Ernest Hemingway

4 textos neste tema

Ernest Hemingway – O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea)

Fonte: Livrada | Publicado em: 2013-10-07 12:00

Literatura, Prêmio Nobel de Literatura, Pesca, Crítica literária, Clássicos da literatura

the old man and the seaOra, ora, ora, mais um clássico da literatura do século 20 por aqui. Aliás, um clássico curtinho. Clássico curtinho da literatura do século 20. O melhor tipo de clássico para o leitor comum. Rápido, acessível, geralmente barato, e quase, quase, quase sempre, permite qualquer leitura rasa que você queira fazer dependendo da sua disposição. Enfim, eis o arquétipo do livro universal. Taí pra quem quiser ler do jeito como quiser ler. O Velho e o Mar, que foi o último livro do Hemingway publicado em vida, é um desses casos e, graças a sua verve quase jornalística de narrar as coisas da maneira mais econômica possível, permite um sem fim de interpretações filosóficas, sociológicas, biológicas, metafísicas, naturalistas, políticas, gastronômicas, ergonômicas, psicodélicas, escalafobéticas e estrogonóficas sobre a manjada história do velhinho tentando pegar um peixe. E um aviso pros mal comidos de plantão: tem spoiler mesmo, na cara dura, sem dó. Te acostuma aí, boneco. Fica peixe.

Pra quem chegou agora no planeta Terra, a coisa gira em torno do véio Santiago, um cubano pescador que, já completamente desprovido da vitalidade de outrora, tenta sem sucesso tirar seu sustento do mar. Pra quem estranha a nacionalidade do sujeito e a ambientação do romance, fique sabendo que o autor morou um tempo em Cuba, onde ele inventou, segundo a lenda, o mojito. O velho tem como único amigo um garoto, que lhe ajuda nas pescarias e que lhe dá de comer quando tudo mais rareia na geladeira – uma amizade que seria muito útil pra mim, tendo em consideração o constante e deplorável estado da minha geladeira (por enquanto esse amigo continua sedo o motoboy do delivery). Os pais do moleque, mesmo assim, não gostam que ele vá pescar com o Santiago porque ele é azarado, e se tem uma espécie supersticiosa nesse mundo é pescador. Aliás, qualquer pessoa que frequenta muito o mar, de surfista a pirata. É uma coisa natural. Uma hora a parada vira, você fica num mato sem cachorro e pra te acharem naquele mundaréu de água salgada só com muita reza braba e foguetório sinalizador. De modo que o velho sai pra pescar sozinho, na esperança de fazer uma economia aí pros dias que se apertam, uns peixinhos que dê pra vender sem precisar vender muito o peixe, e não é que aparece um PEIXE-ESPADA MONSTRUOSO ASSASSINO VINGATIVO AMIGO DO PCC. E o velho tá lá, mãozinha na fieira, puxando o bicho na maior história de pescador que poderia ter imaginado. O bicho é irascível, e cansa o velho, que passa dias e noites com a linha na mão ponderando sobre a sua fraqueza, sobre a sua habilidade de pescador e sobre a beleza e magnitude do peixe que agora precisa pescar para recuperar sua honra de pescador não-azarado. Isso é 90% do livro. Uma narrativa sintética com monólogos do velho Santiago sobre essas questões aí. A coisa segue nessa toada até que ele consegue finalmente pegar o bicho, e dá um jeito de amarrar ele no bombordo do barquinho, numa proeza que nenhum Pesque e Cia. até hoje mostrou.

