programação. Aqueles autores de gaveta que lançam livro, que só os amigos conhecem, fica um pouco difícil. Então o novo talento, ele tem que aparecer para poder ir para a Flica também.
Leituras contemporâneas: Como é o contato com os autores, a negociação envolvendo o convite para participar da festa? A negociação é direta ou mediada pelos agentes literários dos autores?
Emmanuel Mirdad: Então…. varia. Tem autor que a gente só consegue falar com a rede literária, tem autor que a gente consegue falar por via das editoras, e a gente sempre busca falar diretamente com o autor. Quando não é possível, não tem jeito: a gente vai falar com o agente ou com a editora. É que às vezes, por exemplo, um autor famoso ou um autor caro nem tem conhecimento do que é o evento, o que está sendo proposto, porque o cachê não satisfez ao agente, ao empresário, ao produtor, enfim… sendo que ele teria outros ganhos, ganho de imagem e até mesmo ganho pessoal de vir a Cachoeira, conhecer a cidade que todos os autores que vêm se encantam.
Leituras contemporâneas: É possível afirmar que esse evento colabora com a profissionalização de escritores?
Emmanuel Mirdad: Bom, depende. Por exemplo, eu vejo um autor iniciante que está querendo escrever, está querendo ter contato com o meio. A gente proporciona isso, a gente proporciona o acesso ao autor, ele vai ouvir o autor falar, ele vai conhecer o autor, vai vivenciar a cidade; enfim, o lugar, o ambiente, isso tudo influência, mas eu acho que a profissionalização… Vamos pensar naquilo que eu já respondi: se o autor não fizer sua parte junto com a editora de pensar a carreira, de construir a carreira, fica difícil dele ir para a Flica. Então também pode ser que faça, o estimule a buscar a profissionalização, mas acredito que ela só exista mesmo a partir do esforço individual de cada um, da bagagem de leitura e dos cursos, etc. Porque a Flica não é um curso, é apenas um evento de amostragem do que está acontecendo de melhor na literatura.
Ditadura Militar,
Censura,
Literatura Brasileira,
Política Cultural,
Indústria Editorial
Por Larissa Nakamura
Se a profissionalização do escritor nos dias atuais incorpora novas discussões e é permeada por adversidades encontradas no campo literário, não menos relevante é apresentar seu desenvolvimento no Brasil. Se consideramos um breve panorama do contexto cultural dos anos 70/80, encontraremos aí, nesse momento, algumas mudanças responsáveis pelo início da institucionalização de um espaço para as artes no país. É disso que se encarrega a obra Literatura e vida literária, publicada em 1985 e escrita por Flora Süssekind.
A censura é um ponto crucial discutido pela autora que a problematiza ao longo da primeira parte do livro, entendendo que não se deve analisá-la sob uma perspectiva unilateral e segundo os preceitos do senso comum, principalmente porque geralmente ela é pensada como um bloco rígido e altamente polarizado; dessa forma, segundo Süssekind, é importante observar que:
“[…] a censura não foi nem a única, nem a mais eficiente estratégia adotada pelos governos militares no campo da cultura depois de 1964. Assim como no plano estritamente político não se pode falar destas duas décadas como um todo monolítico, também a estratégia cultural não se manteve idêntica.” (SÜSSEKIND, 1985, p.12)
As decisões tomadas durante os governos militares relativas à cultura serão periodizadas em três momentos particulares. O primeiro período – de 1964 a 1968- permitia uma produção cultural engajada das esquerdas, desde que não incitasse as camadas populares e realizasse uma espécie de protesto “espelho”, cuja recepção eram as próprias esquerdas politizadas. As redes de comunicação de massa foram aprimoradas e incorporadas ao cotidiano popular, como o rádio e, principalmente, a televisão. A estética do espetáculo, consequentemente, ganhava força enquanto estratégia ditatorial de controle social, em que volumosos incentivos às indústrias culturais propiciavam uma vasta produção, caso inédito no país até então.
O segundo momento ocorre a partir da instauração do AI-5, em 1968, anos marcados por uma estratégia altamente coercitiva e de virada política de parte da população contestadora: a partir de um coeso movimento de pressão governamental, são agora os universitários que lançam mão do grito insubmisso juntamente aos artistas e intelectuais. Educada e politizada a camada populacional estudantil pela rica produção cultural incentivada até o AI-5, mudam-se as estratégias governamentais. A política nacional da ditadura, então, toma contornos repressores mais extremos, a exemplo da demissão e perseguição de professores, editores, funcionários públicos, produtores culturais e da presença de censores à espreita das produções culturais e mass media.
Com a Política Nacional de Cultura (PNC), instaurada em 1975, novos posicionamentos governamentais tomam forma no país, caracterizando o terceiro período de transformações. Esse programa político validou oficialmente a intervenção estatal no setor cultural, fixando esta instância como estandarte para o progresso e desenvolvimento da nação. Mediante severo controle e orientação dos desejáveis percursos culturais a serem seguidos, múltiplos dispositivos de intervenção, vigilância e punição foram estabelecidos pelos militares a fim de adequar as produções artísticas realizadas aos ditames do governo. Curioso é o dado que nos fornece Süssekind ao afirmar que:
“No que se refere aos livros, é interessante notar que foi sobretudo a partir de 1975 que as restrições se tornaram mais rigorosas. É possível apontar, ao menos, duas explicações para este súbito interesse da censura. Como assinalam em artigo de 1979 Marcos Augusto Gonçalves e Heloisa Buarque de Hollanda, data justamente de 1975 um certo boom editorial no país. Conquista de mercado, divulgação de novos autores, interesse pela produção nacional, lucros editoriais maiores: estas algumas características do boom. E ampliando-se o interesse pela literatura, amplia-se também a ação da cultura.”
Como se nota, é principalmente a partir de meados dos anos 70 que começa a se delinear o processo de industrialização da cultura e o fortalecimento do mercado editorial interno brasileiro em concomitância com o momento mais duro da censura ditatorial. Seja de modo a desarmar a arte de protesto da resistência, adequar os trabalhos ao que se entendia como “cultura oficial” ou mesmo, e não menos relevante, conformar a criação artístico-cultural aos moldes do capitalismo, o Estado assumiu o papel de mecenas da cultura nacional.
O Estado também atuou promovendo “[…] incentivo, via concursos, prêmios ou co-edições, à produção literária. E neste caso não se trata de retirar textos do mercado, mas até de facilitar sua edição e circulação”, observa Süssekind, assegurando a relação com a lógica mercadológica numa tentativa de controle político, social, ideológico do imaginário nacional. Tais dispositivos políticos acabaram por promover o fortalecimento dos mecanismos de industrialização no âmbito do mercado de bens culturais, fomentando o parque editorial brasileiro. De modo geral, o que se nota a partir da introdução da PNC é que esta: “[…] incentiva[va] por meio de subvenções, ao mesmo tempo que coibia com a censura, reforça[ndo] a necessidade de organização da cultura em moldes empresariais, em que a profissionalização e a conquista do mercado são pontos cruciais.”, como afirma outra estudiosa do período, Tânia Pellegrini.
Ainda que seja possível notar que em Literatura e vida literária a autora começava a dar conta dos efeitos de um passado recente que, aos poucos, modificava a condição de escritor brasileiro nas últimas décadas do século XX, o livro não esmiuça a ideia de escritor profissional, mas acaba por proporcionar um painel político, histórico e cultural sobre as condições que oportunizaram o surgimento de tal figura.
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Por Neila Brasil
As oficinas literárias são uma prática comum nos dias de hoje no Brasil. Escritores e diversos profissionais da área de Letras passaram a ministrar oficinas literárias em espaços culturais. Essas oficinas podem se configurar como sessões conjuntas de análise crítica dos textos, contribuindo para o amadurecimento literário dos participantes. Neste caso, autores iniciantes procuram escritores e críticos mais experientes para que estes deem sugestões sobre seus trabalhos. Esse diálogo com o leitor qualificado é muitas vezes sugerido pela própria editora e considerado fundamental por muitos escritores.
Num momento em que as novas estratégias de profissionalização do escritor estão se consolidando, a proliferação de oficinas representa uma importante reconfiguração do campo de formação e inserção do autor iniciante no cenário literário. Nesse post, gostaríamos de refletir sobre algumas questões: As oficinas podem ensinar alguém a escrever? Qual o papel das oficinas literárias na formação dos escritores?
Em um primeiro momento vamos pensar nas oficinas como espaços de discussão e aprendizagem. Ministrantes de oficinas literárias podem, por meio de sua experiência cultural, artística ou acadêmica, proporcionar aos alunos o conhecimento de técnicas baseadas na leitura de textos em prosa, trechos de poemas e contos, mediados por seus comentários críticos. Essa atividade tem sido uma resposta à demanda de formação dos escritores iniciantes que desejam conhecer as principais técnicas ficcionais e refletir sobre a escrita.
Diversos escritores brasileiros contemporâneos que circulam com êxito no cenário literário passaram por oficinas. Este é o caso de Daniel Galera, Michel Laub, Cintia Moscovich, Paulo Scott, Carol Bensimon. Alguns deles já confirmaram em entrevistas e depoimentos que terem participado de uma oficina literária contribuiu para sua carreira. Segundo Daniel Galera, participar da oficina literária de Assis Brasil, na PUC de Porto Alegre, serviu como “ponto de partida para pensar a literatura com um pouco mais de ambição”.
Entretanto, essa visão positiva do papel das oficinas literárias não é unânime. O escritor gaúcho José Hildebrando Dacanal define oficina literária como “uma atividade privada e paga, e o mais das vezes informal, auto-apresentada como tendo o objetivo e a capacidade de ensinar adultos a escrever”. O autor contesta a possibilidade de ensinar alguém a escrever e considera um engodo oferecer tal serviço. O pressuposto que sustenta essa posição é o de que o artista nasce artista. Na sua visão, a arte não pode ser ensinada. Embora concorde com Dacanal em alguns pontos, o escritor Charles Kiefer defende que nenhuma oficina literária afirmará ser capaz de criar escritores, pois segundo ele o papel das oficinas é “desenvolver escritores”.
O escritor Raimundo Carrero, em entrevista sobre a oficina que ministrou na FLIP em 2005, assim definiu a importância das oficinas literárias para os escritores potenciais: “É importante que eles descubram que são escritores. E que também não existe essa distância extraordinária entre seres mitológicos inspirados por musas e aqueles mais humildes que apenas se propõem a estudar e escrever literatura”.
