Ian McEwan

8 textos neste tema

Atonement – Ian McEwan

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2012-02-07 05:27

Literatura, Escrita criativa, Crítica literária, Adaptações cinematográficas, Técnicas narrativas

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Atualização: 07-02-2012

Terminei esta madrugada a leitura deste livro fantástico. Uma das maiores habilidades de Ian McEwan, ao meu ver, é como ele se preocupa em preparar o terreno (e sabe como fazer). O livro poderia ter sido escrito como uma novela de oitenta páginas, não tenho dúvidas disso. Não que haja desperdício, pelo contrário, é McEwan preparando a armadilha. Lamento muito, muito mesmo não ter lido o livro antes de ter assistido ao filme. Tentei, sem sucesso, emular o que seria meu espanto ao ler as duas últimas páginas do romance sem saber como terminava o filme. Atonement é um louvor à literatura, ao poder que têm as palavras, ao poder que tem o escritor:

“How can a novelist achieve atonement when, with her absolute power of deciding outcomes, she is also God? There is no one, no entity or higher form that she can appeal to, or be reconciled with, or that can forgive her. There is nothing outside her. In her imagination she has set the limits and the terms. No atonements for God, or novelists, even if they are atheists. It was always an impossible task, and that was precisely the point. The attempt was all.”

Ian McEwan tem tanto domínio da técnica literária que demonstra a evolução da escrita de Briony. Em um determinado momento ela está impressionada com As Ondas, de Virginia Woolf, e pensa que ter alcançado um novo patamar em sua própria escrita:

“The age of clear answers was over. So was the age of characters and plots. […]If only she could reproduce the clear light of a summer’s morning, the sensations of a child standing at a window, the curve and dip of a swallow’s flight over a pool of water.”

Ao longo do livro, McEwan (ou Briony) brinca com os detalhes realistas para melhor compor sua mentira. O mais interessante é como ele é bem sucedido nesta tarefa. Nós nos preocupamos com um estilhaço de granada na perna de alguém ou com uma única bomba que um determinado avião pode soltar; enchemo-nos de esperança com um encontro auspicioso com uma cigana e com uma despedida amarga numa estação; prestamos toda a atenção ao modo como alguém dobra uma toalha ou mastiga sua parca ração em silêncio. Mas, como escreve Briony, na mais bela passagem do livro (contém spoiler, não leia se não leu o livro ou não viu o filme):

“I know there’s always a certain kind of reader who will be compelled to ask, But what really happened? The answer is simple: the lovers survive and flourish. As long as there is a single copy, a solitary typescript of my final draft, then my spontaneous, fortuitous sister and her medical prince survive to love.”

Avaliação:

5 estrelas de 5

04-02-2012:

Comecei hoje a ler um dos livros mais elogiados dos últimos anos (a revista Time chegou a colocá-lo na lista dos 100 melhores romances de todos os tempos!).  A minha vontade de ler o livro era sempre arrefecida pelo fato de eu ter visto o filme (muito bom, na minha opinião) e, consequentemente, saber do grande segredo revelado no final. Senti-me triste por não ter lido o livro antes, já que muito provavelmente a revelação, literária por natureza, teria muito mais impacto em mim sendo lida.

Aproveitei uma promoção do tipo compre dois e leve três numa livraria local e comprei a edição da foto acima. Estou no início ainda (cerca de 15% do livro), mas já encontrei algumas passagens dignas de nota para quem ama a literatura.

Antes de chegar a elas, entretanto, cumpre esclarecer que Atonement (algo como expiação, reparação) narra a história de Briony Tallis, menina de 13 anos que aspira ser escritora e que, por um erro, acaba provocando trágicas mudanças na vida de diversas pessoas, especialmente o casal de enamorados Cecilia, sua irmã mais velha, e Robbie, o filho da empregada da família.