Mas aí vem o pulo do gato que só quem leu sabe. A coisa não ia ficar por isso mesmo, é lógico. A tubarãozada, vendo aquele sangue derramado e o cheiro de peixe morto, vem logo pra fazer a janta de ocasião, e aí começa uma luta do velho com os cartilaginosos ardilosos, uma luta que eventualmente ele perde, e chega na costa só com a espinha gigantesca amarrada no barco, provando que sim, ele ainda é o pescador azarado de sempre. Nada dá certo, desgraça total, todo mundo pobre, Fidel preparando pra tomar a ilha e o velho continua sem comida e longe de seu esporte favorito, o beisebol.

o velho e o marFica claro numa leitura possível de O Velho e o Mar a relação de medo, admiração e força do homem com as forças da natureza, aqui melhor do que nunca representado pelo mar e pelo seus peixes maloqueiros. O velho, que já fora campeão de uma histórica contenda de queda-de-braço, se vê agora rezando e lutando com a decadência do próprio corpo para conseguir e defender o sustento que vem difícil e vai fácil. Isso, ao mesmo tempo em que se compara com Joe Dimaggio, o grande jogador de beisebol de sua época, numa desproporcional competição de força física e propósito de vida que, de alguma maneira, sempre foi um parâmetro para os homens. O Velho e o Mar pode ser uma alegoria para muita coisa: para o fato de que a natureza sempre vence, para a ignorância da própria impotência da raça humana, para a concretização das superstições marítimas, para a aurora dos ídolos do esporte ante a ruína do ocidente, para o medo cósmico do homem que precisa da natureza mas gostaria de não precisar. O Velho e o Mar é um desses livros cuja leitura que você faz diz muito mais sobre você do que sobre o próprio livro, em grande parte pela ausência de maiores significados explícitos no texto. Quer ser misterioso e discutido ao longo de décadas? Pode ser o easy way – criando polêmica atrás de polêmica – ou pode ser o Hemingway – jogando o dom da interpretação pra galera. E não está aí a maravilha de um clássico, numa daquelas definições de clássico do Italo Calvino em Por Que Ler os Clássicos? Um clássico, dizia ele, é um livro que nunca termina de ser lido. Ou comentado. Sei lá, não sou desses nerds que ficam vasculhando a biblioteca pra fazer uma frase. Sei que eu deveria ser, mas não sou. Não hoje.

A Bertrand Brasil, do grupo Record, é quem publica a obra do Hemingway no Brasil. Pra comemorar, sei lá, os 60 anos do prêmio Nobel do autor, dado em 1954, eles resolveram dar uma mais do que necessária repaginada na coleção dele. E valeu a pena, porque tá lindíssima. Essa capa, que costumava ser horrorosa, cheia de degradê de cores, letras gigantescas e mal diagramadas, passou a ter um look mais gráfico, a assinatura do autor, cabeço com a paginação, um tamanho maior de página e papel pólen, o que já é 60% das melhorias do projeto. E, claro, manteve as belíssimas ilustrações de Charles Tunnicliffe e Raymond Sheppard que já figuravam na primeiríssima edição do texto em livro, em 1952 – essa é a 80ª edição no Brasil. Curti e aprovei. Vamos esperar as próximas!

Comentário Final: 124 páginas com papel pólen soft. ‘Tá aqui o bicho!’

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Apostas do Nobel:

premio nobelComo vocês devem saber, o prêmio Nobel de literatura sai hoje. Alguns leitores apostaram no Facebook, como é tradição fazermos todo ano por aqui, então vamos deixar as apostas registradas pra depois não falarem que tem marmelada. O vencedor leva o Homem Lento, do Coetzee. E reforço, para quem perdeu de apostar, que curtam a página do Livrada! no Facebook. Sim, tem que ter Facebook pra curtir a página, se não tem perde essas barbadas que aparecem vez ou outra.

Thaisa Meraki: Haruki Murakami

Priscilla Scurupa: Joyce Carol Oates

Pedro Víctor Santos: Philip Roth

Vitor Nascimento: Amos Óz

Guilherme Sobota: Assia Djebar

Rafael Pousa: Alice Munro

Fidel Zandoná Forato: Willian Trevor

Texto originalmente publicado em Livrada

0109) O velho e o mar (27.7.2003)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2008-03-01 00:00

literatura, análise literária, natureza humana, processo criativo do escritor, masculinidade



(ilustração: Jan Hrebicek)

A coleção de livros do Globo e da Folha de São Paulo pôs nas bancas O velho e o mar de Hemingway. 