Em depoimento a este blogue, a ensaísta e professora Márcia Ligia Guidin, que coordena oficinas literárias há oito anos, afirma que a finalidade das oficinas é “compartilhar os trabalhos (em prosa, ou poesia, ou textos críticos) e desenvolver um senso autocrítico a partir da experiência”. Ouvindo e opinando, o autor desenvolverá a segurança necessária para analisar sua própria escrita, segundo a professora. Ela também enfatiza a questão do respeito ao trabalho e à opinião do escritor iniciante.
Como podemos observar, não há um único ponto de vista sobre as oficinas literárias. Alguns argumentam incisivamente que talento ou dom não se ensinam e que inspiração não é mercadoria. Outro grupo acredita que é possível adquirir critérios de qualidade textual frequentando uma oficina literária e que os alunos podem, sim, compreender os mecanismos do texto. Divisões à parte, o fato é que cresce a demanda por oficinas literárias, e muitas pessoas motivadas pelo interesse em se tornarem escritoras procuram esses espaços para refletir e discutir literatura. Em minha visão, as oficinas literárias contribuem para a formação do escritor. Penso que a escrita pode ser aperfeiçoada e que a produção de textos, a análise crítica e o diálogo com um profissional experiente são fatores decisivos para escritores iniciantes.
Podemos colocar ainda algumas questões finais: Para um escritor renomado haveria vantagens em ministrar oficinas literárias? Em caso positivo, quais seriam elas?
Para autores já renomados, ministrar uma oficina significa uma proximidade maior com seus leitores, a divulgação de seu nome e de seus livros, a interação com outros escritores e a possibilidade de refletir sobre técnicas literárias e sobre sua própria obra, além de motivar autores iniciantes. Ministrar oficinas também pode ser uma opção profissional em termos de mercado de trabalho, assim como dar palestras, ministrar cursos, participar de feiras e festas literárias e outros eventos de divulgação patrocinados por editoras e diferentes instituições.
A recorrente representação do escritor nas narrativas contemporâneas brasileiras aguça o interesse em buscar como esse tipo vem sendo construído na produção literária desse século. Nesse sentido, encontramos na obra de Daniel Galera uma forte contribuição para esse estudo, uma vez que a presença do escritor como personagem é significativamente salientada. Em meio a essa produção do autor, destaca-se Dante, personagem do qual buscarei traçar uma espécie de perfil considerando a forma como ele [o personagem] é construído. Isso mesmo, Dante. Não o Alighieri, mas Dante: escritor e irmão do protagonista de Barba Ensopada de Sangue, romance de Daniel Galera publicado pela Companhia das Letras.
A figura de Dante (moldada sempre em oposição ao irmão que, ironicamente, tem traços que nos remetem ao autor, como o gosto por nadar) vai tomando forma de maneira gradual, através de poucos – mas significativos – momentos nos quais, sempre através da fala de outros personagens, ele “aparece” na narrativa. A figura do escritor e seu mundo é sentenciada desde a situação inicial do romance, momento no qual o protagonista, irmão de Dante, em meio a conversa na qual seu pai anuncia que cometerá suicídio e o incumbe de sacrificar seu cachorro, responde ao pedido: “Por que não chama o outro? Ele vai achar graça nisso, quem sabe. Vai escrever um livro a respeito”, [grifo nosso] (p. 31). O recorte evidencia a representação do escritor como aquele que enxerga como possibilidade de material literário tudo que está ao seu alcance na realidade tangível.
A sentença ainda prenuncia um outro problema muito atual: é possível um autor de literatura viver hoje de seu ofício? A representação de Dante no romance de Galera parece tensionar a posição do escritor colocado entre o capital simbólico e o capital financeiro. Nos termos de Pierre Bourdieu, sociólogo francês, o capital simbólico referencia-se por uma moeda de valor abstrato e está ligado ao imaginário das Artes em geral. Trata-se de, por exemplo, de ‘regalias’ adquiridas por conta do conhecimento ou do reconhecimento ou de um poder e local de fala mais privilegiados ou por tudo isso junto, já que esses elementos não estão necessariamente conectados. O segundo, considera uma moeda de valor físico, tendo como maior expoente o dinheiro.
Pois bem. Analisemos agora as dúvidas da mãe do personagem sobre o modo como o filho ganha a vida: “Anos atrás eu cheguei a achar que o Dante era o filho que ia acabar se complicando na vida com aquela história de ser escritor. Até hoje eu não faço a menor idéia de como ele ganha a vida já que os livros vendem pouco e ele nunca vence os prêmios que dão dinheiro. Acho que é com palestra. Sei que ele tá em São Paulo vivendo num ótimo apartamento que conseguiu comprar (…)”, (p. 284)
A fala, além de insinuar o quão distante sua progenitora está do ofício de escritor do filho e o quanto ela entende esse ofício fora da lógica de mercado do capital financeiro (como se nota muitas vezes), respalda e potencializa um dos lados dessa caracterização construída pela dualidade dos dois capitais. A passagem, por um momento, nos faz acreditar que Dante é um dos escritores que se sustentam financeiramente por sua atuação no próprio Campo Literário. Porém o protagonista da trama funciona como uma ferramenta problematizadora dessa discussão, ao revelar, instantes depois, que o apartamento é financiado e o escritor divide as parcelas com a mulher. Ou seja, a literatura de Dante (e as esferas que a rodeiam) é suficiente ou não para lhe garantir capital financeiro? Acredito que a pergunta permanece também na cabeça dos parentes do escritor, já que a eles parece improvável ganhar dinheiro escrevendo…
Ainda fundamentando esse aspecto, que é a base da construção da imagem de Dante como escritor, numa leitura detida de outro fragmento é possível notar que o autor dispõe o personagem como um escritor que necessita abdicar de suas atividades extra-literárias e se fazer, de certo modo, recluso, “Emprestei pro Dante também e ele vai me pagar de volta, mas não sei quando. Ele disse que só vai ter dinheiro depois de terminar o livro. Porque precisa parar de trabalhar pra conseguir terminar.”, (p. 289). Isto, de certo modo, romantiza a figura do escritor e reforça a distância cultural-histórica entre o Capital Financeiro e o capital simbólico conquistado pelo artista das Letras.
Em Barba Ensopada de Sangue, a narrativa de Daniel Galera convida o leitor a tatear, superficialmente, a figura do autor na literatura contemporânea. Nesse sentido, Dante se faz um intensificador de algumas discussões que envolvem o escritor no Campo Literário Brasileiro Contemporâneo, tornando-se relevante elemento para os estudos da representação do escritor na ficção de Galera e de outros autores. Dante é, portanto, uma pergunta que permanece: quem é esse escritor do século XXI?
literatura brasileira contemporânea,
mercado editorial,
carreira de escritor,
crítica literária,
profissionalização do escritor
Por Larissa Nakamura
Ilustração: Fabio Zimbres (capa do livro)
Não é novidade vermos escritores se autorretratando ou ficcionalizando suas carreiras nas obras literárias: a lista vai de Enrique Vila-Matas (Paris não tem fim) a J.P Cuenca (Descobri que estava morto), entre muitos outros. Trazendo mais um exemplo brasileiro sobre personagens escritores, temos O ano em que vivi de literatura (2015), de Paulo Scott, que traz uma mordaz sátira ao mundo literário. E para quem inicia a leitura esperando encontrar no personagem principal, Graciliano, um escritor sério e dedicado ao seu labor, saiba que o engano já se inicia pelo título: afinal, nada mais frustrante que um autor que nada escreve justamente no ano em que passa a viver de literatura!
Dividido em quatro partes, acompanhamos o cotidiano de pouco mais de um ano na vida de Graciliano, jovem autor gaúcho que após se mudar para o Rio de Janeiro ganha um dos mais importantes prêmios literários do país (vitória, aliás, questionável), assim embolsando vultosa quantia em dinheiro, e é visto como grande promessa no ambiente artístico.
A partir de então, ele passa a ser considerada figura VIP no circuito das letras e relata aos leitores as intrincadas relações e agruras do meio em que passa a circular com mais intensidade: encontros e conversas com editores, outros artistas, jornalistas, produtores culturais etc. A narrativa torna possível especularmos que representações da profissionalização do escritor de literatura está em jogo no relato que envolve premiações e holofotes, escolhas pensadas ou intempestivas que vão traçando a trajetória de Graciliano.
O background da carreira de Graciliano aparece aos poucos na trama. Sabemos que antes de ser escritor trabalhava como professor universitário na área de História, sua primeira obra literária já havia sido adaptada ao cinema, participou de uma antologia de contos, e que o livro premiado era produto de uma encomenda que acabou publicada por uma pequena editora de Porto Alegre ao invés da sua prestigiada editora do Rio de Janeiro (fato que irrita terrivelmente seu editor). Todos esses elementos parecem dar indícios de que a personagem dava significativos passos na profissão. No entanto, a partir do momento em que recebe o prêmio e é pressionado a escrever imediatamente um novo livro, Graciliano recua e não consegue escrever uma linha sequer. Mais que isso: assistimos a um espetáculo sofrível que passeia entre a solidão no campo social e certa – quando não total – inadequação moral e ética do escritor profissionalmente.
Não deixa de ser risível que muitos dos excessos e maneirismos nas situações vividas pelo narrador e seus pares podem mesmo surpreender o leitor – seja pela ponta de veracidade (ainda que por vezes soe absurda) ou completa imprecisão. Algumas dessas circunstâncias estão presentes nos capítulos em que aparece o editor, cruel figura empresarial que, como reconhece o narrador, é um ótimo homem de negócios. Ao final do livro, Graciliano recebe uma proposta que reafirma sua visão crítica à prevalência do caráter econômico nas negociações do mercado editorial na contemporaneidade:
[…] Berardi, o chefão da editora mais agressiva daquele ano no mercado naquele ano, cria do mundo financeiro, das bolsas de ações, alguém que lá pelas tantas resolveu botar suas fichas no mercado editorial de livros técnicos e livros de autoajuda e seu deu bem, uma alma generosa que, nos dois últimos anos, talvez pelo simples prazer de exercitar seu talento predatório, tinha resolvido apostar em literatura, em ficção brasileira e bagunçar geral o campinho da concorrência […] (SCOTT, 2015, p. 248)
Somada aos cenários inusitados, também é interessante a interação promovida por Graciliano nas redes sociais: desde propostas absurdas (“Deposite cinco mil reais a título de doação na minha conta do Banco do Brasil e seja um dos três protagonistas do meu novo romance.” (p.111), uma “brincadeira” levada a sério por alguns seguidores; sem contar o uso da internet para marcar encontros sexuais com fãs leitoras) às mais comuns (publicação de pequenos poemas, trechos de histórias que não consegue levar adiante).
