Ilustração de Ligia Zilbersztejn

Sempre me vem aquele orgulho besta de que esse país “lascado” conseguiu colocar alguém no lugar mais alto do pódio. Porque atleta brasileiro não tem patrocínio nem incentivo

Maria Paula Curto

Sempre gostei de assistir às Olimpíadas. Esse ano não foi diferente. Quer dizer, foi sim. E muito. Primeiro, porque quando as competições acontecem do outro lado do mundo, a gente sofre com os horários da madrugada. Viramos uma espécie de zumbi, tentando conciliar trabalho, vida doméstica e os inúmeros jogos ou competições (afinal, a louça ou a roupa não se “auto-lava” só porque eu quero ver as quartas de final do vôlei feminino ou a semifinal da natação, certo?).Depois, porque ver aquelas arquibancadas vazias deu um nó no estômago, uma espécie de vazio no coração, não deu? Se trabalho remoto já é algo estranho, imagine torcida remota. Não dá. Faz muita falta. Perde metade do brilho. 

Mas, principalmente, por saber que esses jogos olímpicos foram os jogos das histórias de superação. Não superação de recordes ou de novas tecnologias. Mas da vida. Muitos competidores não conseguiram treinar direito. Tiveram que improvisar e transformar o açude na melhor piscina olímpica possível. Outros tiveram uma história ainda mais complicada: não sabiam se conseguiriam chegar a Tóquio. Não pelas suas marcas. A pergunta era se estariam vivos. E essa talvez tenha sido a maior de todas as vitórias. De todos eles, ou melhor, de todos nós. 

Gosto tanto de Olimpíadas (e de copa do mundo também, confesso), que consigo torcer enlouquecidamente por esportes que nem ao menos eu entendo direito. No caso do surf ou do skate, ok, eu tenho até a desculpa de que são inéditos em olimpíadas, então, tudo bem eu ainda não saber o nome das manobras. Afinal, quanto tempo levamos para pronunciar “duplo twist carpado”? O problema é o tal do judô, modalidade que tantas medalhas nos trouxe, para a qual eu torço há décadas, e até hoje eu não tenho a menor ideia do que seja um Ippon, que dirá um Waza-ari (tive que pesquisar no Google para saber como escrever! Aff…).

Sou daquelas que chora quando toca o hino nacional e quando vejo a bandeira sendo hasteada. Parece coisa de gente boba, mas eu sou assim. Fazer o quê? Não consigo controlar. Juro que eu até tento, mas sempre me vem aquele orgulho besta de que esse país “lascado” conseguiu colocar alguém no lugar mais alto do pódio. Porque atleta brasileiro não tem patrocínio nem incentivo. Com exceção de poucos, como os jogadores de futebol masculino – que, aliás, para mim, não fazem mais do que obrigação em ganhar o ouro, já que seus salários mensais, por exemplo, devem cobrir a remuneração de toda delegação de atletismo por anos, talvez décadas – a maioria tem que treinar e fazer Uber ou ajudar a mãe na entrega de marmitas de porta em porta. Não é fácil ser atleta nesse país. Aliás, ultimamente, anda difícil ser atleta, artista e até mesmo cientista. Talvez haja espaço apenas para malabaristas e, infelizmente, palhaços…

E olha que o Brasil fez bonito: 21 medalhas. Recorde em uma Olimpíada. Superando inclusive a do Rio de Janeiro em que era esperado uma performance melhor, uma vez que estávamos em casa, com o calor da torcida. Parece que somente a Inglaterra conseguiu esse feito antes: ganhar mais medalhas nas olimpíadas seguintes às de Londres. Impressionante? Sim, mostra que somos capazes. Somos muito capazes. Afinal, se com pouco apoio o Brasil conseguiu ficar em décimo segundo lugar, imagine se a gente levasse a coisa a sério e tivesse incentivos reais desde a infância, com projetos esportivos desenvolvidos para as periferias. Não se trata apenas de “fazer bonito” em uma Olimpíada, trata-se de salvar vidas, vidas renegadas, desprezadas, esquecidas. Vidas invisíveis. Que poderiam ganhar visibilidade. E ter um futuro. Ao menos, uma possibilidade de futuro. 

Parabéns a todos os nossos medalhistas. Os de ouro, claro, que conseguiram o lugar mais alto do pódio. Parabéns aos medalhistas de prata, talvez os mais sofridos e chorosos no pódio – principalmente nos casos de esportes coletivos – pois acabaram de perder a partida. E quase se esquecem que também são vitoriosos, pois deixaram todos os outros para trás. E parabenizo os de bronze, que conseguiram o pódio. Vocês também venceram. Mas eu queria mesmo era dar parabéns a todos os atletas que lá estiveram. Não importa se terminaram em primeiro, quarto ou em último. Vocês também conseguiram. Porque lutaram. Não desistiram. Não será um décimo de segundo a mais na linha de chegada, uma cabeçada no chão ao sair das argolas, uma escorregada na trave de apenas 10 cm, um saque na rede ou aquele direto de esquerda no queixo num instante de descuido que vai definir a sua trajetória. Cair faz parte. Levantar-se é uma escolha.

Assistir aos jogos olímpicos me traz um pouco de esperança. Ver a equipe de skate feminino, com uma média de idade de uns 15 anos, abraçando a adversária japonesa que literalmente “se estabacou” na pista me faz acreditar na humanidade. Ver uma mulher trans na equipe neozelandesa de halterofilismo mostrou ao mundo que o peso do preconceito pode ser superado. Saber que um menino pobre, com quatro irmãos biológicos e mais quatro adotivos, órfão de pai aos dois anos e desenganado pelos médicos aos três, pode brilhar em dourado aos 27. E que as marcas de uma terrível queimadura ainda bebê não foi barreira suficiente para derrubar nosso Alison Piu nos 400 metros nem impediu o sorriso largo e a dancinha da felicidade nos mais de 17 mil quilômetros que nos separam de Tóquio. 

E as nossas meninas? Com Rayssa, aprendemos que dá para competir com leveza e ainda se divertir (aquela dancinha também foi tudo de bom, não é mesmo?). Com Rebeca, vimos que nada é impossível e que se Tóquio em 2020 era algo impensável (por conta da recuperação de contusões), em 2021 foi duplamente brilhante. Até mesmo dourado. E o mundo inteiro pôde descobrir o que é um verdadeiro baile de favela (a música continua tocando nos meus ouvidos. Só nos meus?). Ou ao ver Ana Marcela, nosso ouro na maratona aquática, ser beijada por sua namorada na sua chegada ao aeroporto no Brasil, tivemos a certeza de que toda forma de amor vale a pena. E vale ouro! Fora a delícia de ver a torcida de um pai apaixonado com os cachorros vestidos de verde e amarelo. Como diria o antigo comercial: isso não tem preço! 

Difícil vai ser esperar até Paris 2024 para ter mais uma aula de humanidade e esperança. Até lá, façamos como os atletas do Catar e da Itália: vamos esquecer a competição acirrada, deixar de lado o último salto e chegar juntos ao ponto mais alto do pódio. Vencer nem sempre é o mais importante.

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.