Não vou comentar nada a partir do que vi no filme. Serei fiel ao meu avanço na leitura. Pude perceber, por exemplo, a preocupação e habilidade de Ian McEwan, escritor inglês, em apresentar perfis psicológicos das personagens, especialmente Briony, menina sonhadora, inocente e platonicamente apaixonada pelo irmão mais velho Leon. O escritor utiliza-se o tempo todo do famoso “discurso indireto livre” tão falado por James Wood, falando pela boca das personagens enquanto disfarça-se de narrador onisciente.

Voltando às frases, lembro que Briony quer ser escritora, e esse pensamento ocupa boa parte dos seus pensamentos (ao menos durante as primeiras cinquenta páginas). Eis uma belíssima e inspiradora reflexão sobre a criação de mundos que é escrever (não disponho da edição traduzida e não ousarei traduzir…):

“A world could be made in five pages, and one that was more pleasing than a model farm. The childhood of a spoiled prince could be framed within half a page, a moonlit dash through sleepy villages was one rhythmically emphatic sentence, falling in love could be achieved in a single word – a glance.”

Agora uma passagem fantástica sobre a relação de cumplicidade que se estabelece entre o escritor e o leitor. Denota até mais do que cumplicidade até, alcançando uma espécie de controle por parte do escritor, que “envia” pensamentos e imagens independentemente da vontade de quem lê:

“It seemed so obvious now that it was too lat: a story was a form of telepathy. By means of inking symbols onto a page, she was able to send thoughts and feelings from her mind to her reader’s. It was a magical process, so commonplace that no one stopped to wonder at it. Reading a sentence and understanding it were the same thing; as which the crooking of a finger, nothing lay between them. There was no gap during which the symbols were unraveled. You saw the word castle, and it was there, seen from some distance, with woods in high summer spread before it, the air bluish and soft with smoke rising from the blacksmith’s forge, and a cobbled road twisting away into the green shade…”

Aqui Ian McEwan nos dá uma pista do que podemos esperar. Mas só sei disso porque vi o filme, então vou fazer de conta que não sei de nada…

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

Resenha – Serena – Ian McEwan

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2013-03-28 00:08

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Quando vi Desejo e Reparação, filme dirigido por Joe Wright, fiquei completamente boquiaberto com o final. Ao descobrir que a película era a adaptação de um livro, senti uma pontadinha de tristeza: aquele final foi todo pensado, planejado, elaborado para ser lido, não visto numa tela de cinema. O impacto da descoberta é certamente muito mais intenso no livro que no filme, mesmo que este último não deixe de ter seus muitos méritos. Fiquei, desde então, aguardando ansioso o momento de ler Reparação, o que fiz no ano passado (escrevi aqui um post sobre o livro).

Tornei-me instantaneamente fã de Ian McEwan. Em Reparação ele manipula a história e os personagens como um habilidosíssimo artesão, e a reverência que ele demonstra com a literatura, a homenagem que ele faz ao poder das palavras são tocantes.

Após ler Reparação, li uma pequena novela do autor inglês, The Comfort of Strangers, da qual não gostei, conforme registrei aqui.

Agora chegou a vez de Serena, livro mais recente escrito por McEwan. Conta uma história que se passa nos anos 70, em Londres, e que mescla romance, literatura e guerra fria.  A protagonista, Serena Frome, é a jovem filha de um bispo anglicano que estudou matemática em Cambridge e acabou sendo recrutada para trabalhar no MI5, o serviço secreto inglês. Apaixonada por literatura (mesmo sendo uma “leitora dinâmica”) ela é selecionada, por conta disso, para participar de um projeto típico da guerra fria: para combater as ideias comunistas, o MI5 quer secretamente financiar autores talentosos que escrevam em favor do capitalismo. Em meio a algumas paixões, Serena envolve-se com o escritor que recrutou, Thomas Haley, e se vê no dilema de manter viva uma mentira justamente para aquele que ela julga ser seu grande amor.