Em suma, mais que celebrar ou mesmo romantizar a vida de escritor, Paulo Scott nos traz uma representação irônica de Graciliano que mesmo diante das facilidades ofertadas e “[…] [d]a possibilidade de realizar o sonho de muitos escritores brasileiros: ficar um ano livre de pressões econômicas e disponível para se dedicar a seu ofício” (ALVES-BEZERRA, 2016) se depara com um misto de rejeição e desejo de viver de literatura, de alcançar a profissionalização no campo literário.
Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a autonomização do campo literário está sujeita a três condições: a emergência de um corpo de produtores especializados, a existência de instâncias de consagrações específicas e a existência de um mercado.
Pierre Bourdieu sugere ainda que um campo é um espaço constituído de posições sociais, que podem ser ocupadas por diversos agentes e no qual a posição de qualquer ator envolvido implica em diferentes tipos de capital: econômico, cultural e social.
O capital econômico corresponde a rendas, proventos, recursos; o capital cultural refere-se aos saberes e competências, abrangendo também títulos e premiações; já o capital social estende-se às redes de relações e contatos que um agente forjou ao longo do tempo.
Elegemos esse conceito de campo como uma espécie de estratégia para entender as posições tomadas pelos autores que têm a literatura como atividade profissional.
Com o advento da internet e das redes sociais houve uma transformação radical na forma de circulação, divulgação e até de comercialização dos textos literários. Apostando na publicação em blogues e em outras plataformas eletrônicas, muitos autores encontram mecanismos alternativos ao mercado editorial tradicional.
O escritor Daniel Galera pode ser considerado um exemplo dessa nova geração de escritores no Brasil. Pioneiro no uso da internet, publicou textos de ficção na rede entre 1996 e 2001. Em seu site http://ranchocarne.org/ oferece obras para download gratuito, mas podemos dizer que Galera é um escritor consagrado, afinal, publicou obras por uma grande editora, a Companhia das Letras, e seus romances ganharam prêmios de prestígio: Barba ensopada de sangue (2012) foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti e Cordilheira (2008) foi vencedor do Prêmio Machado de Assis e também finalista do Jabuti.
Os sinais de que é possível viver de literatura no Brasil estão visíveis ainda em outro exemplo quase antípoda ao de Galera: trata-se do escritor Luiz Ruffato. Para dedicar-se à literatura em tempo integral, Ruffato desligou-se do jornalismo em 2003: “Minha decisão se baseava numa intuição: se me mantivesse disponível para viajar e divulgar meus livros, talvez conseguisse uma maior repercussão do meu trabalho”. O que importa ressaltar são as diferentes tomadas de posição dos dois autores mencionados em relação à construção de suas carreiras. Com a publicação do romance Eles eram muito cavalos (2001), Ruffato também ganhou prêmios importantes como o da Biblioteca Nacional e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Para Ruffato “já não causa tanta comoção quando alguém demonstra interesse em dedicar-se à carreira literária – isso por que, além do dado simbólico (a aura de prestígio que envolve o autor na sociedade), há efetiva possibilidade de viver de literatura no Brasil”.
A figura pública do escritor também mudou de estatuto. O campo literário se expandiu: os prêmios literários, financiados por instituições públicas ou privadas, abarcam valores consideráveis. Os lançamentos das obras também envolvem uma estratégia profissional e de marketing, participação em eventos literários, lançamentos em grandes livrarias e aparições na imprensa. Essa interação com o público leitor cria uma estratégia eficiente de promoção do livro.
Um outro exemplo que poderia ser mencionado, é o do ex-professor universitário Cristovão Tezza. Com 15 livros de ficção publicados, além de algumas publicações acadêmicas, o autor preferiu abandonar as aulas que ministrava na Universidade Federal do Paraná depois de vinte anos, para dedicar-se exclusivamente ao ofício de escritor. Essa decisão foi tomada em virtude do enorme sucesso de público e de critica que o autor alcançou com a publicação do romance O filho eterno, lançado em 2007.
Embora a antiga imagem do escritor como um artista por vocação ou talento, totalmente desvinculado do mercado, já tenha perdido terreno, sabemos que o processo de profissionalização ainda está em curso oferecendo grandes desafios aos escritores.
Acreditamos, assim, que uma questão como “quem é escritor profissional?” fica menos obscura quando lançamos um olhar sobre escritores que deixaram seus ofícios para viver de literatura.
crowdfunding,
mercado editorial,
autopublicação,
tecnologia e literatura
Por Larissa Nakamura
Créditos das imagens: Carlo Giovanni
A partir dos anos 2000, presenciamos a criação de diversas plataformas de financiamento coletivo presentes na internet. Desde então, é possível notar o espraiamento e a transformação dessa prática que se torna cada vez mais comum. Para participar, basta oferecer um produto (livros, cds, linha de roupas, HQs, projetos científicos etc.) ou mesmo especificar um objetivo (como, por exemplo, um auxílio para angariar fundos para instituições não governamentais ou pessoas) e estipular um valor a ser arrecadado, ficando a cargo do público o acolhimento à solicitação.
O crowdfunding, como é mais conhecida essa prática, também é utilizado por aqueles que desejam publicar seus livros. A pergunta que surge, então, é se tais iniciativas podem representar uma concorrência às editoras ou mesmo alguma desestabilização, ainda que pontual, do circuito livreiro tradicional. Quais as desvantagens e vantagens que tais plataformas oferecem aos escritores?
A autopublicação – inteiramente paga com os recursos do autor– não é novidade entre os artistas que desejam ver suas obras tomarem vida. Ainda nos anos 60, Sérgio Sant’anna se utilizou de tal estratégia como o pontapé inicial de sua carreira, segundo relata em entrevista: “Fui juntando os textos, levei os originais à gráfica e paguei de meu bolso. Minha mulher, que era artista plástica, criou a capa. Fizemos mil exemplares, que eu próprio distribuí. Enviei metade da tiragem pelo correio a escritores e críticos que poderiam me dar algum retorno. Como naquela época não havia tanta gente escrevendo, recebi muitas respostas.”
Considerando o depoimento do autor, acreditamos que há uma semelhança com os empreendimentos de autopublicação. Muitos autores no contemporâneo administram as etapas de produção de seu livro, encarregando-se de sair a campo em busca de profissionais (revisor, diagramador) que o produzam, quando eles mesmos não assumem essas várias tarefas.
Neste último caso, a disponibilidade na internet de instrumentos de edição e divulgação de uma publicação dá ao artista autonomia suficiente para manejar toda a cadeia de produção do livro por meio de networking (de um trabalho feito na e por meio da rede) que pode inclusive contar com uma fan-base, com um conjunto de admiradores que ajudam a divulgação da publicação.
Assim, para os autores iniciantes que ainda têm pouca ou nenhuma visibilidade no campo literário e que encontram dificuldades para conseguir publicação em uma editora comercial, a autopublicação por crowdfunding representa também a oportunidade de conseguir, a uma só vez, investidores e admiradores da produção do autor.
Tais iniciativas e ferramentas criam um circuito próprio e não há garantia de que a publicação que circula na rede alcance inserção no mercado mais tradicional do livro, como livrarias, feiras e premiações literárias. Mas em casos de notável sucesso, com boa repercussão on-line, é possível despertar o interesse de editores ou casas editoriais consagradas que entendem a repercussão virtual do livro e do autor como um filtro de seleção, de passagem para o circuito mais tradicional de circulação do livro (impressão, distribuição pelas livrarias).
No exterior (em especial, nos EUA e a Europa) vêm surgindo plataformas de financiamento coletivo exclusivas para a publicação de livros, como Inkshares e Publishizer, que se apresentam como alternativas mais abertas, democráticas e lucrativas para o autor em relação às editoras mais tradicionais. É interessante notar que essas empresas, a partir do momento em que os escritores atingem a meta programada, se dispõem a atuar de maneira semelhante a uma casa editorial tradicional, já que se propõem a realizar todo o processo de produção e distribuição do livro. Nessa lógica, importa sinalizar a conveniência para autores e editoras, ainda que não possamos nos certificar da qualidade das publicações, da representatividade e do impacto editorial no campo literário.
Acreditamos que a iniciativas como o crowdfunding revelam um cenário incerto, mas que vale a pena ser observado, pois vem transformando as relações entre autores, editores e público, por isso concordamos com o professor da PUC do Rio de Janeiro Karl Erik Schollhammer quando afirma que “ é notório que a internet tem propiciado rotas alternativas e eficazes de atuação, conferindo novos contornos para os capitais simbólicos firmados em torno da literatura.”
mercado editorial,
relação autor-editor,
tecnologia,
autopublicação,
financiamento coletivo
Por Neila Brasil
As relações entre autor e editor são complexas e matizadas. Cabe ao editor, em última instância, decidir quais textos serão transformados em livros e como estes livros serão editados, distribuídos e comercializados, dependendo do público que se quer atingir e das demandas do mercado e diretrizes comerciais da empresa para a qual trabalha. O editor, portanto, é detentor de saberes e poderes específicos, que implicam em responsabilidades e tomada de decisões nas esferas intelectual, social, financeira, administrativa e jurídica.
Como observou com argúcia o editor da famosa editora alemã Suhrkamp, Siegfried Unseld, as relações entre autores e editores se caracterizam por um mal-estar persistente, que resulta da própria atividade do editor, que tem duas faces, como o deus Jano. Por um lado, o editor tem habilidades para reconhecer uma “obra sagrada” (o nome do editor Maxwell Perkins é emblemático), por outro, é um comerciante que precisa vender.
Em muitas situações o editor é peça fundamental para a concretização do texto de um escritor que está no início de sua trajetória. Devido à sua experiência no campo, o editor, por meio da observação de elementos e detalhes que muitas vezes passam despercebidos aos olhos do escritor, modula o texto final, tornando-o mais adequado para a edição e comercialização.
Na visão de Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, que manteve durante algum tempo um blog na página da editora na internet, o relacionamento entre autor e editor assemelha-se, muitas vezes, às relações amorosas ou familiares, compostas de altos e baixos e susceptíveis a rompimentos catastróficos. O editor acrescenta ainda que a parceria pode ser crucial ou irrelevante para o resultado final da obra, e que há, por parte do editor, comprometimento integral em relação à obra, desde a leitura minuciosa do texto até a sugestão para resolução de problemas práticos envolvendo as condições de criação do autor. Entretanto, há casos em que o editor excede seu papel, interferindo no processo de criação do autor ou arrogando-se um poder maior do que possui de fato. Aqui, o caso mais clássico é a parceria de Gordon Lish e Raymond Carver.
