O cineasta Eric Rohmer/reprodução
Rohmer tem uma magia especial, mais até que Godard ou Truffaut, seus colegas mais famosos da nouvelle vague. Essa magia, centrada tanto no diálogo quanto na descoberta do espaço
Isabela Nunes
Tem dias em que eu acordo completamente azeda e amarga, enfastiada com tudo. Especialmente aos domingos. Especialmente domingos de chuva. Ver um filme de Eric Rohmer é um antídoto que quase sempre funciona nesses dias e me acorda pro fato de que o mundo não gira ao redor do meu umbigo e passar o dia todo emburrada não é solução pra nada. É que o Rohmer tem uma magia especial, mais até que Godard ou Truffaut, seus colegas mais famosos da nouvelle vague. Essa magia, centrada tanto no diálogo quanto na descoberta do espaço e que surge do contato entre corpos solitários sob um céu azul que lhes promete algo de novo, meio que acorda a vida dormente dentro da gente.
Seja domingo ou não, Rohmer e seu sol quente se tornaram meu remédio favorito nos dias cinzentos porque, contra todo meu azedume, eles me iluminam com a beleza dos relacionamentos humanos e das conexões sinceras com aquilo que nos cerca — e me lembram que, se eu ficar o dia todo no sofá de cara feia, o que é bem literalmente o oposto dessa beleza que me enfeitiça, minha amargura não vai ter fim nunca.
Ao mínimo sinal de apatia ou tristeza, então, basta escolher um de seus longas: talvez o dia peça por Pauline na Praia, cuja areia quente sempre me desperta reflexões distraídas sobre o amor; ou vai ver aquele domingo em especial precise mais de A Esposa do Aviador, que me faz imaginar caminhadas ensolaradas pelas ruas e parques das cidades grandes; ou pode ser que seja melhor Minha Noite com Ela, com seus sonhos em preto e branco e suas noites estreladas; ou mesmo O Amigo de Minha Amiga, cuja personagem principal, Blanche, me pega pela mão e me reconduz por todos os velhos caminhos que escondem meus relacionamentos gastos, falhos e esquecidos. O que quer que meu coração queira, perdido entre desejos e angústias que eu mesma não sei traduzir, há a certeza de que Rohmer e seu boticário cinematográfico terão a resposta — uma que dispensará qualquer tradução (ou que, no mínimo, a afogará por entre suspiros admirados ).
Isso parece conversa de gente emocionada e exagerada, eu sei. Mas não é. Ou, bem, talvez seja. Rohmer já ocupa um cantinho próprio dentro da minha cabeça, enraizado demais para que eu consiga ignorá-lo: ele me leva pra um estado-de-ser particular; existe em um universo separado de todos os outros que também rodopiam pelos meus recôncavos mentais. Ver um filme seu é imediatamente me refugiar na leveza, nas luzes solares, na carne, no azul: em toda a beleza que ele retrata tão bem que não me resta nada a fazer senão me encantar. Se me canso de mim mesma aos domingos, debaixo de um céu recheado de nuvens pesadas, há alívio em poder dividir minha existência com o sol de Blanche, Haydée, Delphine ou Margot. Rohmer é a toca onde me enfio quando o mundo me assusta e eu me sinto amarga demais pra dar jeito sozinha. Ele me dá aquilo de que preciso para que acorde na segunda com esperanças de um céu claro e quente, sem nenhum medo azedo das torrentes de domingo. Que lá fora caia uma tempestade, se aqui dentro eu puder me esconder sob suas lentes — assim vai o sentimento.
Tédio, luz e sol
Mas também é verdade que, pra uma mente entediada e enfastiada por natureza, talvez usar o antídoto vezes demais seja um caminho fácil pra cansar até do que parece especial e inesgotável. Em quarentena, por exemplo, o tédio deixa de ficar constrito nos fins-de-semana, o que me fez começar a ver quase que um Rohmer por dia — e, como vai o mito popular (que dessa vez provou-se real), quanto maior o banho de comprimidos, menos o remédio funciona, saturado e insípido. Me falta a sabedoria da personagem de Clarice em ‘Felicidade Clandestina’, que gasta seu entusiasmo e seu amor em doses pequenas, com ciúme de amante, pra que ele não acabe nunca. Quando me enfeitiço por algo, não consigo me conter: ao invés do ciúme, fui amaldiçoada com uma avidez de amante. Vai-se tudo rápido demais e com obsessão demais.