Para quem já leu Reparação, como eu, é inevitável a sensação de déjà vu e e também inevitável “adivinhar” o final do livro lá pelo meio da história. Isso aconteceu comigo e tirou boa parte da emoção. Eu prosseguia curioso apenas para saber se eu realmente tinha acertado na mosca. E acertei.

Enquanto em Reparação o final é devastador, tirando seu chão, a impressão que tive é que Serena é a reparação de Ian McEwan para Reparação: talvez ele tenha achado que pegara pesado demais e quis fazer uma história de amor na qual o amor vence.

De qualquer modo, Serena é um livro interessante, bem escrito, cheio de literatura dentro da literatura e que vale muito a leitura, especialmente se você não leu Reparação. Mas não se trata (pelo menos não foi o meu caso) daquele livro que deixa uma marca. Tão rapidamente como li o livro (dois dias foram suficientes), sei que me esquecerei dele.

Apenas um acréscimo, por conta de uma daquelas coincidências literárias interessantes. Terminada a leitura do livro 1 de 1Q84 (sobre o qual escrevi aqui), fui à livraria comprar o livro 2 (sobre o qual também escrevi aqui). Comprei Serena por encomenda de um irmão para presentear outro irmão. Resolvi iniciar a leitura de Serena antes do livro 2 de 1Q84 para ler antes de enviar para meu irmão. Finda a leitura, parti para o livro de Murakami, que também terminei.

A coincidência? Os livros são incrivelmente parecidos na maneira como retratam a literatura. Vejam abaixo:

– Em ambos há um escritor talentoso à espera de uma oportunidade – Tengo e Thomas Haley;

– Os dois escritores recebem a encomenda de escrever alguma coisa que a princípio não é de seu interesse;

– Os dois recebem proposta de apoio financeiro para se dedicarem exclusivamente à escrita, mas essa proposta tem segundas intenções;

– Ambos fazem sucesso com o primeiro livro que escrevem;

– Em ambos os livros os autores recorrem ao expediente de inserir literatura dentro da literatura – em 1Q84, Tengo lê alguns contos para Fukaeri ou para seu pai e o narrador conta com detalhes a trama de A crisálida de ar à medida que Aomame lê o livro. Em Serena, a própria Serena lê três contos escritos por Thomas Haley e ocupa-se em analisá-los;

– Principalmente, em ambos os livros a literatura que os dois escritores – Tengo e Thomas Haley – produzem altera significativamente a própria realidade (de maneira distinta, mas inquestionável).

Eu fiquei tão intrigado com isso que fiquei pensando qual livro teria sido escrito primeiro, por imaginar que um dos autores tivesse “colado” a ideia do outro, o que não é uma hipótese muito boa, já que são grandes escritores que constantemente provam seu talento. De qualquer sorte, para meu alívio mental, Serena foi publicado em agosto de 2012, enquanto 1Q84 (que na minha opinião é bastante superior ao livro de McEwan) foi publicado no Japão entre 2009 e 2010.

Eu tornei-me fã de McEwan após a leitura de Reparação. Preciso confessar que após a leitura de The Comfort of Strangers e de Serena tornei-me um pouco menos fã.

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

Ian McEwan – Na Praia (On Chesil Beach)

Fonte: Livrada | Publicado em: 2014-06-30 12:00

Literatura, Resenha literária, Ian McEwan, Relacionamentos, Comportamento social

on chesil beach

Bem-vindos ao post nº200 do Livrada! Tamo aí na atividade, contrariando as estatísticas.

Ian McEwan! Esse é o escritor que a garotada gosta de ler hoje em dia! E por quê, vocês me perguntariam. Por que um inglês metido a besta que escreve livros de títulos pomposos como Reparação (que no cinema vira Desejo e Reparação, uma vibe meio janeaustiana de fazer romances de saia frufru) e escreve esse romance curto de hoje faz tanto a cabeça da meninada? Vamos tentar responder a essa e a outras perguntas no post de hoje. E desde já, aviso: tem spoiler. Tem spoiler pra caralho, tem spoiler no teu cu, tem spoiler pra sempre.