Atualmente, todo o campo literário, incluindo aí a atividade editorial, tem sofrido o impacto das inovações tecnológicas. A autopublicação é uma delas. Se, em outros tempos, os autores que não contavam com uma grande editora para investir em sua obra pagavam uma versão impressa, hoje, muitos autores optam por uma edição virtual, que é um recurso acessível e barato. Uma inovação tecnológica, que está modificando a forma de produzir e divulgar literatura, é o surgimento de plataformas que possibilitam financiamentos coletivos. Uma das grandes vantagens dessa ferramenta é que ela oferece independência ao escritor que, agora, pode manusear seu trabalho sem ter que atender às exigências das editoras ou negociar mediações com o editor.
A utilização dessas plataformas atribui ao autor toda a responsabilidade pela publicação e divulgação do livro. Para participar, muitas plataformas exigem apenas que o interessado inscreva-se na plataforma de financiamento coletivo, apresente seu projeto em vídeo e defina uma meta e um prazo de arrecadação. A partir daí, os eventuais colaboradores passam a fazer contribuições financeiras para a execução do projeto.
Embora algumas pessoas enxerguem a novidade como uma ameaça ao mercado editorial, a utilização da ferramenta tem mostrado o contrário: através de parcerias entre as plataformas, as editoras, os escritores e os investidores, está sendo possível criar uma nova cultura, que valoriza a produção independente. Um exemplo é a proposta da coletânea de poesia brasileira Garganta, feita por Sérgio Cohn (ele mesmo um poeta-editor responsável pela Azougue) por meio da plataforma “Embolacha” que propõe a produção de um vinil com registro sonoro da poesia brasileira contemporânea falada pelos próprios autores.
Atualmente, a revolução tecnológica é responsável por grandes mudanças no cenário editorial. A facilidade da autopublicação na rede é apenas um exemplo disso, e de como podem mudar as relações entre autores e editores.
literatura contemporânea,
metalinguagem,
processo de escrita,
condição do escritor,
Adriana Lisboa
Por Neila Brasil
Adriana Lisboa, escritora carioca, começou a carreira literária em 1999, com o romance Os fios da memória, e recebeu vários prêmios e amplo reconhecimento crítico, sendo traduzida para vários países.
Um beijo de Colombina, publicado em 2003 pela editora Rocco, revela um interessante processo em sua construção, considerando-se as estratégias narrativas. O livro conta a história de Teresa, uma escritora que planejava compor um romance baseado em poemas de Manuel Bandeira. Interessa ressaltar que, cada capítulo do romance recebe um título oriundo da obra Estrela da Vida Inteira, estabelecendo um espaço de jogo entre a escrita de Adriana Lisboa e a poesia do escritor modernista.
Adriana Lisboa em Um beijo de Colombina cria a ficção dentro da ficção: escreve um livro sobre outro livro que deveria ser elaborado pela personagem Teresa: “Teresa me falou menos dele do que de seu próximo projeto, um romance baseado em poemas de Manuel Bandeira” (LISBOA, 2011, p. 5).
O narrador do romance é um jovem professor de latim que tenta compreender como ocorreu a morte, tão inesperada, quanto misteriosa, de sua namorada Teresa, que morrera afogada no litoral fluminense. Angustiado pela perda, ele entra no mundo da escritora e vai tecendo, a partir de suas memórias, os principais acontecimentos relacionados aos oito meses de convivência com Teresa: “Quando aconteceu o acidente, o afogamento, fazia oito meses que morávamos juntos” (LISBOA, 2011, p. 3).
Em Um beijo de Colombina, a representação da figura do escritor aparece bem próxima da realidade de muitos autores contemporâneos. Teresa, a escritora-personagem era formada em letras, dava aulas particulares de português para pagar o tempo que era dedicado à atividade de escrita de seus textos. Ficamos sabendo através do relato do narrador que Teresa já havia publicado dois livros de contos, por uma editora menorzinha, e logo em seguida um romance por uma editora importante. A escritora que dava aulas de português para sustentar a atividade de escrita é premiada, dessa forma, abandona as aulas e passa a se dedicar apenas aos seus projetos: […] “em novembro ela ganhou o primeiro prêmio, no princípio de dezembro, como se fosse mágica, – como se fosse romance -, o segundo, e os alunos de português viraram águas passadas” (LISBOA, 2011, p. 7).
É interessante pontuarmos que a tematização no romance de episódios que envolvem a consolidação da carreira de um escritor, como a publicação do primeiro livro, as premiações que recebe, os eventos literários dos quais participa, e as entrevistas que concede acabam compondo o texto do autor. Em Um beijo de Colombina, o narrador revela ao leitor as suas impressões sobre a escritora-personagem, e nos permite pensar na figura do escritor real, que assim como a personagem Teresa muitas vezes precisa conciliar a atividade da escrita com outros trabalhos para garantir a sobrevivência, equilibrando-se entre a profissionalização como escritor e uma segunda vida, para falar como Bernard Lahire, que lhe garanta a manutenção financeira.
Assim, em Um beijo de Colombina, Lisboa também possibilita aos estudiosos da literatura contemporânea refletir sobre as diversas possibilidades de representação do escritor. Além de construir, uma narrativa onde o lirismo é predominante, Lisboa consegue apresentar parcialmente como funciona a trajetória de uma escritora por meio da personagem Teresa. O livro abre espaço, portanto, para refletirmos sobre a condição do escritor contemporâneo.
LISBOA, Adriana. Um beijo de Colombina. [recurso eletrônico] Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2011.
mercado editorial,
profissionalização do escritor,
políticas culturais,
SESC,
literatura brasileira
por Larissa Nakamura
Aproveitando o post da semana anterior, hoje trouxe um exemplo de uma iniciativa promovida por uma empresa privada, que busca a promoção da literatura no país e que também pode contribuir para a profissionalização do escritor. No mês passado, o Serviço Social do Comércio (SESC) deu início a um projeto chamado Arte da Palavra – Rede Sesc de Leituras que ao longo deste ano promoverá uma série de atividades em vários estados do país: bate-papos; oficinas literárias; slam poetry; saraus; performances; contação de histórias etc., contando com a participação de 91 escritores do todo o Brasil.
O SESC afirmou que a curadoria ocorreu de forma independente em cada unidade regional, embora os critérios precisos para a escolha não tenham sido divulgados. Nas lista, figuram nomes mais conhecidos como Rafael Gallo, Cintia Moscovich e Bráulio Tavares, vencedores de prêmios literários de grande renome nos últimos anos.
No rol de atividades, é possível notar uma preocupação com a formação de um público leitor e com o papel do escritor como agente cultural, pois a programação contempla diferentes formas de produção e atuação no campo da literatura. Uma delas envolve a leitura e discussão das obras dos autores convidados nas escolas antes das sessões de bate-papos com o público estudantil.
Talvez iniciativas como essa amenizem o que João Cezar de Castro Rocha considera como atitudes puramente performáticas dos autores, que deixam em segundo plano a discussão de suas próprias obras nos eventos literários de que participam. Castro aponta a necessidade de “criação e multiplicação não mais de ouvintes, porém de leitores […] Leitores críticos”. Parece-nos, então, que o crítico propõe uma reflexão sobre o significado da profissionalização do autor de literatura.
Acreditamos que o escritor, que atua também como um agente cultural, lançando mão de uma série de intervenções e estratégias, vem renovar, refazer e/ou a reafirmar constantemente as posições que ocupa no sistema literário, redimensionando-o, e incrementando também, por tabela, as possibilidades de sustento financeiro garantidas pelo ofício da escrita.
Henrique Rodrigues, técnico de literatura do departamento nacional do Sesc, afirmou recentemente em reportagem de O Globo:
“Temos um vício no meio literário de achar que, ao convidar um artista da palavra para participar de um evento ou publicar um livro, estamos fazendo um favor para ele. Essa é uma prestação de serviço que precisa ser remunerada. O autor está ali cedendo o seu tempo e reconhecimento. É preciso valorizar e remunerar. O artista é parte da cadeia produtiva.”
A declaração revela-se interessante por apontar um vínculo que é considerado um tabu no debate sobre profissionalização: o que envolve cifras. O campo literário sempre tratou como problemática a associação entre dinheiro e arte.
Tal rejeição ainda pode ser detectada no contemporâneo e sua persistência pode ser fruto da manutenção de uma imagem do escritor impregnada de um ideal romântico: o do escritor diletante que, por amor puro e desinteressado à arte, rejeita, às vezes apenas simbolicamente, os bens materiais que poderiam advir de sua produção, afirmando trabalhar por vocação ou por pura necessidade visceral. A persistência desse imaginário, inclusive entre os próprios autores, constitui um entrave para o pesquisador que quer analisar as condições da profissionalização do escritor nacional, principalmente porque julga-se de mau gosto tratar das condições de contratação de um agente literário ou tematizar os termos de contrato com uma editora. Embora saibamos que muitos autores hoje já conseguem “viver de sua pena”, ainda é muito difícil tematizar as condições concretas que permitem aos escritores usufruírem da sua condição de profissional das letras.
agenciamento literário,
mercado editorial,
carreira de escritor,
Adriana Lisboa,
profissionalização da literatura
Por Neila Brasil
“Lucia Riff – Agência Riff” é nome da agência que representa a escritora Adriana Lisboa no cenário nacional. Nos Estados Unidos, Jonah Straus/Straus Literary é o responsável por cuidar da carreira da autora, que também é representada pela agente literária Nicole Witt segundo o site. Ainda não há muitos agentes literários no Brasil, mas alguns escritores contemporâneos já contam com a assessoria desses profissionais. Neste post, eu gostaria de comentar qual a importância do agente literário na carreira de um escritor, trazendo para o centro da nossa discussão a carreira literária de Lisboa.
As reflexões sobre o agente literário no Brasil constituem um tema muito novo. Em termos gerais, podemos definir o agente ou a agência literária como um profissional ou empresa que atende os escritores apresentando os textos destes a outros editores, fazendo a “propaganda” de sua produção. Uma grande parte dos agentes considera a própria função como uma espécie de administrador da carreira de seus escritores. Preparar propostas e originais para avaliação, divulgar, vender, administrar direitos e carreiras são atividades desempenhadas por agentes – Trata-se de auxiliar a construção de uma carreira. Na maioria das vezes, agentes experientes e com bons antecedentes tendem a ser ouvidos com mais entusiasmo pelos editores do que agentes com pouca experiência, que estão batalhando para consolidar seu nome.
