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(Continuação)

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«A carta a Camilo esteve adormecida vinte e cinco anos. Eça sustou a sua publicação, mas o motivo alegado por que o fez é muito fútil para que o tenhamos como determinante. Falta de paciência de passá-la a limpo…?! Pode acaso comparar-se com a maçada de copiar a carta o esforço de compô-la? Para nós é fora de dúvida que não foi essa a causa que impediu que uma tal obra-prima de finura e de maldade só viesse a lume depois de mortos os seus protagonistas.

«A carta, tenha ou não passado do rascunho a lápis, acusa uma factura minuciosa, desvelada, própria do ourives da palavra que era Eça. Sente-se quanto o pensamento ali é reflectido e não menos com que demora a trabalhou o buril. De resto, compreende-se que, para um espírito cavidoso [1] como o dele, todas as precauções fossem poucas. Havia que jogar boas e certeiras armas. Sobretudo, que essas armas não fizessem recochete, como costumava acontecer com uma couraça da rijeza da de Camilo. E é de supor que Eça pesasse e repesasse as suas chufas e pilhérias como David aos seixos redondos, apanhados na ribeira com que abateu Golias.»

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«Seja como for, a carta em questão, que há-de perdurar como uma das belas páginas queirosianas, pelo menos sob o ponto de vista do humour, denota a mão lenta, rendilhosa, elegante, que assinava de Fradique. Que deu satisfação ao próprio autor, a ponto de se narcisar nela, confessa-o desvanecidamente ao amigo. Não se arrojou no entanto a publicá-la. É que ainda não estava fechada, e já um querubim terrível se postava de plantão, olhos nela, determinado a não a deixar seguir destino. Sim, esse querubim que guarda a vinha e previne os pincha-no-crivo [2] que podem ir buscar lã e sair tosquiados. Devia ser admoestado por esta sabedoria das nações que Eça encerrou o pleito por então, declarando para Luís de Magalhães: de modo que guardei um discreto silêncio.»

«Este termo discreto desdobra toda a meada. Camilo, com efeito, não limitava a sua força a ser um mestre da descompostura. «Eça sabia muito bem que recursos inesgotáveis sugeria a Camilo na polémica a imaginação irada. A facúndia nos golpes, mandados donde menos se esperava com uma destreza original e a mais desconcertante pontaria ficará uma das suas facetas mais assombrosas. A certa altura o adversário, graças a um cambapé imprevisto, estatelava-se. Camilo então desarticulava-o membro por membro, osso por osso até o deixar escarnado em seus plexos mais íntimos ou de bandouga [3] aberta a cheirar mal.»

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«A Eça de Queirós, que era delicado, porventura pusilânime, pérfido como premune, não sorriam semelhantes pugnas. Podiam sair-lhe caro como quem tinha telhados de vidro e o impertinente monóculo resultar um risível pedaço de vidraça. A própria carta oferecia mais de uma malha rota por onde não seria difícil insinuar-se a lâmina do duelista. Nada mais infeliz e de mau gosto que o apólogo do animal venerável, de longas orelhas felpudas, rabo tosco e anca surrada, com que se antepara da imputação de zoilo. Asno seja quem asno vozea -- reza o ditado, e a graciosidade em tais casos pede albarda. Eça, em qualquer lance da metempsicose estaria livre de ir parar a azémola, mas já não diremos o mesmo a pavão por pedante e precioso. As suas imagens: Percival, flor dos bons; louvado seja Apolo aurinitente [4]! vila da Ásia murada de adobe e tijolo; através do grande mar -- como se o Pacífico ou o Atlântico se interpusesse entre os dois digladiadores e não o Passo de Calais -- fazem rir pelo escovadinho e o tiré à quatre épingles de velha bas bleu. Depois, aquele jacto da sua iracúndia de merceeiro honrado ao repelir como acintosas as «exigências de venda» conclama o rond-cuir  bem amesendado à gamela do orçamento, pés quentes, barriga farta, tão em contra do escriba clássico português. Em tudo o mais, através da trama sagaz e maliciosa da carta, quando reconhece algum mérito a Camilo é com o fim de ter autoridade para o confinar em ilustre, satírico neto de Quevedo, e mormente coonestar [5] a indumentária burlesca que lhe enverga, babeiro e gaguejando, ao correr para o público, depois de se erguer do soalho, onde com tochas de fósforos queimados fingia a procissão dos moribundos, queixoso de que estavam "sempre a implicar com ele".»

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cavidoso [1]
“cavidoso”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/cavidoso 

bandouga [3]
“bandouga”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/bandouga 

aurinitente [4]
“aurinitente”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/aurinitente 

coonestar [5]
“coonestar”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/coonestar

 



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https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

cavidoso [1] 
Cavidosofundo (de cavidade); prudente. (p.17)
pincha-no-crivo [2]
Pincha no crivo salta-pocinhas. (p.40)
bandouga [3]
Bandouga barriga, bandulho. (p.12)
coonestar [5]
Coonestarencobrir um crime, sofismá-lo. negá-lo.. (p.20)

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(continua)