Deixa eu ajeitar meu óculos aqui, botar minha cara de intelectual, e pronto. Bom, senhores, Na Praia poderia muito bem se chamar “Uma história sobre o casal mais travado do universo”, se os romances tivessem títulos explícitos assim. Mas não, o escritor sempre tem que colocar um título maneirinho, pra ser maneirinho e fazer maneirices enquanto escreve, de modo que você não sabe porque o livro chama Na Praia além do fato de se passar num balneário até mais ou menos o final dele, quando você mais ou menos saca porque ele chama Na Praia, mas também não tem muita certeza porque, por Deus, pro sujeito ter colocado um título enigmático desses, tem que ter mais de cinco significados pelo menos, não é? É mais ou menos assim que você pensa e aí está a parte do fascínio do autor, porque, tirando a parte do título, o resto do livro é bem fácil de entender, e você se sente lendo uma parada muito superior ao que você realmente acha que está lendo, mas acho que se eu explicitar a história um pouquinho vocês vão entender melhor do que eu tô falando.

Os dois personagens principais são Edward e Florence, um jovem casal que, no começo da década de 60, está em noite de núpcias e ambos são virgens. A partir daí, o escritor vai revelando o background dos dois, e quem lembra da minha última resenha, a do livro do Hemingway, pode trazer à baila aqui a questão da construção dos personagens. Pois bem, amigos, McEwan é um desses escritores que se empenham em construir personagens complexos pra caramba e partir deles, descrever uma única situação. Pois bem, ele é um underachiever sossegado na vida que tem muito pouca sorte com as mulheres em um momento de explosão de sexualidade e revoluções culturais a cada minuto. De modo que ele queria fazer parte da putaria, mas não pode porque não sabe chegar chegando. A mulher dele, por sua vez, Florence, é uma violinista esquisitona de uma família aristocrática. Ela é completamente assexuada e despreza a ideia de fazer sexo com alguém, mas hey, a sociedade bota pressão pra tanta coisa que vamo nessa, né? Só que a coisa dá tremendamente errado, o sujeito tem ejaculação precoce, a mina quase vomita de nojo de receber uma gozada na barriga e o que se segue é uma briga feia que bota em cheque tudo aquilo que eles deveriam gostar, mas não gostam. E aí aparece toda a questão de uma geração no meio do caminho da mudança, e o quanto esse negócio de mudança de paradigma e tradição faz uma bagunça na cabeça do peão quando os pilares vão caindo.

na praiaAcho que no final das contas, Na Praia é um livro que a galerinha curte porque 1- é curto. 2- fala de sexo. 3- é engraçado. 4- se pretende profundo e certeiro no recorte da geração. 5- tem personagens muito bem construídos e uma narrativa excelente. É impressionante a precisão da escolha de palavras dele para descrever as coisas mais complexas, é algo que eu gostaria de ter mas não tenho e todo mundo que lê esse site pode perceber isso sem maiores dificuldades.

Esse livro é da Companhia das Letras e tem uma capa linda assinada por um artista chamado Angelo Venosa, que na verdade é um escultor e tem um site legalzinho com as instalações dele, mas não tem essa pintura maneira (que eu espero que seja uma pintura, e não uma foto saturada), e por dentro é aquela coisa: fonte Electra (ainda adoro essa fonte, depois de todos esses anos) e pólen bold porque é isso o que você faz quando o livro é muito fino e o autor não é pouca merda. A tradução é do Bernardo Carvalho, que há de ser o que temos de melhor hoje em dia por essas bandas em termos de ficcionista, e se dão um texto pra um escritor consagrado traduzir é porque o sujeito não é pouca merda mesmo. Então fica aí a dica e a pressão que esse povo faz: leia McEwan.

Comentário final: 128 páginas em papel pólen bold. A propósito, li esse livro quando estava na minha terra natal: uma praia. Oh!