Para falar como John Thompson, autor de Mercadores da Cultura, “o agente é aquele que conhece as regras do jogo”. E conhecendo as regras do jogo, ele cuida melhor do interesse dos autores que representa. Podemos pensar que a contratação de um agente literário é um passo importante para a profissionalização do escritor. No caso de Adriana Lisboa é possível relacionar a relativa internacionalização de seu nome, garantida por meio das traduções de seus livros, e a boa recepção a sua obra no contexto nacional com a atuação de seus agentes literários. Os agentes bem conhecidos podem ajudar seus autores na construção de uma carreira literária de sucesso e, ao mesmo tempo, ampliar seus contatos, que são fortalecidos quando se trata de “vender” as propostas para as editoras.
O jeito como se apresenta um autor pode ser tão importante quanto o jeito como se apresenta um texto – o que esse escritor tem a dizer. Assim, entrevistas em programas de televisão, reportagens de jornal, declarações em festas e eventos literários, resenhas, biografias, fotos em revistas, tudo isso compõe a plataforma do autor, que também se amplia com sua participação/atuação em sites, blogs e redes sociais.
No Brasil, agentes literárias como Lucia Riff pretendem agenciar autores a longo prazo, esperando que a relação entre ambos, agente e autor, possa render bons resultados. Já para os autores, lidar com agentes facilita o processo de negociação, porque estes sabem como negociar com as editoras e, ao mesmo tempo, promover os escritores.
“Encontrar um bom agente é algo traiçoeiro e com frequência depende de uma indefinível mistura de boas relações, boa química e boa sorte“, afirma Thompson.
Podemos, então, arriscar dizer que a emergência da figura do agente literário é uma evidência da era da profissionalização do escritor.
oficinas literárias,
mercado editorial,
processo de criação,
profissionalização do escritor,
vida literária
Por Larissa Nakamura
Aproveitando a deixa do último post escrito por Neila, aqui, no blog, vale a pena comentar o artigo publicado recentemente pela Folha de S. Paulo, intitulado “Escritores consagrados ajudam novos talentos com oficinas”. O texto relata casos de bem sucedidos autores da literatura brasileira que ministram oficinas de criação literária para aspirantes a escritor ou mesmo artistas com experiência no mercado das letras. De modo geral, a razão que parece motivar essas pessoas a frequentar tais oficinas é uma busca por novas referências, ideias, temas, discussões sobre arte etc., o que deve variar de acordo com o método escolhido por cada palestrante.
As oficinas literárias apresentam-se como um cenário em plena expansão ao longo dos anos e funcionam não apenas como um ponto de partida para escritores iniciantes, mas também como atividade remunerada ligada à literatura para autores cada vez mais conhecidos pelo público em geral e pela crítica especializada, segundo a reportagem. Como o post de Neila apontava, há casos de sucesso de autores que frequentaram oficinas literárias e aos poucos consolidaram sua carreira e conquistaram prêmios literários. Apesar disso, é importante frisar que, de acordo com o que afirma Trevisan no artigo, “[…] o treinamento não visa, necessariamente, a profissionalização literária.”
Acreditamos que o tema trazido pelo artigo traz à tona alguns dos elementos mais frequentes na profissionalização do escritor e que garantem a manutenção de sua carreira. É possível afirmar que os escritores que ministram as oficinas já têm certa autoridade, reconhecimento e experiência, ao menos no que tange ao circuito das artes. Assim, osworkshops propiciam aos autores uma oportunidade para se articular e circular entre seus pares.
A participação cada vez maior em atividades diversas relacionadas à literatura (como, por exemplo, a oferta de oficinas literárias), incrementa a profissionalização do escritor e amplia sua circulação e atuação no campo literário, além de assegurar um retorno financeiro para além dos acordos contratuais com as editoras para publicação da obra literária.
Noemi Jaffe, Lourenço Mutarelli, Marcelino Freire e João Silvério Trevisan despontam como alguns dos nomes à frente das oficinas. Não deixa de ser curioso observar como muitas vezes o método adotado pelo autor ao ministrar a oficina pode revelar muito do próprio processo de escrita de cada um. Jaffe afirma que “[…] não conseguiria escrever sem elas [as aulas].”, já que, segundo ela: “Os cursos me obrigam a ler tempo todo e buscar fontes novas para os exercícios.”. Já no caso de Mutarelli, a parte inicial de pesquisa (recolhimento de recortes e panfletos, e posterior colagem dos mesmos de forma aleatória) e a consequente produção textual pelos alunos refletem o mesmo método de escrita do autor, que assim pretende montar parte de seu novo romance. Por fim, Trevisan deixa claro que deseja partilhar no seu próximo curso as etapas de criação do romance que está em andamento, fato que pode servir de inspiração para jovens estreantes na literatura.
Apostamos que os cursos de escrita criativa apresentam-se como um forte marcador de algumas das possibilidades existentes de atuação no campo literário para o escritor que deseja solidificar sua carreira. Por fim, pensamos que tais workshops, propiciam ao próprio ministrante e também aos seus alunos a criação de uma rede de sociabilidade, tão necessária para alimentar a cena literária.
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Neila Brasil
Créditos da imagem: http://alertabolivia.blogspot.com/search/label/COMUNICACI%C3%93
Sabemos que a arte é afetada pelos meios de produção e que o funcionamento do campo literário está ligado a causalidades históricas, econômicas e sociais. Com as mudanças no campo social e os avanços da tecnologia, a forma como artista, público e crítica se inter-relacionam também sofreu profundas transformações. O escritor contemporâneo está necessariamente inserido no mercado e o modo de produzir e difundir suas obras confere a ele um lugar no campo literário.
A crítica literária pode ser considerada uma importante instância de legitimação na profissionalização do escritor. O debate que divide a crítica em dois campos, um “especializado” e outro “não-especializado”, pode ser um indicativo de como é possível ler as relações entre crítica e profissionalização, partindo do pressuposto de que a recepção crítica, seja ela especializada ou não, contribui para a formação da imagem do autor e para a valoração de suas obras.
Se a crítica especializada é atribuída aos professores e pesquisadores universitários, a crítica não-especializada está relacionada ao jornalismo cultural e também com os leitores que estão na internet e que ao comentarem obras e autores em blogs, vloggs e redes sociais, criam um espaço de circulação para suas produções.
Embora a crítica especializada seja tida como relevante, não é incomum encontrarmos posições que comentam a presença de um jargão tão específico à teoria utilizado nas resenhas e comentários sobre a produção literária que acaba contribuindo para certo isolamento da própria literatura. Ainda assim, é possível afirmar que a produção analítica produzida nas universidades é uma instância de legitimação, para utilizarmos o conceito de Pierre Bourdieu, ainda fundamental, na profissionalização do autor, na medida em que promove e avalia a produção artística.
No entanto, se a crítica não-especializada parece mais próxima do leitor que está fora da universidade, mas se interessa pela literatura, muitas vezes o que encontramos no jornalismo cultural (que cada vez mais tem reduzido o espaço dedicado à literatura, ao comentário crítico sobre arte de um modo geral) ou na internet, destina-se apenas à divulgação e não à análise das obras, constituindo apenas um release do lançamento do momento.
Com o reconhecimento da internet como uma instância de legitimação, quero sugerir que a separação entre a crítica especializada e a não-especializada pode não ser assim tão evidente. Já que uma instituição cultural não acadêmica pode promover eventos, debates e mostras com a participação de especialistas e estimular o diálogo com jornalistas e críticos não especializados.
Assim, seria possível considerar que as condições de recepção e difusão da literatura na contemporaneidade transgridem, até certo ponto, os limites que separam a crítica especializada daquela produzida pelos demais agentes da indústria cultural.
Um autor que atrai a atenção da crítica, seja por se tornar objeto de estudo de uma tese universitária, seja por ter sua obra resenhada em jornais de grande circulação, encontra na recepção à sua obra um caminho para a conquista da legitimação de seu nome. Quando um autor conquista capital simbólico, consegue usá-lo a seu favor, conquistando também uma posição no campo literário.
Dessa forma, poderíamos arriscar dizer que a recepção crítica de um autor é um elemento fundamental para a aquisição do capital simbólico, outra noção de Bourdieu, e que a crítica tanto especializada quanto não especializada por auxiliar a construção da imagem do autor perante o público e demais agentes do campo literário, constitui-se um importante elemento de profissionalização do escritor.
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Por Neila Brasil
Como um escritor em início de carreira se inscreve no circuito literário? Além das habilidades relacionadas à criação literária, que implicações a atuação do escritor iniciante na cena literária da qual faz parte tem para a consolidação de sua trajetória? Conhecer alguns momentos importantes e alguns passos decisivos da carreira da autora Adriana Lisboa – uma escritora reconhecida e consagrada – pode nos ajudar nessa reflexão. A relação do escritor iniciante com críticos, jornalistas e agentes literários pode ser entendida como um elemento importante para a legitimação de sua carreira?
Adriana Lisboa desde o início de sua carreira demonstrou grande interesse em se estabelecer profissionalmente como escritora. Ingressando em um curso de pós-graduação, mesmo sem ter a intenção de seguir a carreira acadêmica, Lisboa, no mestrado, escolheu como objeto de estudo a poesia de Manuel Bandeira, reunida no livro Estrela da vida inteira. Sua pesquisa resultou na elaboração de um romance, Um beijo de colombina, que foi publicado pela editora Rocco.
Na trajetória literária de Adriana Lisboa, a universidade teve um papel estratégico, funcionando como uma importante instância legitimadora, para falarmos como o sociólogo, Pierre Bordieu, da legitimação do nome da escritora. Não apenas porque na academia Lisboa estabeleceu relações com outros elementos importantes do campo literário, como críticos e especialistas na produção literária contemporânea brasileira, mas porque pôde entrar em contato com um modus operandi à instituição universitária, seu modo de produção de conhecimento teóricos e prático a respeito do objeto literário, e participar de debates e discussões sobre literatura.
O livro Um beijo de colombina, que nasceu como dissertação de mestrado, foi finalista de dois prêmios importantes: o Prêmio Jabuti e o Prêmio Zaffari Bourbon. Ao ser inscrito em premiações literárias, o livro passou a circular por uma esfera de leitores qualificados, críticos, acadêmicos e jornalistas especializados, e ao figurar como finalista de premiações importantes, obteve o aval de uma outra instituição legitimadora.
Logo depois de seu mestrado, Lisboa ingressou no doutorado em Letras e manteve o projeto de apresentar como tese um romance baseado no diário de viagem escrito pelo poeta japonês Matsuo Basho. Para a produção do romance, Adriana Lisboa
foi pesquisadora visitante no International Research Center for Japanese Studies, em Kyoto, com uma Bolsa da Fundação Japão. O romance Rakushisha também figurou como finalista em três prêmios literários: Prêmio Jabuti, Prêmio Zaffari-Bourbon e Prémio Casino da Póvoa em Portugal.
