Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar

Maria Paula Curto *

Sempre adorei carnaval. Esperava por aqueles quatro dias de folia como um náufrago pelo resgate. Como eu detesto as festas de fim de ano – e já falei disso aqui. Sim, podem me julgar, mas eu detesto Natal e Ano Novo – e também não curto muito, aliás, não curto nada, fazer aniversário, o Carnaval era o meu momento de catarse. Meu oásis de alegria e paixão após um deserto de cobranças e angústias. No Carnaval, eu não precisava me perguntar sobre conquistas, sobre tudo o que eu havia feito de bom ao longo do ano ou sobre tudo aquilo que eu tinha simplesmente empurrado com a barriga, se eu havia crescido na carreira ou se tinha conseguido reduzir minha cintura, se meus planos tinham sido colocados em prática de forma bem-sucedida, ou se eu tinha somente guardado sonhos num cantinho do armário, esperando o dia ideal, ou seja, nunca. Não. O Carnaval era o momento da liberdade. De simplesmente existir. E curtir. Com ou sem confete. Com ou sem fantasia. “que da noite pro dia, você não vai crescer”, como diria Chico.  

Ó jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu?

2021 foi muito estranho. Passar o Carnaval em casa. Com medo. Medo das ruas, medo das aglomerações, medo do outro. Quem imaginaria que, um dia, a gente iria temer esse encontro? Ser obrigado a trocar a lantejoula pelo álcool em gel. A brincadeira pelo isolamento. A alegria da festa pela solidão da espera. A máscara permaneceu, mas sem nenhum brilho. Uma máscara que não esconde um mistério, nem aguça os sentidos no desejo de uma revelação. Uma máscara que não evoca possibilidades nem lembranças. Com várias camadas de material filtrante, sua função primordial é proteger. Do contato, do tato, da saliva, do beijo. Não era essa a máscara que eu queria. Essa, que esconde o sorriso, camufla vontades e abafa a voz, eu já usava muito antes da pandemia…

2021 foi muito estranho. Passar o Carnaval em casa. Com medo. Medo das ruas, medo das aglomerações, medo do outro. Quem imaginaria que, um dia, a gente iria temer esse encontro? Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro/2020

Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval!

Nesse ano, creio que tenha sido ainda mais esquisito. Adiar o Carnaval para abril. Como assim? Vamos celebrar o feriado de Tiradentes – que foi morto, esquartejado e exposto em pedaços em praça pública – com samba, marchinhas, frevo e axé? Sério mesmo? Escolas de samba, blocos e trios elétricos desfilando em abril. Só para mim parece estranho? Sei lá. Talvez eu esteja mais tocada por esse tema, porque em 2022 faz exatamente 40 anos que eu desfilei em Escola de Samba pela primeira vez. 40 anos!!! Uau! Muito tempo, não? Pois é. Você deve estar se perguntando se eu já estou aposentada, de bengala e com quinze netos. Ainda não, sou uma jovem (hahaha essa foi a melhor!) senhora de 55 anos. Que teve o privilégio de desfilar com apenas 15 anos de idade. Na União da Ilha, que era escola de samba mais simpática de todas! Mangueirense ou portelense poderia brigar entre si, mas todos gostavam da Ilha. Sambas sempre animados, com certa crítica social quase ingênua. Nesse ano, 1982, minha epifania começava assim…

Filha, você está parecendo é uma cortina de banheiro!!!” Essa era dona Lucinda. Que saudade dessa verdade rasgada…..Foto: Acervo da autora.

A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela

O desfile acontecia na Marquês de Sapucaí (Mas ainda não existia o sambódromo. Ele foi criado em 1984. E eu estava lá também, mas nesse ano, pela Caprichoso de Pilares). Eram arquibancadas móveis, instaladas e desinstaladas a cada Carnaval. E eu entrei naquela avenida fantasiada de mar, ao lado do carro abre-alas, com um longo collant até o tornozelo e um monte de fitas de plástico em diversos tons de azul, que caíam do ombro até os pés. Conforme balançávamos os braços, formávamos as ondas que embalavam a Ilha e toda a arquibancada. Foi lindo! Tudo bem que minha mãe, em sua cruel e cotidiana sinceridade, olhou para mim e disse categórica: “filha, você está parecendo é uma cortina de banheiro!!!” Essa era dona Lucinda. Que saudade dessa verdade rasgada…

Fez um desembarque fascinante no maior show da terra

Nesse ano, 1982, minha epifania começava assim...Foto: Acervo Globo/1982

Ainda como parte da fantasia, eu vestia um chapéu, também azul, pequeno e com algumas plumas no alto da cabeça. E nos pés, pasmem, uma sandália de salto – sim, de salto! – prateada. Claro que durante o desfile, o êxtase de viver aquela experiência era tão grande, era tanta emoção, que eu não senti meu corpo. Eu não tinha pés. Nem pernas. Eu, simplesmente, flutuava na avenida. Mas quando cheguei em casa e a onda de adrenalina passou, percebi que estava cheia de bolhas de sangue na planta dos pés! E vocês acham que isso me segurou? Absolutamente. Sentei, com tesoura, álcool (que não era em gel) e gaze, furei todas as bolhas, desinfetei e enrolei os pés para encarar o baile de Carnaval em São Januário (ah, nem precisa falar nada. Ser vascaína já é sofrer o suficiente…). E pulei a noite inteira. Feliz.

Será que eu serei o dono dessa festa? Um rei, no meio de uma gente tão modesta

Após esse primeiro desfile, eu não parei mais. Desfilei durante uns vinte anos seguidos, pelo menos. Às vezes, em mais de uma escola no mesmo ano (acho que meu recorde foram quatro!). Inclusive, várias no mesmo dia. Desfilava em uma, voltava, trocava de fantasia em algum quiosque e voltava para a avenida. Juro: não tem emoção igual. E olha que já passei o carnaval na Bahia, em Olinda, todos muito bons, mas nada, absolutamente nada, se compara a esse primeiro desfile. Lembrar da galera na arquibancada, cantando o samba junto com a gente e, quase ao final do desfile, gritando: “Já ganhou! Já ganhou!” não tem preço. Claro que a União da Ilha não levou o campeonato naquele ano (O Império Serrano do bum bum praticumbum prugurundum foi o grande campeão. E merecido), nem em nenhum outro ano. É escola “pobre”. E a gente percebe que até na festa da carne, o que manda é o vil metal.

O que manda é o vil metal. Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro/2018

Acredito ser o mais valente, nessa luta do rochedo com o mar. E com o mar. É hoje o dia, da alegria. E a tristeza nem pode pensar em chegar

Na avenida, qualquer um pode brilhar. Ser rei ou rainha. Ou até onda do mar. Há tristeza? Sim, na praça da apoteose (tem nome mais simbólico?), quando vem aquela sensação de que tudo aquilo já está terminando. Que foi muito rápido. Muito mais rápido do que a gente imaginava. Como a vida. Quer uma dica? Não deixe para depois. Fevereiro ou abril, domingo ou segunda, de balanço do mar ou de cortina de banheiro: se entregue, se jogue e aproveite cada momento. Quando você menos esperar, a sua apoteose estará lá, pronta para o aplauso final.

 Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.