PS: ainda sinto falta dos comentários de vocês. Não apenas porque eu gosto de saber o que vocês pensam dos autores que eu resenho aqui, mas também porque isso ajuda a ranquear a página, então pense que o comentário é o riso pro palhaço 😀

Texto originalmente publicado em Livrada

The Comfort of Strangers – Ian McEwan

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2012-05-18 19:34

Literatura, Resenha literária, Relacionamentos, Cinema, Veneza

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Depois de ter me encantado com Reparação, encontrei The Comfort of Strangers num sebo e nem pensei duas vezes: uma pequena novela, com menos de cem páginas, esse parecia ser o livro perfeito para conhecer um pouco mais sobre Ian McEwan, autor inglês de grande prestígio e reconhecimento internacional.

O livro conta a história de Colin e Maria, um casal em férias por uma cidade turística na Europa que, apesar de não ser identificada, parece ser Veneza. Maria é divorciada e tem dois filhos, que ficaram na Inglaterra. Apesar de eles não serem casados, ambos são muito íntimos, e a forma como o autor mostra essa cumplicidade é a melhor parte da novela. A seguir um pequeno extrato que ilustra bem isso (destaque por minha conta):

They whispered and kissed, stood up to embrace, and returned to the bedroom where they undressed in semi-darkness.

This was no longer a great passion. Its pleasures were in its unhurried friendliness, the familiarity of its rituals and procedures, the secure, precision-fit of limbs and bodies, comfortable, like a cast returned to its mould. They were generous and leisurely, making no great demands, and very little noise. Their lovemaking had no clear beginning or end and frequently concluded in, or was interrupted by, sleep. They would have denied indignantly that they were bored. They often said they found it difficult to remember that the other was a separate person. When they looked at each other they looked into a misted mirror. When they talked of the politics of sex, which they did sometimes, they did not talk of themselves. It was precisely this collusion that made them vulnerable and sensitive to each other, easily hurt by the rediscovery that their needs and interests were distinct. They conducted their arguments in silence, and reconciliations such as this were their moments of greatest intensity, for which they were deeply grateful.

A primeira parte do livro é dedicada a Colin e Maria: como eles acordam, como se conhecem, as pequenas idiossincrasias, o modo como Colin exagera ao contar um pequeno fato que presenciou naquela manhã, como ambos conseguem se entender e parecem até ter esquecido que cada um é uma pessoa, como diz o próprio texto que citei. Eles aproveitam a viagem para revitalizar seu relacionamento e parecem encontrar uma oportunidade de viver algo novo ao conhecer Robert e Caroline. Robert é um homem expansivo e insiste em iniciar uma amizade com eles após um encontro aparentemente casual. Caroline é bem mais jovem que ele e tem problemas de saúde. Colin e Maria sentem-se incomodados com o modo intrusivo com que Robert se comporta, mas ao mesmo tempo são atraídos pela sua ousadia e pela aventura que eles podem viver.

Aos poucos, todavia, eles percebem alguns exageros no comportamento do casal e a história se encaminha para um turbilhão que envolve compulsão sexual e violência. Rápido assim.

Esta é a minha ressalva em relação ao livro. A primeira parte é conduzida com paciência e maestria: por meio de pequenos fatos, nós realmente conhecemos Colin e Maria. A partir do momento em que Robert e Caroline aparecem, tudo se torna muito rápido, urgente, como se o autor estivesse com pressa de terminar a história. Essa pressa levou inclusive a algumas ocasiões em que a reação de Colin e Maria parece completamente inconsistente com o que foi apresentado previamente, como se McEwan estivesse com preguiça de desenvolver o argumento. A cena final demonstra, de maneira especial, essa displicência, o que acaba tornando a leitura um tanto decepcionante, apesar do inegável talento narrativo do inglês.