A chancela da academia, ou seja, o fato de ambos os romances terem sido avaliados previamente e terem passado por bancas formadas por professores especialistas abre um flanco ao reconhecimento do nome da autora por outras instâncias legitimadoras, como os prêmios literários.
A partir daí, é possível perceber que Adriana Lisboa volta à academia, agora, como objeto de estudo, já que atualmente a obra de Lisboa é discutida em monografias e teses universitárias.
Acreditamos, assim, que instâncias de consagração como a universidade e os prêmios literários têm peso considerável para o reconhecimento público do escritor nos dias de hoje. Elas ampliam a rede de relações do autor colocando-os em contato com outros profissionais que atuam na cadeia do livro, favorecem a interação do escritor com outros escritores, fornecem ao público uma avaliação prévia das obras por especialistas, funcionando como engrenagens importantes para a profissionalização do escritor.
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Este é um assunto que volta e meia reaparece na imprensa. Há alguns meses divulgou-se a criação de um destes cursos de formação de escritores no Rio Grande do Sul, e a polêmica recrudesceu. Como o moído é grande, pegarei para analisar apenas duas idéias, uma de cada lado.
A turma A diz: “É impossível ensinar alguém a ser escritor. Qual foi a faculdade que ensinou a Machado de Assis, a Guimarães Rosa?”
A turma B diz: “Ser escritor é uma profissão como qualquer outra: médico, engenheiro, jogador de futebol... Queremos ensinar a técnica, o talento é por conta do aluno”.
Vamos à frase A. Guimarães Rosa, Machado, e tantos outros são exemplos de auto-didatismo que deu certo. Eles não freqüentaram cursos de literatura. Cada um deles criou um curso de literatura para uso próprio. Leram de tudo, e leram em vários idiomas, para não ficar dependendo apenas do mercado editorial da província. Conviveram em diferentes círculos de idéias; compararam uns aos outros, superaram a todos. Grandes escritores formam-se, muitas vezes, à margem das regras e das normas. Se houvesse escolas de literatura naquele tempo, e eles as tivessem freqüentado aos vinte anos, talvez tivessem sido inutilizados para sempre. Muitos (tão bons quanto eles) provavelmente foram.
Vamos à frase B. Ser escritor é uma profissão? Às vezes. Eu, por exemplo, sou um escritor profissional. Ganho a vida escrevendo artigos de jornal, traduções, press-releases, críticas e resenhas, roteiros de cinema e TV, letras de música, ensaios, peças de teatro. Só não escrevo bula de remédio e bilhete de suicida. É possível ganhar a vida como escritor, mas isso não tem nada a ver com a Arte Literária. Talvez em cada vinte escritores profissionais, no Brasil, apenas um viva de Literatura.
Escrever profissionalmente é outra coisa, e para esta, cursos e faculdades são necessários. Um escritor profissional deve saber mais gramática do que a média da população, saber usar diferentes registros de voz e de discurso, imitar estilos, produzir texto sob encomenda com idéias que não são suas (se não concordar com elas, é só recusar a encomenda). Um escritor profissional escreve por si e por outras pessoas. Para isto, precisa de formação básica, treino, rigor, auto-crítica.
Curso de literatura não é para formar grandes autores, assim como uma Auto-Escola não visa formar um campeão de Fórmula-1. Ambas querem ser apenas um primeiro passo, sem o qual ninguém chega ao pico do Everest. Faculdades de literatura não formam literatos, assim como escolas de Belas Artes não formam artistas.
Universidades formam técnicos. Artistas surgem aleatoriamente. A arte fica um nível acima da simples técnica. O artista assimilou a técnica mas tem um fator desequilibrante, tem uma visão pessoal que faculdade alguma fornece. Mas se surgirem faculdades ensinando gramática e expurgando clichês... ah, meu amigo, os leitores brasileiros agradecem, e muito.
A Unisinos, de São Leopoldo (RS), iniciou neste segundo semestre de 2006 um curso para “Formação de Escritores e Agentes Literários”. A grade curricular para o semestre inicial do curso inclui “Elementos da Narrativa “ (60 horas/aula), “Oficina 1: Ensaio, Memória, Crônica, Biografia” (80 h/a), “Edição, Leitura e Sociedade” (80 h/a), “Gênese do Ensaísmo no Ocidente” (40 h/a), “Best-Sellers” (40 h/a) e “Viagem ao Redor do Cinema” (40 h/a). Estas duas últimas são interligadas.
O curso anuncia que sua intenção é “formar escritores e agentes literários empreendedores e inovadores, com domínio das técnicas de linguagem e mídia, além de uma sólida formação intelectual para interpretar o mundo, a tradição e a sociedade. O escritor formado na Unisinos terá capacidade para criar, formular livros e mediar entre diferentes públicos, planejar negócios e desenvolver produtos nas diversas áreas do mercado editorial e do cenário cultural”. Quem quiser mais informações, procure em: http://www.unisinos.br/formacao_especifica/escritores/.
A discussão é longa e farta, e convido o leitor a ir no saite indicado acima, onde também é possível acessar os blogs mantidos pelos alunos da primeira turma do curso. Em todo caso, mesmo discordando de alguns aspectos anunciados no saite, acho importante ensinar conhecimentos básicos de técnica literária. Todo mundo precisa saber exprimir-se por escrito, de uma maneira inteligível e pessoal. Muitos escritores já com livro publicado, no Brasil, ainda não sabem.
É possível que haja por aí um grande escritor que não domine muitas técnicas mas possua um estilo próprio, fora do comum, de imensa originalidade. A história da Literatura está cheia de exemplos. Um escritor assim talvez não precise de curso, mas um curso não se dirige às exceções, e sim à regra. Dirige-se a sujeitos comuns como eu. Eu não sou Joyce nem Mallarmé, mas quando tinha 20 anos queria escrever meus romances e meus poemas, e teria gostado muitíssimo de conviver com escritores já tarimbados e dispostos a discutir questões técnicas, para tirar algumas dúvidas. Tem coisas elementares da profissão que eu só vim aprender depois dos quarenta anos, por um golpe de sorte qualquer. E o problema é que tem muitíssimas outras que não aprendi ainda.
O Brasil precisa de escritores profissionais bem preparados, para ver se sobre o nível médio da produção, e é a isto que o curso da Unisinos se propõe. Mas é claro que não basta um curso para ser Affonso Romano de Santanna, ou boas notas para virar um novo Moacyr Scliar (os dois, aliás, são professores neste curso da Unisinos). Não se pode matricular um rapaz numa universidade e achar que ele sairá dali um Jorge Luís Borges (que, por falar nisso, tinha somente o curso secundário), assim como não basta mandar um rapaz para a zona e esperar que ele se transforme em Gregório de Matos ou François Villon. Um grande escritor, como um craque de futebol, forma-se a si próprio.
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“Quais são as principais dificuldades de ser um escritor no Brasil?” Imagino uma cena de filme em que um entrevistado ouve essa pergunta, fica em silêncio durante cinco minutos diante das câmaras, ao vivo, e depois murmura: “São muitas... são muitas... Acho melhor ir ser taxista”. Prefiro focar uma questão básica, que se coloca para muita gente que escreve: 1) Ser um escritor tempo integral, e tentar viver da literatura; 2) Ter outra fonte de renda (um emprego fixo) e escrever nas horas vagas. Cada uma tem vantagens e inconvenientes.
A segunda opção foi adotada pela grande maioria dos nossos grandes autores, que eram funcionários públicos, diplomatas, médicos, professores, jornalistas, etc., e não dependiam da vendagem dos seus livros para sobreviver. Isso dá ao autor uma certa liberdade. Ele escreve exatamente o que quer, e se o livro não vender, o prejuízo é da editora, e a pedra de tempo é do livreiro. O Escritor Nas Horas Vagas é num certo sentido um homem livre, que escreve o que lhe dá na telha; por outro lado, perde um tempo precioso de vida literária útil redigindo ofícios administrativos (como Drummond), demarcando fronteiras no meio da selva (como Guimarães Rosa) ou tratando de doentes (como Moacyr Scliar).
À primeira vista, o ideal seria o escritor viver da literatura e para ela. Já pensou, ter como único ofício o trabalho literário, 24 horas por dia, 365 dias por ano? O problema é quando a vendagem dos livros não cobre as despesas de aluguel, supermercado, contas, colégio das crianças. O escritor começa a folhear os suplementos, olhar a lista dos Mais Vendidos: “Hmmm... Parece que livros sobre os Templários estão tendo boa saída...” E aos poucos ele vai resvalando para a primeira opção de quem vive do ofício: fazer, não o que gostaria de escrever, mas o que o público está gostando de ler.
Como sempre, não é possível juntar o melhor de dois mundos. Já vi alguns autores dizerem que a melhor coisa para um escritor é exercer uma profissão que lhe exija atividade física (piloto de lancha, lenhador, etc.) e escrever nas horas vagas, porque aí a escrita vira um descanso. Para estes, passar o dia dando aulas de literatura (ou ralando numa redação de jornal) e tentar escrever à noite é suicídio.
É difícil viver de literatura no Brasil, portanto a opção de viver de outra coisa é a mais prática e a mais sensata. Para adotá-la, no entanto, é preciso ter disciplina e obrigar-se a escrever com regularidade. Escrever muito, e publicar apenas os 10% que parecerem de melhor qualidade, não importa se são vinte páginas por mês ou por ano. As principais dificuldades de ser escritor não têm nada a ver com o Brasil, ou com a China ou com o Haiti. Os problemas do escritor são parecidos no mundo inteiro e começam todos em casa, ou seja, dentro da cabeça dele. Se um escritor conseguir resolver os problemas que ele próprio se cria, já tem mais de meio caminho andado.
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Por Marília Costa
A internet é na contemporaneidade um veículo fundamental para a transmissão de informação e os escritores do século XXI têm utilizado essa ferramenta para divulgar os textos e também como suporte literário. Desse modo, as redes sociais servem como arquivos on-line para as produções literárias atuais e como mecanismo publicitário. Por conta disso, tornou-se possível conhecer novos autores e mergulhar em suas obras virtualmente.
É o caso, por exemplo, do autor que gostaria de comentar hoje. Diego Moraes, nascido e crescido no Amazonas, resolveu tentar a vida em São Paulo para viver uma história de amor que não deu certo. O romance acabou e o escritor passou a morar nas ruas, mais especificamente na Praça da Sé, pedindo esmolas e usando crack até ter coragem de entrar em contato com a mãe e voltar para sua terra natal. Moraes estudou apenas até a sexta série do ensino fundamental, concluiu o ensino médio através do supletivo e não teve acesso à universidade.
