Albert Camus

4 textos neste tema

Albert Camus – O estrangeiro (L’étranger)

Por: Nego Dito

Fonte: Livrada | Publicado em: 2010-07-18 12:00

Literatura clássica, Crítica literária, Existencialismo, Resenha de livros, Cultura pop

Já vi que os leitores deste blog reagem de maneiras diferentes quando um clássico da literatura (tá na tag, sempre digo) é massacrado. Quando meti o malho n’O vermelho e o negro, ninguém fez furor. Talvez concordem, talvez não tenham dado tanta importância ao livro assim. Em compensação, quando falei mal do Som e a Fúria, do Faulkner, recebi o meu primeiro feedback negativo a respeito da proposta do blog. E isso foi só na semana passada. Pois bem, resolvi comentar hoje mais um do time dos canonizados que eu, particularmente, não gostei (e vou dizer o porquê, não se preocupem). E que tarefa difícil essa, principalmente com o Estrangeiro, do Camus, a obra mais pop do sujeito. Provavelmente não vai haver viva alma que concorde comigo. Mas nem por isso vamos ficar nessa espiral de silêncio, não é?

Pois bem, meus queridos: O Estrangeiro, a Xuxa da literatura canonizada: Todo mundo idolatra e, ao mesmo tempo, lá no fundo, a gente sabe que já passou da hora da aposentadoria. Olha, não me faltou gente pra me recomendar esse livro. E gente boa mesmo, que entende da coisa, que não lê qualquer merda. Resolvi testar meu francês e ler no original. Pensei: “Não é possível, tem alguma coisa errada com esse livro”, e aí resolvi relê-lo em português pra saber que diabos tinha de excepcional nessa obrinha que mal para em pé na estante. Ah, tenho ao todo cinco edições desse livro em casa, inclusive uma estranhíssima com um desenho de um cara que parece muito o Ringo Starr na capa (usei posteriormente essa edição como alvo, num sábado à tarde em que eu e meu camarada Pedro Pimentel saímos para dar uns tiros).

Refrescando a memória: O Estrangeiro é um romance de tese, o que, por si só, já é uma ideia tonta. Escrever um romance pra tentar provar alguma coisa já mostra que você tá numa vibe muito errada.  Mersault (esse nome deve ser o equivalente a Glêdson Rodrigues na Argélia) é um argeliano blasé que não se impressiona com nada. Um dia, o sol tá incomodando ele e aí ele resolve matar um árabe que tava na praia. Ele é condenado a morte, por ser considerado um cara frio e calculista (tipo um BBB), porque não chorou quando a mãe dele morreu. E aí ele morre. Fim da história. Narrei essa sinopse com essa emoção toda porque é justamente desse jeito que o livro é escrito. O Estrangeiro é a prova de que um excelente enredo pode ser arruinado pela falta de estilo (mesmo que proposital). E estilo, meus amigos, é uma coisa que Camus não viu nem quando visitou a fábrica da Fiat. Na ânsia de tentar passar um clima de poucas emoções na vida do cara (que narra em primeira pessoa), o autor quase mata a gente de sono. Se liga no primeiro parágrafo, que é bem famosinho, por sinal:

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.’ Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

Tudo bem que o objetivo do autor era mostrar um cara que não demonstra maiores sentimentos pela mãe ou pela vida, mas isso significava não ter sentimento pela escrita? Pouco provável, afinal, fosse assim e ele estaria escrevendo para quê, se não tem ninguém obrigando? “Eu fui na casa da minha amiga. Eu comi bolo. Eu bebi guaraná. Ela comeu também.” Na moral, minhas redações de segunda série eram mais ou menos assim. A tia da aula de redação insiste pra gente articular as frases, usar vírgulas, adversativas e o escambau, e esse cara me faz um livro que mais parece uma lista de supermercado que vende palavras (cinema nacional, pati patapá). Isso é revolta escolar reprimida?

E a tese? Meursault não foi condenado por matar o árabe, por colocar a culpa no sol ou por ter um nome feio de dar dó, mas sim por não ter chorado no enterro da mãe, provando através de tais circunstâncias que o luto é preciso, o blasé não tá com nada e, por conseguinte, todo francês metido a besta merece a morte. Com efeito, não fosse o sujeito preso e morto ao final, seria preciso que me escrevessem na história pra encher ele de sopapo de tanta raiva que dá o jeito como ele fala as coisas. Meursault fica lá paradão na dele analisando e julgando todo mundo e se achando o gostoso por não ser afetado por nada que o rodeia. Do tipo: “Aí a moça veio. Ela me beijou. Eu senti mais ou menos. Ela começou a chupar meu pinto. Eu meio que gostei. Ela tava com uma cara estranha.” Por aí vai. Pra não dizer que o livro é inteiramente ruim, ele começa a ficar bom nas últimas duas páginas quando, à beira da morte, Mersault resolve acordar pra vida e ficar revoltado. Nas últimas duas, veja bem. Ou seja: o livro só não é mais chato porque não é maior.