Sei que a história virou um filme em 1990, nas mãos de Paul Schrader, tendo Cristopher Walken, Natasha Richardson, Rupert Everett e Helen Mirren no elenco. Oportunamente verei se a versão cinematográfica é menos decepcionante que a versão escrita.

Minha avaliação:

2 estrelas em 5

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

ROONEY & McGREGOR

Fonte: Da Literatura - Eduardo Pitta | Publicado em: 2019-09-01 00:00

literatura contemporânea, crítica literária, sociedade irlandesa, crise econômica, realismo urbano

Hoje na Sábado escrevo sobre Pessoas Normais, da irlandesa Sally Rooney (n. 1991), autora de dois romances finalistas de prémios de prestígio. Além desses, tem publicado contos em revistas, entre elas a New Yorker e a Granta. Também publicou poesia em The Stinging Fly, uma revista de Dublin de que é editora. Aos 28 anos, a recepção crítica tem sido unânime dos dois lados do Atlântico: Ms Rooney é a grande revelação dos últimos anos. Pessoas Normais, cuja acção decorre entre 2011 e 2015, ou seja, durante o colapso da economia irlandesa, é a história de como, a partir da cidadezinha de Carricklea (nome fictício de Castlebar, cidade natal da autora), Connell e Marianne fazem a sua educação sentimental. Connell é o típico aluno bem-sucedido, jogador de futebol «com uma postura muito boa», oriundo da working class, e Marianne a rapariga que lê Proust na cantina da escola e tem de lidar com as idiossincrasias da mãe, uma advogada neurótica e viúva. A mãe dele trabalha como empregada em casa da mãe dela, e a relação aprofunda-se quando ele começa a ir buscar a mãe a casa de Marianne. Mas o gap social é um óbice que a mudança para o Trinity College, de Dublin, acentua. Nunca como então as clivagens foram tão nítidas. Connell nunca quis saber quem era o pai. Educado pela mãe no respeito pelos valores da solidariedade, interessava-se pela causa palestiniana e era capaz de dizer que «um pouco mais de comunismo não fazia mal nenhum a este país». Estamos na Irlanda da recessão, em plena crise das dívidas soberanas, no auge da turbulência austeritária, com o Fine Gael e o Sinn Féin representados no Parlamento. E nem por isso Marianne deixou de ter um affaire com o filho de um dos responsáveis pelo descalabro financeiro. Com muito sexo à mistura, é de tudo isto que o romance trata. Sem grande ênfase, Sally Rooney faz o retrato da geração que chegou à idade adulta no pior momento que a Irlanda atravessou no século XXI. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Até os Cães, do britânico Jon McGregor (n. 1976), romance que em 2010 venceu o International Dublin Literary Award. Não é frequente colocar fantasmas como personagens de romance, mas está longe de ser novidade. Quem tenha lido Incidente em Antares (1971), do brasileiro Érico Verissimo, identifica o déjà vu nas primeiras páginas do livro. McGregor tornou-se conhecido dos leitores portugueses com Reservatório 13. Noutro registo, Até os Cães é realismo urbano em versão ghost. Os fantasmas são antigos amigos de Robert Radcliffe, encontrado morto algures nas Midlands: «Não nos veem, à medida que nos amontoamos e abrimos caminho entre eles. É claro que não. E nem podiam. Mas já estamos habituados a isso.» Quem não os pode ver são os polícias que arrombam a porta. Marginais em vida (alcoólicos, drogados, sem abrigo), une-os a proximidade com o falecido. Há também a filha Laura, compinchas da tropa, etc. Todos passam em revista a vida de Robert. A escrita é escorreita mas não exaltante. Duas estrelas. Publicou a Elsinore.