Ao retornar para o Amazonas, Diego Moraes publicou o seu primeiro livro “Fotografia do meu antigo amor dançando tango”, escrito no período em que viveu nas ruas de São Paulo e impresso em casa na gráfica do próprio pai. A carreira de escritor começou de maneira marginal e clandestina e foi ganhando espaço na cena literária por meio das redes sociais alimentadas pelo autor (Facebook e Twitter).
Atualmente, o autor mantém o blog Urso Congelado com textos em verso e prosa. Em 2015 foi um dos escritores convidados a participar da Balada Literária em São Paulo e retornou para a metrópole como uma promessa da nova literatura. Entretanto, busca assumir a postura de quem prefere estar à margem dos grandes centros literários, publicando seus livros (cujos títulos mereceriam um post à parte) por editoras independentes: “A solidão é um Deus bêbado dando ré num trator” (Ed. Bartlebee); “Um bar fecha dentro da gente” (Ed. Douda Correria); “Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava eu te amo no orelhão” (Ed. Corsário Satã); “Meu coração é um bar vazio tocando Belchior” (Ed. Penalux). Além disso, Diego Moraes idealizou e organizou a primeira Feira Literária Virtual pela Flipobre – a Flica dos escritores pobres, demonstrando disposição para criar um circuito diferenciado em relação ao mainstream literário.
Leitor ávido de Charles Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez, John Fante e Plínio Marcos, o pujante escritor Diego Moraes é influenciado pela cultura pop, sem medo de escrever o que pensa e sente, tem um estilo literário intenso e feroz, um lirismo marcante e uma escrita prosaica em ritmo poético ou vice versa. O autor acredita que a solidão e infelicidade servem como material literário para produzir bons textos. Em um viés autoficcional as temáticas das suas obras passeiam pelas decepções amorosas, drogas e solidão: “Se você não melhorar sua literatura com um chifre, não é com oficina literária do SESC que aprenderá a escrever.”, afirma de forma polêmica e divertida.
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carreira literária
Por Neila Bruno
Crédito da imagem: Aart-Jan Venema
A fundação de academias, agregando grupos de intelectuais, foi a forma de escritores obterem um primeiro reconhecimento do público. Porém, hoje, o escritor poderá tornar-se independente por meio de uma série de ações no sentido de se inserir numa profissionalização do ofício.
Para alguns, não é de bom tom associar dinheiro com literatura, preferindo apagar o caráter econômico das atividades culturais. Para outros,os planos financeiros e artísticos, dos quais advém o controle sobre a difusão das obras, permitem através dos lucros a subsistência do escritor.
O fato de que o livro é, atualmente, um produto consolidado no mercado favoreceu o desenvolvimento do ofício do escritor. Paralelo a isso, as mudanças ocorridas no campo literário nas últimas décadas vêm produzindo uma expectativa de melhoria na vida financeira dos autores. Atividades das mais diversas estão aí disponíveis para manter e auxiliar o trabalho de quem escreve: cursos, oficinas de escrita, eventos e festas literárias, feiras do livro nas quais os escritores recebem um cachê para proferirem palestras ou fazerem apresentações. Dessa maneira, muitos escritores pensam em viver de literatura, somando aos direitos autorais, essas atividades ao exercício profissional da escrita.
Quanto à busca da profissionalização, os próprios escritores se veem divididos entre a expectativa de viver exclusivamente da literatura e a aceitação das regras ditadas pelo mercado editorial. Ora, quando um autor resolve publicar seu original, ele deve buscar uma editora (excetuando-se os casos daqueles que preferem custear uma edição independente). Tendo o seu original aceito, a editora se responsabilizará pela leitura, revisão, edição e o projeto gráfico, antes de encaminhar o copião final à gráfica, que imprime e encaderna os livros e os despacha para a distribuidora, que, por sua vez,pode pertencer à própria editora ou não. Na etapa final desse ciclo, o livro é comercializado nas livrarias, físicas ou virtuais. Ou seja, publicar um livro é lançar um produto no mercado, ainda que um produto que não pode se igualar a venda de um sabonete, por
exemplo.
O século XXI viu surgir uma multiplicação de instâncias profissionais ligadas à literatura (sociedades de autores, oficinas para escritores), bem como instâncias de difusão das obras (festas e feiras literárias, imprensa, programas na tv, sites, blogs, redes sociais, entre outros) e de consagração literária (revistas, concursos, prêmios literários). Nesse contexto, a ideia de profissionalização está diretamente ligada à atuação do autor como um agente do mercado. E quanto mais marcante for a sua performance, mais condições ele terá de conquistar um público potencial para seus livros. Entrevistas em programas de televisão, reportagens de jornal, declarações em eventos, resenhas, biografias, fotos em revistas, tudo isso compõe a trajetória do autor.
Por esse motivo, poderíamos dizer que para exercerem o ofício de modo a conquistar a profissionalização, os escritores precisam do respaldo dessas instâncias para garantir a construção de uma carreira literária bem-sucedida.
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Conheço gente que fêz poupança quinze anos, até comprar uma casa com duas garagens, quintal, piscina e quatro quartos (duas suites). Conheço gente que trabalhou dezesseis horas por dia a partir dos 18 anos, e aos 30 tinha um apartamento de cobertura e dinheiro suficiente no Banco para viver de rendas até morrer de vodka ou de tédio. Conheço gente que todos os meses, chova ou faça sol, separa 10% do que ganha e investe em fundos de renda fixa. O que têm em comum essas pessoas? Eu diria que elas têm em comum o fato de que não acreditam em Loteria. Todas acreditam na lei do lento acúmulo de recursos, que faz o sujeito, um belo dia, parecer ter ficado rico de uma hora para outra.
Por outro lado, todos os dias milhões de brasileiros se enfileiram nas casas lotéricas para apostar na Mega-Sena, na Loto, na Loteca e em todas as variantes dessa curiosa religião randômica que faz uma população inteira apostar um centavo na esperança de ganhar um milhão. À primeira vista, essa sede de enriquecimento fácil não tem nada a ver com a rapaziada descrita mais acima – os que rezam na Bíblia do trabalho duro, e crêem no lento acumular de centavos até que o milhão se complete, décadas depois.
Vendo esses dois grupos tão diferentes eu percebo o quanto o trabalho literário (o trabalho artístico em geral) se parece com ambos. Um paradoxo danado, mas é verdade. O sujeito que escreve livros deposita todos os dias, na ranhura de algum porquinho-de-barro da opinião pública, seus centavozinhos de auto-investimento. O livro não vende nem metade da edição? A imprensa faz um silêncio sepulcral? Os amigos agradecem, fazem elogios vagos, e desconversam? E daí? O escritor parte para o próximo, ciente de que na maioria das vezes não é uma obra-prima isolada que faz a fama literária, e sim a lenta sedimentação de título após título, percutindo na memória do público e dos resenhadores. Muitas águas vão ter que rolar, mas aos poucos cresce uma estalactite de notoriedade cercando o nome do poeta que, bem ou mal, publicou vinte títulos em vinte e cinco anos. Não é uma Mega-Sena, concordo. Mas dá para o sujeito fruir uma fama simbólica à beira de uma piscinazinha metafórica.
Não é diferente do sujeito que quer ser Paulo Coelho ou J. K. Rowling. O livro não vendeu? O palpite não cravou uma dezena sequer? Não importa. Os milhões virão com o próximo. Cada vez que ele despacha um novo original pelo Sedex, é como se dissesse: “Desta vez fico rico.” Ele sabe que depois de dez retumbantes fracassos pode vir um sucesso mais retumbante ainda, conforme leu em dezenas de biografias dos-que-chegaram-lá. (É engraçado – ninguém escreve biografias dos que-não-chegam-lá.) Ele sabe que a Loteria da Literatura é a única em que o valor das apostas semanais vai se acumulando numa Caderneta de Poupança em nosso benefício, caso a sorte grande não chegue. E pra que coisa mais melhor?
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Por Neila Brasil Bruno
“Escrever, compor, pintar, nada disso é trabalho, é o exercício lúdico, revigorante, glamouroso e sublime de um dom artístico”. O depoimento, concedido ao jornal O Estado de São Paulo, é do escritor João Ubaldo Ribeiro e contraria ironicamente o lugar que transforma a arte em mercadoria. Tal reflexão sustenta-se entre os artistas que não estão preocupados com a expressão comercial do que realizam. O escritor ainda acrescenta: “por conseguinte o artista não pode pensar em dinheiro” (RIBEIRO, 2002). Ora, o status do artista vem se alterando muito nos últimos anos, não mais caracterizado como um pobre excluído, tentando ganhar a vida. Atualmente, o artista percebe a arte como uma vertente profissional. Por sua habilidade em conquistar mercados para suas obras, inspira empreendedores, inovadores e agentes de todos os tipos. A partir dessa habilidade, o artista busca profissionalizar-se no exercício da atividade artística ou literária.
Neste post, eu gostaria de aproveitar essa discussão para refletir sobre a seguinte questão: “É possível viver sendo escritor no Brasil?” Nas últimas décadas, é visível que os escritores vêm experimentando um processo gradativo de profissionalização. Começam “a viver de literatura”, coisa reservada há algum tempo atrás a um número reduzido de escritores, e a se relacionar com a ideia de que o livro, mais do que objeto cultural, é uma mercadoria vendável e lucrativa. Há uma expectativa de melhoria de vida financeira, atividades, as mais diversas, podem estar aí presentes para manter e auxiliar o trabalho de quem escreve: cursos; oficina de escrita; eventos e festas literárias, feiras do livro na qual os escritores recebem um cachê para fazerem palestras ou apresentações. Dessa maneira, muitos escritores pensam em viver de literatura, não apenas de direitos autorais, mas somando essas atividades ao exercício profissional da escrita.
Ser “escritor”, enquanto projeto de vida, é passar, necessariamente, por várias paradas obrigatórias: o autor precisa saber quem são seus pares – conhecer a obra de outros escritores; estudar técnicas literárias, história da literatura; ler literatura brasileira, crítica literária, ou seja, encarar a atividade de escrita como um trabalho. Há também o surgimento de cursos de formação do escritor e oficina literária que tem como objetivo favorecer a profissão de autoria, ao explorar técnicas ficcionais e suposições sobre escrita. Outra perspectiva interessante é considerar a posição da qual um autor fala, uma combinação de suas credenciais, sua visibilidade e sua capacidade promocional através da mídia. Com isso, se um autor aparece com regularidade nos meios de comunicação, ou assina uma coluna no jornal ou uma revista, isso dá a ele uma imagem de alto perfil que cria um mercado potencial preexistente para seus livros.
