O leitor das palavras
Educação infantil, Desenvolvimento cognitivo, Literatura infantojuvenil, Psicologia do desenvolvimento, Alfabetização
05Set10 Elsa Filipe A criança lê desde que agarra num livro pela primeira vez. Ela lê muito antes de aprender a ler, sequer a conseguir soletrar. Mas lê. Com os olhos, com os ouvidos, com as mãos.Um cantinho da leitura ou uma área de livros é um dos pontos de referência de uma sala de Creche e, mais importante ainda, de Jardim de Infância. Lá mas não só ali, a criança ouve contar uma história, folheia um livro, observa atentamente cada imagem e, até dá os primeiros passos na escrita se para isso encontrar ali os materiais a isso necessários. Ela lê ao seu jeito as histórias dos livros que escolhe e aprende agora a tratá-los bem e a cuidar deles.Mas quando entra na aventura que é o primeiro ciclo, na sua escola "dos grandes", a criança adquire uma nova relação com o livro. Este, deixa de ser apenas uma fonte de prazer para passar a ser "um instrumento de aquisição e sistematização de saberes."(1) Este leitor que nasce, começa a ser mais seletivo, a mostrar as suas preferências e a escolher quais as histórias que qiuer escutar mais vezes, quais os livros que maniuseia com mais cuidado. Descobre heróis, identifica-se com as personagens, escolhe um lado numa disputa!"A principal característica deste leitor é a sua identificação com o herói, que faz dele protagonista das histórias que lê."(1)"Entre os 6 e os 8 anos de idade, o pensamento intuitivo subjuga o processo de leitura onde predomina a fantasia, que ajuda a criança a compreender e a adaptar-se ao mundo real." Esta é de facto, "a base dos contos de fadas e das fábulas mais elaboradas (...) que fazem a criança reflectir sobre os seus próprios problemas."(1)Na sua essência estes expõem o leitor a dilemas existenciais. "Lidando com problemas humanos universais, especialmente com os que preocupam o espírito das crianças, as histórias falam ao seu ego nascente, encorajando o seu desenvolvimento, enquanto ao mesmo tempo, aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes."(2)Claro que estas divisões em faixas etárias não são de todo estáticas, como em qualquer processo de desenvolvimento infantil, sendo apenas referências. Ao chegar aos 8, 10 anos, os interesses da criança "vão ser substituídos por uma maior preocupação com o mundo exterior, dando aso a um género de literatura mais realista: livros de consulta, banda desenhada, contos fantásticos, histórias humorísticas e os primeiros livros de aventuras."(1)Fontes:(1)-BARROSO, Rita, "Pequenos leitores", Pais e Filhos, Outubro de 2005;(2)-BETTELHEIM, Bruno, "Psicanálise dos contos de fadas", Bertrand Editora; « anteriorinícioseguinte »
Texto originalmente publicado em Elsa Filipe