(Foto de Capa: Cena do espetáculo Sopro, de Tiago Rodrigues, registrada por Cristophe Raynaud de Lage)
Nome em ascensão no teatro lusitano, o autor declara seu amor incondicional à ribalta e suas referências
Bruno Pernambuco
Chegará um tempo em que o único espaço em que um ser humano possa encontrar outro ser humano será no teatro. No teatro de Tiago Rodrigues, essa afirmação catastrófica- tornada comum num momento de crise sanitária, de ameaça potencial à vida e de censura da proximidade- sempre foi verdade, e sem deter esse sentido condenatório. Na obra do diretor português, o teatro de certa forma nada mais é que um dispositivo do encontro, que se adapta às suas diferentes locações, à sua capacidade de atravessar o tempo, e ao seu senso de humor, capaz de deixar coincidências históricas absolutamente fora do lugar.
By Heart e Outros Textos, lançamento da editora 34, é a primeira coleção de obras de Rodrigues publicada no Brasil. Como é bem apresentado no posfácio e nas notas da edição, o trabalho do encenador tem um sentido do teatro como assembleia, de diferentes vozes que constituem um sentido, e na sua concepção seus espetáculos mobilizam simultaneamente diferentes tempos e registros. O cânone, e a história do teatro, da encenação, se encontram com uma velocidade que é das notícias, que promove interrupções, reflexões, atravessamentos- encontros que surgem de trombadas inesperadas. O discurso da encenação se mistura com um discurso direto, das conversas, e um teor pessoal sempre se intercala com a história que é narrada. As diferentes formas do encontro se mostram nesse trabalho, refletindo os sentidos coletivos e da apresentação pessoal.
Os textos reunidos em By Heart e Outras Peças perpassam diferentes momentos da carreira de Tiago Rodrigues, diferentes durações e espaços pensados para a encenação. Em alguns casos, a cacofonia serve para embaralhar histórias clássicas, retomando sentidos que, quiçá, se perderam com o tempo. Em outros, a concisão da dramaturgia, a mistura muito precisa de citações e o cálculo ritmado das intervenções cômicas dão forma à história que vem do coração. Em comum, esses diferentes textos apresentam uma razão de ser criativa do trabalho do tempo e da memória, formando novos sentidos a partir daquilo que é um processo de leitura constante. A ideia de “adaptação” ganha uma nova forma, conforme é introduzido o jogo com os elementos dos textos, lhe são acrescentadas próteses, inseridas viradas e interrupções do presente.
Especialmente quando se trata de apreciar o trabalho de um artista reconhecido, cujas obras são muito discutidas e muito encenadas, avançar com o espelho retrovisor em mãos é proveitoso. Esse é o método do encenador, reinterpretando sentidos clássicos do teatro, adentrando e dando novos significados ao passado, e é também a chance que é dada ao leitor com o novo volume- de, a partir de obras anteriores, perceber como se manifestam uma reflexão e um modo de escrever que estão presentes em trabalhos contemporâneos, aclamados. Unindo as obras, pode se perceber as marcas de um processo de escrita que Rodrigues descreveu em outras ocasiões, falando sobre seu trabalho: um texto que está em seu tempo e lugar, mas que, especialmente, é construído a partir de seus intérpretes, dirigido com pessoalidade, provendo de quem irá lhe incorporar.
Aprendizados do Coração
Saber algo de coração é sabê-lo de um modo único, de uma forma essencialmente humana, que remete à criatividade- se a memória é quase inteiramente invenção, o ato de cor poderá ser a invenção positiva, que transforma a relação com o mundo. É um ato de coragem, como nas palavras de George Steiner. Essa é a ideia que impulsiona By Heart, apresentação que propositalmente confunde os sentidos da citação e do texto, que constrói uma fábula a partir da história da literatura e o faz de uma forma delicada, pontuada pelo timing cômico de seu apresentador e pelo jogo, também, com o lugar do público dentro do espetáculo.