Finalizando, poderíamos então arriscar dizer que é possível que um autor consiga viver do mercado literário, trabalhando em toda a cadeia do livro, mas no que diz respeito a viver de direitos autorais ainda é um desafio para qualquer escritor brasileiro.
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Luiz Antônio de Assis Brasil
Por Neila Brasil
É notável a crescente oferta de oficinas literárias na cena contemporânea brasileira. No Brasil, um dos nomes de destaque é Luiz Antônio de Assis Brasil, que vem ajudando a formar escritores de diferentes gerações. A partir de 1985, Assis Brasil abriu a primeira turma da “Oficina da PUC”, em Porto Alegre, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Letras. Se, no início, as oficinas eram abertas para o público em geral, hoje é preciso candidatar-se a um processo seletivo.
As oficinas ministradas por Assis Brasil têm ganhado notoriedade ao longo desses trinta anos. Escritores como Michel Laub, Amilcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Paulo Scott e Carol Bensimon são alguns exemplos de autores que têm conseguido destaque no cenário nacional e que passaram pela “Oficina da PUC”. Em depoimento ao site ZH Entretenimento sobre o trabalho de Assis Brasil, o escritor Michel Laub afirmou: “Ele foi a pessoa que mais me ajudou no início da carreira. A oficina me tornou um leitor melhor, no mínimo, e portanto um escritor melhor – considerando que escrever é ler o próprio trabalho o tempo todo, julgando o que presta e o que deve ser jogado fora”.
A oficina literária também pode ser entendida como uma espaço de formação da carreira do escritor. Além da muitas oficinas ministradas por autores que também passaram pela experiência de formação das oficinas, também é possível encontrar oficinas de criação literária on-line. Adriana Lisboa, escritora carioca ofereceu, pela internet, uma dessas oficinas que consistia em encontros semanais virtuais, com duas horas de duração por encontro, durante quatro meses. Nas oficinas são discutidos elementos básicos da escrita de ficção e o resultado desses encontros deu origem ao e-book 14 novos autores brasileiros, lançado pela Mombak Editora.
Na apresentação ao volume, Lisboa observa que “a maior carência de um escritor acho que é a de um par de olhos ou ouvidos com que se possa compartilhar um trabalho e perguntar aquele sincero ‘e então?’ – para em seguida ouvir, com sorte, uma crítica sincera, pormenorizada, construtiva, arguta (embora não necessariamente agradável). O texto sai daí revigorado, livre do abismo do próprio umbigo. O mundo é vasto, ainda que seja uma bolinha de gude”.
As oficinas podem se configurar como sessões conjuntas de análise crítica dos textos contribuindo assim para a formação e o amadurecimento da carreira literária dos escritores, já que muitos escritores contemporâneos confirmam o quanto essas oficinas podem contribuir para a profissionalização. Podemos, então, arriscar dizer que tais espaços são interessantes para o debate do fazer literário e possibilitam compreender o trabalho de outros escritores, seu surgimento e atuação no campo literário.
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Por Neila Brasil
Neste post, eu gostaria de comentar brevemente a trajetória da escritora brasileira Adriana Lisboa considerando a internacionalização de sua carreira. Em entrevista concedida ao site da Saraiva/conteúdo, a autora afirmou: “Pensar em ser escritora era como pensar em ser astronauta, uma coisa assim um pouco fora da realidade. Eu não sabia que era uma profissão viável, possível. Fui fazer uma outra coisa também não muito viável, que é trabalhar com música”. Com formação nessa área, a autora viu na pós-graduação em Letras na UERJ a possibilidade de enveredar pela carreira de escritora. O romance Um beijo de colombina é apresentado como uma dissertação de mestrado. Visto em perspectiva, essa escolha parece indicar o reconhecimento da academia como um caminho possível de abertura para a afirmação de uma carreira como escritor.
Hoje, os livros de Adriana Lisboa encontram tradução em dezessete países, sendo uma das poucas autoras brasileiras traduzidas nos Estados Unidos, onde a autora vive atualmente. O fato de ser uma escritora contemporânea que alcança a internacionalização de seu nome pode estar relacionado à questão de ser representada por agências literárias como as de Lucia Riff (Agência Riff) e pela agente Nicole Witt (Mertin Literary Agency). Vale lembrar que nos Estados Unidos, por exemplo, a maior parte das editoras não recebe originais diretamente dos autores, que precisam ser representados por agentes literários.
Também é possível arriscar que o recebimento de prêmios literários seja um incremento importante de consolidação do nome da autora, já que Lisboa foi premiada com bolsas da Fundação Japão e da Fundação Biblioteca Nacional do Livro, para criação dos romances Rakushisha e Um beijo de colombina.
Entrevistas, resenhas, fotografias e artigos sobre Adriana Lisboa e sua obra são encontrados facilmente em materiais virtuais disponíveis na internet. A autora ainda conta com o site, atualizado recentemente, em que o leitor poderá encontrar informações sobre seus livros, biografia e contato. A obra de Lisboa vem recebendo maior atenção de estudiosos e críticos literários que desejam conhecer a literatura contemporânea. Sua obra tem sido alvo de diversos artigos, críticas e resenhas, sendo estudada em universidades brasileiras e algumas universidades nos Estados Unidos. Partindo dessa constatação, podemos afirmar que os caminhos trilhados por Adriana Lisboa, quer seja na construção da sua literatura, quer seja na recepção crítica de seus textos, têm contribuído para a consolidação da sua carreira tanto no Brasil quanto no exterior.
Luiz Ruffato,
Carreira literária,
Feira de Frankfurt,
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Internacionalização da literatura,
Crítica literária
Por Larissa Nakamura
O post desta semana é sobre a matéria de Leonardo Neto, chamada “Dois lado do efeito Ruffato”, publicada em março na Publish News. O texto é muito interessante, principalmente para quem acompanha a carreira de Luiz Ruffato nos últimos anos e seus desdobramentos no mercado editorial.
Neto quer discutir atualmente a repercussão que teve o discurso proferido por Luiz Ruffato na Feira de Frankfurt em 2013. A fala pouco elogiosa ao Brasil gerou uma grande polêmica no próprio evento, na imprensa estrangeira e brasileira, e entre os colegas de profissão. O que também nos importa, para além da recepção polêmica do discurso na mídia e academia, é o fato de Ruffato ter travado, na época, diversos acordos de tradução de suas obras com grandes e pequenas editoras europeias, principalmente alemãs. Três anos depois do ocorrido, qual é o saldo na carreira do escritor?
Leonardo Neto aposta, segundo depoimentos do próprio Luiz Ruffato, que no Brasil nada tenha melhorado em particular (principalmente em relação às vendas, e à recepção crítica da obra do autor) e sugere que o governo brasileiro passou a evitar a presença do autor em eventos oficiais em que o país é convidado ou homenageado. Por sua vez, no exterior, mostra-se crescente a demanda pelo escritor, pois não só está presente em eventos literários, como seus livros traduzidos venderam bem, vem recebendo convites para participar de coletâneas e para novos contratos de publicação de suas obras.
Diante de tais reações, entendemos que o resultado seria a existência de oposição entre a recepção estrangeira e a nacional à produção de Rufatto. Afinal, se o país de origem do escritor reage quase que indiferente (em termos de mercado), ou com o olhar suspeito sobre o artista, como sugere Neto, parece que o exterior o acolhe como uma boa aposta da literatura contemporânea. Sendo assim, uma notícia recente que não pode ser divulgada a tempo por Neto e que parece ratificar a ideia do interesse estrangeiro é o Prêmio Internacional Hermann Hesse a Ruffato e seu tradutor para o alemão, Michael Kegler. Não deixa de ser relevante mencionar que de acordo com a organização do prêmio literário uma de suas principais finalidades seria ressaltar a obra de um artista que não fora ainda devidamente valorizado.
Observando o percurso trilhado por Luiz Ruffato na direção da internacionalização de sua carreira, podemos afirmar que o autor parece investir nos frutos colhidos após a Feira de Frankfurt que podem garantir a ele a construção de um nome sólido e reconhecido em solo estrangeiro.
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Salvador
Por Marília Costa
Bruno de Moura é poeta, baiano, estudante de administração e distribui seus textos de forma marginal pela cidade de Salvador e pelos eventos literários que frequenta. Bruno começou a escrever aos quinze anos e aos dezoitos anos passou a colar cartazes pela cidade com poemas de sua própria autoria, para ele, a poesia deve ser o mais coloquial possível. Inspirado pelo que identifica como ideias filosóficas, faz questão de adaptá-las à nossa realidade.
Bruno se considera um artista independente. Ele mesmo produziu e editou cinco livretos com os seus poemas: Poesia Analógica (2015), Miopia (2013), Poliamor (2014), Dos amores que foram embora e não voltam mais (2014) e Pequenas estórias (2015). O autor planeja lançar um livro de crônicas, mas diz que não contará com o apoio de nenhuma editora.
“Eu sou artista independente, boicoto editoras! Esse ano vai sair um livro de crônicas, ele terá um melhor acabamento, mas não para dizer que lancei um livro. Interesso-me pelo conteúdo artístico. Tudo que faço tem uma estética.” (MOURA, 2016)
Durante algum tempo, autor distribuía gratuitamente seus livretos em saraus e aos amigos, mas atualmente os vende a preços populares. Além disso, para divulgar os textos, faz uso das redes sociais e o ritmo de publicação é quase simultâneo ao de sua produção. Para Bruno, a estética é aquilo que busca para traduzir o que sente. No momento, está trabalhando em “Orquestra da saudade”, um poema “fast-food”, como o próprio autor define. Salvador é o pano de fundo de suas criações, está presente nas postagens da internet, nos cartazes que espalha pelas ruas e nos vídeos que planeja fazer.
Uma rápida busca no Google basta para termos uma ideia de como a lista de sites que oferecem oficinas, workshops, tutoriais de como editar o próprio livro é gigantesca. Parece já existir um mercado estruturado em torno disso. Como afirma Ana Claudia Viegas, a atuação multimídia do autor que, além de produzir sua obra, encarrega-se de pensar estratégias de divulgação e circulação de suas produções e de seu nome, parece ser uma tendência da literatura contemporânea. Um fator importante para o que parece ser uma nova condição da autoria na cena contemporânea é o uso da internet como suporte. Nesse sentido, os textos de Bruno de Moura dizem muito do tempo presente e do funcionamento do campo literário hoje.