O livro poderia intitular-se “O menino, o velho, o mar e o peixe”, porque são quatro seus protagonistas. 

Li esse livro uma vez quando era garoto, com olhos de garoto para quem o velho não poderia ser outro senão meu pai, que me deu o livro de presente. Relê-lo agora, quarenta anos depois, é trocar de olhos; e fechar um ciclo.

Hemingway era mais truculento e machista na vida real do que nos livros. Talvez porque na vida real ele fosse um personagem de Hemingway, e nos livros fosse apenas ele mesmo. 

O velho e o mar é um livro de enorme aspereza e enorme doçura. Compõe um tríptico com Moby Dick de Melville, onde o “peixe” é o Mistério, e com o Tubarão de Spielberg, onde o peixe é o Mal. 

Em Hemingway, o marlim é quase humano, e ao mesmo tempo uma imagem de indescritível beleza e altivez. O Velho pede-lhe perdão por matá-lo, e diz: 

“Nunca vi nada mais bonito, mais sereno ou mais nobre do que você, meu irmão. Venha daí e mate-me. Para mim tanto faz quem mate quem, por aqui.”

Há um verso de Oscar Wilde que diz “todo homem mata a coisa que ama”. Pode até ser, mas este livro nos dá o caso, mais notável, do homem que ama a coisa que mata. 

Lembro a cena final do “Augusto Matraga” de Guimarães Rosa, depois que Matraga e Joãozinho Bem-Bem se esfaqueiam mortalmente um ao outro. Caído, agonizando, Matraga vê a multidão a gritar e debochar do jagunço que estertora ao lado, aí ergue-se e diz: 

“Pára com essa matinada, cambada de gente herege!... E depois enterrem bem direitinho o corpo, com muito respeito e em chão sagrado, que esse aí é meu parente seu Joãozinho Bem-Bem!”

É um aspecto curioso da mentalidade masculina essa admiração guerreira pelo inimigo cuja nobreza impõe respeito. 

A luta de morte não é sempre um esforço para exterminar algo maligno, algo que desperta apenas medo e asco. A luta às vezes se dá por causa de forças muito acima dos dois lutadores, que estão ali, naquele momento, apenas cumprindo um ritual cósmico. 

Eles são os dois pontos através dos quais dois mundos entram em choque; o fato de um deles precisar ser destruído nesse choque não exclui o respeito, a admiração recíproca, como num combate sem quartel entre dois samurais.

São tantas as interpretações sobre O velho e o mar que me arrisco a somar mais uma. 

O velho é um Escritor. O menino é um Leitor. O peixe é um Livro. O mar é o lugar onde os escritores vão buscar os livros, seja este lugar o que fôr. 

Depois de toda aquela luta, o que o Escritor consegue trazer ao mundo parece-lhe um monte de despojos, de destroços sem sentido. Os outros o elogiam, mas ele sabe que foi o único a ter a visão do Livro-como-era-para-ter-sido. Ele viu um clarão, tentou transmitir seu reflexo. O que trouxe é pouco; mas pelo menos ele teve o privilégio de ver o Livro como o Livro era antes de ser trazido à terra.



Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

O velho e o mar – Ernest Hemingway

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2011-09-20 00:37

Literatura, Crítica literária, Resenha, Ernest Hemingway, Superação, Vida e metáforas

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Li há umas duas semanas e não sei por que ainda não havia parado para escrever. Queria ter visto o curta de Alexander Petrov antes, mas minha filha de dez meses não tem me permitido muitas atividades em frente ao computador quando estou em casa.

Esta é a primeira obra de Hemingway que leio, e apressei-me em colocá-lo na minha interminável lista por dois motivos: ver o filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, no qual o escritor americano aparece demonstrando muita força, e ter comprado, recentemente, O Velho e O Mar em um sebo.