Meu palpite do porquê as pessoas gostarem tanto do Estrangeiro são: a) o livro tem um estilo tão simplório que qualquer animal consegue ler sem maiores dificuldades e acrescentar à estante um livro que não seja Harry Potter, Bukowski, ou a biografia da Bruna Surfistinha. b) O The Cure fez uma música — horrível como o livro, por sinal — sobre a história de Mersault, e neguinho não consegue assimilar cultura nenhuma a não ser que um popstar diga que é bom (Frida Kahlo está aí graças à Madonna, afinal de contas). c) Jean-Paul Sartre falou que o livro é bom e o mundo inteiro fez “béééééééé”, porque se você discorda do Sartre, coitado de você. d) Camus é um prêmio Nobel, e, como tal, tem aquela aura de vaca sagrada em seu entorno. E tudo bem, os outros livros dele podem ser muito diferentes deste, e ele pode escrever bem, afinal de contas. Mas nesse aí ele cagou no pau. Todo bom escritor tem a sua mancha: Saramago tem o Ensaio Sobre a Lucidez, Kafka tem O Castelo, Ítalo Calvino tem o Dia de um Escrutinador, etc. Não é nenhum crime.

A edição da Folio é tão tosca que é melhor comentar a edição da Record. Bom, a Record fez um projeto gráfico xoxo igual ao livro: fonte De Vinnes (sério, nunca usem essa fonte em um livro. É a mesma coisa que escrever a Bíblia em Comic Sans), papel offset e uma foto que ocupa um quarto da capa. E não adianta a Fnac fazer um Box com três livros dele que essa capa não vai ficar mais bonita enquanto você não tiver torado umas quatro serranas.

PS: Desculpem aí, meus amigos fãs de Camus. Vocês não são obrigados a concordar comigo. Pensando melhor agora, vocês são os mesmos que me disseram que Los Hermanos é legal, que disseram pra eu assistir Grey’s Anatomy e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Aí, qual é a de vocês?

Comentário final: 126 páginas de papel offset. Não serve pra nada, a não ser pra servir de alvo no estande de tiro improvisado no terreno baldio.

Texto originalmente publicado em Livrada

O Homem Revoltado

Fonte: I keep making these to-read lists and nothing gets crossed out | Publicado em: 2020-01-01 00:00

Filosofia, Revolução, Justiça, Liberdade, Literatura Francesa, Ética

O que é um Homem revoltado?, questiona, logo no início, Camus.


O Homem que decide que chegou o limite, que tem de haver mudança.

Esta é, no fundo, a minha terceira obra de Camus: li O Estrangeiro em inglês, português e em adaptação a novela gráfica. Algures no meio, li L'Été, que é, tal como O Homem Revoltado, um ensaio. A premissa do livro é extremamente relevante: odiamos injustiça, logo, intuitivamente, parece correcto revoltarmo-nos contra a autoridade indevida, injusta. Então por que motivo corre sempre tão mal quando nos revoltamos, e nos deparamos então com uma injustiça ainda maior?

(exemplos fáceis: Revolução Francesa, Revolução Russa)

Camus guia o leitor através de pensamentos de vários filósofos, bem como através de causas e efeitos de revoluções históricas, religiosas, políticas ou mesmo artísticas (o que me levou aos tempos de faculdade e a aplicação do marxismo para as correntes artísticas dominantes). Explica como as iniciativas revolucionárias partem de um sentido de justiça, e como a fé absoluta na causa revolucionária leva a consequências drásticas - ao oposto da sua intenção. Assim, constrói uma tese sobre a revolução e o desenvolvimento da humanidade.

O poder destrutivo da justiça sem liberdade para os indivíduos, ou a liberdade sem justiça que a limite?

No contexto de um mundo desastroso pós Segunda Guerra Mundial, os pontos de vista que Camus apresenta são históricos e filosóficos. A rebelião, a revolta, a procura pela natureza e as consequências de revoltas e revoluções, pelos limites até aos quais é possível justificar a violência sem perder a humanidade. Camus apela à responsabilização dos indivíduos pelas suas escolhas e responsabilidades, numa altura em que o colectivismo de Sartre estava em voga.

É um livro interessante, e uma leitura nada, mas nada fácil. Não é uma leitura para uma tarde relaxada. Não sei o suficiente sobre literatura ou filosofia francesa, ou sobre os vários nomes que Camus menciona, como Epícuro, Marquês de Sade, Hegel, Dostoevsky, Nietzche... a secção sobre Sade foi muito, muito interessante, até porque a repulsa que o autor me causa sempre me distanciou da sua obra (nem pelo subtexto o quero ler).

4/5

Texto originalmente publicado em I keep making these to-read lists and nothing gets crossed out

A Queda no palco

Por: cortinasabertas

Fonte: cortinas abertas | Publicado em: 2013-03-10 16:33

Teatro, Literatura, Existencialismo, Adaptação teatral, Cultura em Curitiba

Mariana M. Braga

A Queda

Albert Camus foi um grande escritor existencialista. Seu romance A Queda (La chute) reflete seus questionamentos filosóficos sobre o mundo e a existência humana em um monólogo do personagem Jean-Baptiste Clamence, advogado parisiense que acabou por se auto-intitular “juiz-penitente”. Isso se dá pela culpabilidade que ele carrega por não ter dado atenção a uma mulher que vira na ponte, instantes antes de ela morrer.