E então os caminhos abertos por Blanche começaram a se fechar; as noites estreladas de Maud, a escurecerem; os parques de Anne e François, a cobrirem-se de teias; e as praias de Pauline, a secarem em amor. Percorridos vezes demais, seus meandros já me ofereciam pouco mistério, pouca mágica e pouco fascínio — tudo pouco demais para adocicar meus dias azedos e aplacar o medo terrível de tempestades. Acabei por tomar uma decisão extrema. Para poupar Rohmer do desencanto completo, o certo seria desacelerar, passar um tempo procurando outras distrações para a amargura semanal e esperar o momento de sentir saudades. Uma medida desesperada, é claro — e responsável por muitos domingos horríveis, à míngua, sem fuga.
Mas daí que domingo passado foi outro desses dias de tédio sobrenatural. Depois de meses de separação forçada, senti saudades. Dei uma chance a O Joelho de Claire, que é provavelmente o longa mais lindo de Rohmer. A história desse filme, como costuma bem ser com o diretor, é muito simples: o enredo é composto por um homem mais velho, prestes a se casar, que conhece duas jovens mulheres, Laura e Claire, através de uma velha amiga. Jérôme — o homem — se fascina com as duas, mas especialmente com Claire, nutrindo uma fantasia cada vez mais irreprimível de acariciar seu joelho.
Como em todo filme do Rohmer, quase nada acontece. É que coisas acontecendo não são bem o objetivo, uma vez que o esqueleto narrativo é mais um cenário para os diálogos e, ironicamente, para o espaço, do que o centro ao redor do qual os personagens gravitam. Pouco importa o que eles façam: o importante mesmo é a grandeza ao seu redor, seja a da cidade, seja a da natureza, que os contorna e os impulsiona a conversar.
Nessa toada, O Joelho de Claire vai sendo desenhado pelas montanhas, pelo lago azul, pelo verde e pelo céu. Isso tudo fica mais bonito ainda quando contraposto às cores humanas: o barco de Jérôme, o corpo de Claire, a casa sob a montanha. A beleza atordoa, e uma das mulheres, Laura, chega mesmo a dizer que o que é belo demais sufoca e entedia. De certa forma, acho que tem razão, especialmente quando esse “belo” é da natureza: você não precisa passar muito tempo no campo pra perceber que, com a exceção de dias não-tão-frequentes-assim em que o céu pinta a si próprio com cores improváveis, é tudo quase sempre igual. Em dias de sol, o verde é sempre muito verde, o céu é sempre muito azul, as nuvens sempre fazem surgir lá em cima um padrão de sombra-branco-anil. É bonito, mas é uma beleza lenta, quase eterna, quase imutável. É uma beleza que enfastia se você passa tempo o suficiente olhando para ela, ainda que seja um fastio bem diferente desse que sinto aos domingos, presa em casa.
De todo modo, bem, eu concordo com Laura — e acho que isso vale não só quanto à beleza, mas pra maioria das coisas da vida: é preciso sair da ilha para ver a ilha; é preciso se distanciar daquilo que é belo, mas já familiar demais, para que possamos voltar algum dia e vê-lo com novos olhos, descobrir nele novas coisas.
Acho que é assim que me senti com Rohmer. Depois de tanto cansar minhas vistas com a beleza singular de seus filmes, eu só os enxergava através de uns bons graus de miopia. Eles tinham deixado de ser tão especiais, de acordar em mim aquilo que acordaram nas primeiras vezes, de curar meus dias pobres em vida com seu verde e sua quentura. Uma tragédia terrível, se esse fosse mesmo seu destino final em minha vida e em meus domingos.
Felizmente, não foi. Depois do (necessário) tempo distante, e agora com meu breve retorno, vejo que o antídoto ainda funciona. O Joelho de Claire me fez sentir a vontade de luz e sol que os filmes dele despertam com o mesmo fascínio que senti da primeira vez, há muito tempo (ou ao que parece muito tempo), com seu Conto de Verão. Uma vez mais, me encontro intrigada com o jeito curioso com que histórias diferentes têm um espaço próprio, cuja aura determina todos aqueles que se encontram em seu interior e sob sua influência — algo que é levado ao extremo na obra de Rohmer.