No texto-título do volume, talvez o mais famoso de sua carreira, Tiago Rodrigues realiza um exercício de elaboração da memória. Uma declaração não só de amor, mas de toda a gama de sentimentos que se constela na ação que envolve o coração e a expressão da alma. É um texto- na sua maneira, auto-referencial, conversando com o cânone moderno- que alterna momentos satíricos e melosos, tenciona-se entre a liberdade de seu intérprete e a rigidez imposta aos voluntários da plateia, colocados no centro do palco.
O jogo de opostos é o que faz com que By Heart se anime e ganhe vida, é a moção que transforma aquilo que é dito em memória coletiva, e que pode dar à encenação do soneto número 30 de Shakespeare o sentido de construção dessa rememoração que se incorpora e forma algo novo. É justo questionar se a transcrição faz jus à experiência de um espetáculo que é especialmente pensado a partir de e para o palco, e que depende do público para que a cada apresentação se torne algo diferente, uma memória com novos tons, um novo ritmo, novas intervenções, questionamentos. De qualquer forma, a leitura da peça revela ao leitor um momento privilegiado da escrita de Rodrigues, um encaixe muito realizado do trabalho sentimental e das referências históricas, no momento em que o autor parte de si mesmo como material.
O Vento da Vida
Em Sopro, peça escrita para Cristina Vidal- e por ela encenada, na medida que seu trabalho de ponto é evidenciado no palco, e abarca todo o texto da apresentação, em sua mistura de tempos e camadas de interpretação- diferentes signos da história do teatro se combinam. O cenário é o de uma catástrofe que já se faz muito presente, no tempo atual, ao menos como horizonte de imaginação- o fim do teatro, que move diretores, atores e tantos outros que se dispõe a reinterpretações da forma. Mas, como salienta a personagem de Cristina, o fim que está posto é um fim otimista, aquele em que são indispensáveis as trepadeiras, raízes e caules nascendo em meio ao abandono.
A interjeição da sopro- tanto Cristina, ela mesma, quanto sua intérprete- é muito bem vinda, atravessando calamidade da imaginação que traz a personagem do suposto diretor. Como admite o texto, a máquina por trás da encenação teatral está, intencionalmente, revelada na apresentação, e o ritmo do trabalho de sopro evoca a posição que está ao mesmo tempo dentro e fora da interpretação, que está presente na verossimilhança da cena mas que deve lhe escapar, e sempre antever um momento futuro, na fala seguinte. Evidenciar essa distância faz de Sopro um espetáculo único, e o ato de assumir como seu esse outro tempo quase perdido traz à peça, de certa forma, o caráter de uma flor que cresce e se desenvolve em meio ao fim presente.
A citação shakespeariana presente no título evoca os múltiplos sentidos da palavra que nomeia a peça e a profissão ameaçada que a move. A vida como sopro, tanto na sua rapidez, na sua intermitência, quanto na sua imagem de ânimo divino, numa força de Hermes, cheia de movimento. Com seus momentos irônicos, suas interrupções do presente pelo passado, da história pessoal pela cena clássica, e do teatro vazio pela insistência dos intérpretes em surgir, Sopro une todos esses sentidos em uma carta de amor ao teatro, através de quem lhe ama da forma mais presente e mais próxima.
Numa edição bem cuidada, e enriquecida pelo detalhado posfácio de Leonardo Gandolfi, By Heart e Outros Textos é uma ótima apresentação ao trabalho de um dos principais diretores da cena europeia contemporânea, e a um artista que, não só pelo efeito que a língua materna tem naquilo que se aprende de cor, dialoga de forma especial com o Brasil. Transpor os questionamentos, métodos e jogos desse encenador, através do encontro com seus espetáculos, para o momento presente é uma oportunidade única. Como bem aponta Christiane Jatahy, na orelha dessa edição, retomando na expressão a origem da língua materna: esse é um livro a não perder.
Tiago Rodrigues
Ed 34
R$ 58,00