Mauro Zanatta adaptou o romance do argelino para os palcos e viveu, sob a direção de Flávio Stein, o “juiz-penitente” no monólogo que voltou para a cena nos dias 8 e 9 de março no Teatro Paiol. Acompanhado de uma tela de projeções, com a qual interage aproveitando os belos efeitos da tecnologia, o ator passa a peça toda em cima de um pequeno tablado retangular. Tudo acontece ali. E isso não cansa a atenção do espectador. É nesse espaço que o personagem do profissional bem sucedido profissionalmente e nas relações afetivas se depara com o abismo e inicia sua queda.

O curioso é que o microfone no centro desse espaço dá um toque de stand-up, ou seja, reforça o convite feito ao público de ser interlocutor, ainda que silencioso. Mas ao contrário do stand-up comedy, apesar de o público muitas vezes dar gargalhadas (talvez chistes), o que as falas do ator mais inspiram é a reflexão. As perguntas lançadas pelo personagem de Camus parecem provocar respostas silenciosas na cabeça de cada espectador, além de originar muitas outras perguntas como: Somos todos individualistas? Somos todos culpados e inocentes?

A ironia do personagem revela a miséria de sentimentos egoístas e egocêntricos do ser humano. A forte mensagem de Camus ao leitor na literatura ganha o olho no olho nessa bela adaptação para os palcos. O Paiol contribui para essa conversa íntima e a torna mais prazerosa do que se acontecesse em algum teatro grande de estrutura italiana.

O espetáculo fez parte da programação do circuito teatral em comemoração ao aniversário de Curitiba. Em 2006 o monólogo conferiu a Mauro Zanatta o Troféu Gralha Azul de melhor ator. Foi bonito de ver o Paiol cheio para assistir a uma peça que merece muito ser vista, ouvida, sentida, interpretada, refletida.

Ficha:

Ator Cômico Produções Artísticas
Texto: Albert Camus
Elenco e adaptação: Mauro Zanatta
Direção e composição cênica: Flávio Stein Assistência de direção: Annabel das Neves Fernandes

Texto originalmente publicado em cortinas abertas

Livro: O estrangeiro – Albert Camus.

Por: umapaixaochamadalivrosblog

Fonte: Umapaixaochamadalivrosblog | Publicado em: 2020-08-28 02:59

literatura clássica, filosofia, resenha literária, existencialismo, sociedade e justiça

Boa noite, leitores.
#Livro comprado este mês pela @amazonbrasil e indicado pela @mariaflor31 no YT. Sempre que é um autor com #nobeldeliteratura eu fico um pouco agitada pra ler. Temos o protagonista Sr. Meursault, jovem, morador de Argel, França, narrando sua história em primeira pessoa à partir da morte de sua mãe. A narrativa nos causa estranheza devido a forma simples e crua com que os fatos são apresentados. Uma história comum e ao mesmo tempo, irreal. Sua letargia e indiferença nos choca e duvidei se o personagem (bem diferente dos mocinhos) é um ser deprimido, egocêntrico, narcisista, sociopata ou apenas um homem comum sem fé alguma. Através do seu cotidiano, nada rotineiro, vemos sua relação mórbida com a vida. Sua mãe, deixada em um asilo, sua morte e enterro. Seu trabalho enfadonho no escritório, o relacionamento casual com Marie que inicia no dia seguinte, suas estranhas amizades com os vizinhos Salamano e seu cachorro e Raymond, um homem cruel (nos parecem todos um pouco), que após agredir a companheira, se vê ameaçado pelo irmão dela e Meursault, após uma briga, o mata. De maneira fria, temos reflexões profundas sobre o papel da sociedade, da justiça e do cárcere. Acompanhamos o julgamento e o fim. A crítica ao comportamento social, que diz como devemos sentir e sofrer. Que pune e julga. Em raros momentos, o protagonista demonstra sentimentos como carinho e empatia, já na prisão. Questiona o papel do réu, da culpa, da religião e da sentença, assim como as possibilidades pós condenação à morte. “Tudo é verdade e nada é verdade” (p.86). Não é possível se afeiçoar aos personagens e menos ainda simpatizar com o promotor. O texto revela muito sobre nós mesmos, sobre como enxerguei a história e termino a #leitura acreditando na redenção do Meursault e no que isso diz sobre mim. A dualidade entre o bem e o mal e em como tudo é interpretativo. O título faz referência a ser estrangeiro à própria vida ou à simples morte do outro?
O marca página é proposital. Bibliotecas públicas são essenciais.

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Beijos e até a próxima 📚🧡.

Texto originalmente publicado em Umapaixaochamadalivrosblog