Texto originalmente publicado em Da Literatura - Eduardo Pitta

JON McGREGOR

Fonte: Da Literatura - Eduardo Pitta | Publicado em: 2018-11-01 00:00

literatura contemporânea, resenha literária, ficção britânica, mistério rural

Hoje na Sábado escrevo sobre Reservatório 13, do britânico Jon McGregor (n. 1976), autor que despertou a atenção da crítica com o seu primeiro romance, rapidamente traduzido entre nós. Tinha então 25 anos. O mais recente chegou agora às livrarias. Confirma os dotes do autor, várias vezes premiado, incensado por pares ilustres. Reservatório 13 parece um thriller em ambiente rural pós-moderno. No centro da intriga, o desaparecimento de uma adolescente, Rebecca Shaw, numa aldeia perto de Manchester. Os treze capítulos do livro sinalizam os anos de busca. Com excepção do primeiro, começam todos com a mesma frase: À meia-noite, na passagem de ano… O dia fatídico permanecerá um mistério. O foco não é tanto a rapariga, que pode ter partido por vontade própria, mas o microcosmo local. Rapidamente esquecemos Rebecca. O romance é sobre as pessoas da terra (solidão, aspirações, sexo voraz, intrigas), os colegas de escola, o quotidiano do Centro Comunitário, a equipa de críquete. McGregor é muito hábil na forma como monta o patchwork. Mas por que será que é sempre uma rapariga a desaparecer? Três estrelas. Publicou a Elsinore.

Texto originalmente publicado em Da Literatura - Eduardo Pitta

Novidade – “O que Podemos Saber” de Ian McEwan

Fonte: Ministério dos Livros | Publicado em: 2025-09-24 12:45

literatura, ficção especulativa, resenha literária, mistério, filosofia

2014: Num jantar para amigos e colegas próximos, o conceituado poeta Francis Blundy presta homenagem à sua mulher, no aniversário dela, lendo em voz alta um novo poema que lhe dedica: Uma Coroa para Vivien. Mal sabem os convidados que depois daquele jantar serão várias as gerações a especular sobre a mensagem daquele poema, cujo registo original nunca foi encontrado, permanecendo um mistério.

2119: Pouco mais de cem anos depois, grande parte do mundo ocidental está submersa pela subida do nível do mar após um acidente nuclear catastrófico. Aqueles que sobrevivem são assombrados pela riqueza de um mundo que se perdeu. No sul inundado do que costumava ser a Inglaterra, Thomas Metcalfe, um solitário investigador, idealiza o início do século XXI enquanto persegue o fantasma de um poema. Thomas sente fascínio por aquelas vidas selvagens e cheias de riscos, enquanto se debruça sobre os arquivos dessa era distante, cativado pelas possibilidades da vida humana. Quando tropeça numa pista que pode levar à descoberta do poema dedicado a Vivien, encontra também uma história de amores entrelaçados e de um crime brutal, que destrói as suas suposições sobre pessoas que julgava conhecer intimamente.

O que Podemos Saber é uma obra-prima, um tour de force filosófico, uma história de amor sobre pessoas e as palavras que elas deixam para trás, um enredo detectivesco que resgata a nossa actual sensação de catástrofe iminente e imagina um mundo onde nem tudo está completamente perdido.

Texto originalmente publicado em Ministério dos Livros

Novidade – “Estranha Sedução” de Ian McEwan

Fonte: Ministério dos Livros | Publicado em: 2024-11-22 12:45

literatura, resenha, sinopse

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Mais sobre o livro AQUI

Sinopse:

Numa visita a uma cidade jamais designada, Mary e Colin despertam a atenção de Robert, um homem carismático mais velho que transporta consigo uma história por contar. Mas quanto mais conhecem Robert – e a sua mulher deficiente, Caroline – mais evidente se torna de que há algo de profundamente misterioso nestes seus novos amigos.

Com uma escrita rica em descrições e pormenores Ian McEwan convida o leitor a partilhar a intimidade deste casal. Apercebemo-nos com eles do perigo e ignoramos com eles os sinais desse mesmo perigo iminente. Marcado pela obsessão erótica e por uma crueldade latente, o romance Estranha Sedução revela Ian McEwan no auge do seu talento criativo.

Texto originalmente publicado em Ministério dos Livros