 É um pequeno romance – ou mesmo uma novela – que conta a história de um pescador velho que há quase três meses não pega um peixe. Ele normalmente conta com a ajuda de um menino, por quem nutre muita afeição, mas o garoto agora ajuda outro pescador, de sorte que o velho parte para uma pescaria só. Ele decide se afastar do lugar onde se costuma pescar por ali, e depois de um tempo acaba fisgando um espadarte muito grande (aquele peixe com uma “espada no nariz” e que comumente é chamado, erroneamente, de peixe-espada). É, sem dúvida, o maior peixe que o velho já fisgou, e a luta prossegue por dias e dias, até que…

 Bem, o livro é “previsível” no melhor sentido do termo, mas não posso adiantar nada. Cada um leia.

 Posso sim afirmar que é uma metáfora da vida. Ruim mesmo seria ter que toda noite pescar a lua e as estrelas, por isso os homens têm sorte, afirma, em determinado momento da luta, o velho.

 Cada centímetro à frente custa grandes sacrifícios, e há dissabores mesmo quando se julga ter atingido uma vitória decisiva. O velho, em sua experiência, sabe desde o início da sua luta que seu destino não é dos mais auspiciosos, mas, renitente, decide lutar e luta até o fim. Não importa tanto o dinheiro que auferirá com a carne do peixe, a questão central é não desistir, aceitar o fardo que a vida lhe impõe e carregá-lo com dignidade e bravura até onde suportar.

 As condições para a leitura do livro não foram as mais favoráveis – acredito que este é um romance para se ler de uma vez, saboreando completamente a luta do velho com o mar, que é a própria vida, que o alimenta e que quer derrotá-lo. Li de maneira fragmentada – duas páginas aqui, duas páginas ali, nos minutos que a minha filha dormia. Assim, não mergulhei adequadamente no universo desenhado pelo autor, mas isso não me impediu de reconhecer a obra-prima que tinha diante dos olhos. Só me impediu de sentir…

 Haverá, portanto, uma releitura muito em breve.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

Novidade – “Contos Completos de Ernest Hemingway

Fonte: Ministério dos Livros | Publicado em: 2025-12-16 12:45

Literatura, Ernest Hemingway, Contos, Resenha de livro

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Mais sobre o livro AQUI

Sinopse:

Nesta compilação dos contos de Ernest Hemingway encontram-se perto de oitenta histórias breves criadas por este que é um dos nomes cimeiros da literatura norte-americana, distinguido com o Prémio Nobel em 1954. Dos lagos e florestas do norte do Michigan da sua infância ao calor de Cuba que o acompanharia nas últimas duas décadas da sua vida, os cenários que são palco destas narrativas confundem-se com a história de um autor que viveu apaixonada e engajadamente: aqui se encontram retratos de uma Europa em guerra, de caçadas e pescarias numa América dividida, de safáris em África e touradas em Espanha, e em especial de relações humanas reveladas em toda a sua complexidade. Além de títulos famosos como «Os Assassinos», «Montes como Elefantes Brancos» ou «As Neves do Kilimanjaro», são incluídos neste volume mais de três dezenas de contos até agora inéditos em Portugal, alguns dos quais publicados apenas postumamente. Uma edição preciosa para os fãs de Hemingway.

Quando vamos aonde temos de ir, e fazemos o que temos de fazer, e vemos o que temos de ver, estamos a tirar a graça e a embotar a ferramenta com que escrevemos. Mas prefiro tê-la torta e embotada e saber que tenho de voltar a afiá-la na pedra de amolar, e saber que tenho qualquer coisa sobre que escrever, a tê-la a brilhar e reluzir e não ter nada para dizer, ou tê-la no armário polida e bem oleada, mas sem lhe dar uso.

Texto originalmente publicado em Ministério dos Livros