Os espaços de Rohmer
Se alguém me perguntasse, eu diria que essa é a verdadeira lição de seus filmes: que espaço e experiência estão entrelaçados de forma tão profunda que são praticamente inseparáveis. Em suas histórias, o cenário é mais do que mero pano de fundo para as ações de seus personagens: é aquilo que domina todo o resto, aquilo que os define. Dinard ou Paris, Annecy ou Granville, o amarelo das praias ou as noites estreladas da cidade — seja qual for, a escolha do espaço dita a forma e o ser. Enquanto seus homens e mulheres fictícios gravitam entre aqui e acolá, Rohmer quase nos diz que há um lugar onde a vida é mais viva, em que o diálogo é possível, em que o contato entre seres humanos é um convite para descobrir algo de secreto no mundo e em nós mesmos.
Invariavelmente, mesmo nos meus piores dias de azedume — agora e então —, eu me deixo seduzir pela ideia de que esse lugar tem sol, biquínis, corpos seminus, água, céu claro e muito verde. Exatamente como são as praias de Rohmer, seus parques, seus lagos: as imagens que conjuro quando preciso pensar em algo como felicidade. Nunca fico com tanta vontade de fugir do subúrbio infernal que é minha cidade natal, perdida entre sei-lá-onde e lugar nenhum no triângulo mineiro, como quando vejo algo do Rohmer. A vontade, no entanto, é de ir pra um lugar mais isolado ainda, mais bucólico ainda, onde eu possa me deitar ao sol e ouvir as vozes dos outros com clareza, como Blanche e Margot.
Acho que foi Neil Gaiman quem disse, em algum lugar, que cada cidade tem uma personalidade própria, um sentimento só seu. Eu concordo e vou além: cada espaço, seja qual for — desde uma cidade até um quarto, um prédio, uma praça —, cria esse ethos próprio. Por consequência, cada espaço desperta também uma vida própria, por assim dizer. Daí a importância imensa do momento decidir-onde-passar-as-férias nos filmes do Rohmer, que frequentemente serve de prólogo, como em Pauline na Praia ou em A Colecionadora. Em O Raio Verde, aliás, a impossibilidade de achar um local para o verão tanto revela quanto determina a fragilidade do estado emocional da protagonista, Delphine. Isso porque a lógica em vigor aqui é que escolher para onde ir é meio que escolher quem você quer ser.
Em O Joelho de Claire, nada acontece, mas não há nada de banal na escolha de Claire em deixar sua casa na montanha para passear com Jérôme em seu barco vermelho. Em Rohmer, cada escolha de ficar ou ir embora carrega consigo uma dimensão meio ontológica. Seus personagens são carregados pelo espaço, pela aura que ele conjuga, pelos diálogos que ele desperta. O farfalhar das árvores e o vai-e-vém da água é a música que os embala, os conforta, os desconcerta e os impulsiona.
Quase nada acontece
Se me volto a Rohmer nesses domingos cinzas, é porque acho que eu também queria me render àquilo que me contorna — e é bem possível que o azedume venha justamente da frustração de não conseguir. Apesar do que acabei de escrever ali em cima, não acho que esse desejo seja bem uma nostalgia bucólica. O que o cineasta francês desperta é mais um estado mental que um lugar-propriamente-dito — e nesse sentido, pode haver sol e azul tanto num rancho isolado quanto na Paulista, tanto em Dinard quanto em Paris.
Em Rohmer, uma fantasia bucólica poderia com a mesma facilidade ser uma fantasia urbana: o que importa é a disposição de viver um espaço. Senti-lo, ouvi-lo, enxergá-lo, deixá-lo exercer sua magia sobre nós. É através dessa habilidade secreta de render-se e deixar com que o chão em que pisamos não seja nada além do que ele é, em toda sua concretude, beleza ou estaticidade, — uma habilidade já há muito tempo perdida para uma geração como a minha —, que se dá uma abertura à experiência. Condicionada sempre pelo espaço e refletida nele, é ela que me fascina tanto nos filmes do Rohmer: a experiência de seduzir, de nadar, de caminhar, de rir, de dançar, de se encontrar, de se desencontrar. Acima de todas, a experiência do conversar, que torna todas as outras mais vivas.
Meu coração sempre sai mais leve depois de algum contato com Rohmer porque saio com a confirmação de que esse espaço de vida mais viva, se não existe no mundo ou se não consigo fazê-lo existir no mundo, existe ao menos aqui dentro (e em dias de amargura só isso já basta).