A encruzilhada de Vladimir e Estragão é na verdade um trajeto móvel, que se transforma constantemente, que produz uma bifurcação em todos os momentos em que parecia se estabelecer caminho

Bruno Pernambuco

(imagem de capa: Jennifer Glass)

A possibilidade que Esperando Godot seja uma peça em que nada acontece está de alguma forma esgotada. Em lugar de uma quebra, como foi a montagem original organizada por Samuel Beckett, uma interrupção que surge no pós-segunda guerra de um ritmo desenvolvido pelo teatro moderno, o encontro de Vladimir e Estragão com a espera se torna uma forma para que diferentes autores reinterpretem, de maneira particular, o cânone contemporâneo.

O Teatro Oficina propõe um esmerado projeto em sua montagem de Esperando Godot– que envolve apresentações no Sesc Pompéia até o dia 17 de abril, e uma segunda temporada no espaço do grupo, no Bixiga, que se estende de cinco de maio até três de julho. A peça de Beckett é o ponto de partida para a criação de uma obra visual, multifacetada, que atravessa diferentes linguagens. O processo de pesquisa do grupo acompanha também a obra, sendo apresentados, no programa da peça, artigos e entrevistas com referências acadêmicas e dos movimentos sociais que estruturam a identidade daquilo que é apresentado.

Como é marca de montagens recentes do Oficina, esses diferentes elementos atravessam a encenação. A apresentação se dá na forma de uma linguagem mista, com telões montados acima do palco, intervenções filmadas que fazem parte do espetáculo, e uma operação de câmera ao vivo, que ora acompanha as expressões dos personagens, ora se dirige para a plateia. Ao mesmo tempo, a produção escrita vinculada à peça se relaciona a outras atividades do grupo, formando um esquema de inspirações mútuas. Esperando Godot é aqui pensado como um grande meio, mas de uma forma diferente daquela elaborada por Beckett- no lugar da imagem de purgatório está um espaço constantemente atravessado por múltiplas linhas de movimento.

A Terra e o Rio

O ponto de partida para a encenação é um movimento vital, essencial, de afirmação da força da vida, que de alguma forma se contrapõe à falta de sentido na espera por Godot. Assim são estabelecidos ecos claros, que se fazem percebidos de forma imediata. O palco, estreito, evoca um rio bandeado por duas margens. A árvore ao lado da qual esperam Vladimir e Estragão, que na versão original de Beckett é o elemento fundador do espaço, a única coisa que define uma existência exterior à dos palhaços, é realçada ao longo da apresentação.

 São construídas assim imagens que aludem imediatamente a esse movimento natural, da fruição da água e da vida, e que se  misturam com referências do espaço físico do Teatro do Oficina. Se podem enxergar paralelos diretos com o Rio Bixiga, pavimentado, e com a árvore plantada por Lina Bo Bardi no espaço do Oficina, que detém um local privilegiado no jardim do teatro. Assim se estabelece uma linha entre os dois projetos da arquiteta italiana, que recebem temporadas da peça.

Como apresentam muito bem as entrevistas presentes no programa do espetáculo, a presença dessa afirmação de vida é também uma alusão a cosmogonias- da cultura Iorubá e afro-brasileira, e de populações indígenas- em que não está assumida a ideia de uma espera e de uma inatividade como na tradição católica ocidental com que Beckett dialogava. O vínculo com a terra, apresentado na sequência inicial do espetáculo através de sua negação, de atos violentos, catástrofes ambientais e do ridículo de figuras de poder tentando copiar elementos das culturas indígenas, reforça uma conotação que é de uma força presente no aqui e agora, e que não se expressa na forma de nenhuma experiência que está prometida, ou para além da vida corporal.

Ao mesmo tempo que palco esguio, comprimido, se torna um espaço ideal para representar aquilo que existe de beckettiano nessa montagem de Esperando Godot. A aproximação do público parece ressaltar o absurdo da situação dos personagens, e ao mesmo tempo amplificar a desesperança e a falta de resposta que constituem alguns momentos dramáticos do espetáculo.

 Numa observação próxima dos personagens, também, se fazem especialmente notar as diferenças entre a forma de comédia física, mais instintiva  e ingênua de Estragão e a elucubração, o pensamento, de alguma forma circular, de Vladimir. A atuação de Marcelo Drummond, realçando essas características do personagem de Estragão, é tremendamente emocionante.

Godot foi para o Exu

A evocação de Exu é a afirmação mais definitiva dessa presença que se contrapõe ao Godot imaginado- mesmo que na forma de um avesso, de sua ausência- por Beckett. A divindade representada pelo fogo, e que tem o gesto máximo de sua encarnação na gargalhada, na presença vivida, se coloca como saída, mais uma vez como presença, caso seja enxergada a figura negativa de Godot como um dilema.

Exu representa um novo destino que se coloca na peça, com, presume-se, Godot aderindo à sua causa, assumindo essa outra dimensão.

Não é totalmente claro se alguma mudança surge em Vladimir e em Estragão a partir dessa alteração, e o desfecho da peça é ambíguo, semelhante ao da versão original. Nenhum encaminhamento novo é dado para os personagens, e essa se torna uma fidelidade emocionante ao texto original, que amplifica os sentidos da apresentação. 

A encruzilhada de Vladimir e Estragão é na verdade um trajeto móvel, que se transforma constantemente, que produz uma bifurcação em todos os momentos em que parecia se estabelecer caminho. Através desse movimento, o texto de Beckett se faz vivo, e, numa leitura que evoca outras formas de movimento, ele se faz brasileiro, contemporâneo, decolonial: se faz outro, enfim, ganhando vida mais uma vez.

Esperando Godot

Teatro Oficina Uzina Uzona

Texto: Samuel Beckett

Horário: quarta a sábado, 19h. domingo, 17h.

Não haverá sessão no dia 15/4

Local: Teatro do Sesc Pompéia (Rua Clélia, 93. Água Branca, São Paulo-SP)

Preço: R$ 40 (inteira)/ R$ 20 (meia entrada)

Classificação Indicativa: 18 anos