Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas X
[…] Que que pequeno , era bom: homem às graças. Caminhou mesmo. – “Oxente!” Para diante de Joca Ramiro, no meio do eirado, tinham trazido um mocho, deixado botado lá; era um tamborete de tripés, o assento de couro. Zé Bebelo ligeiro nele se sentou. – “Oxente!” se dizia. A jagunçama veio se avançando, feito um rodear de gado – fecharam tudo, só deixando aquele centro, com Zé Bebelo sentado simples e Joca Ramiro em pé, Ricardão em pé, Sô Candelário em pé, o Hermógenes, João Gonhá, Titão Passos, todos! Aquilo sim, que sendo um atrevimento; caso não, o que, maluqueira só. Só ele sentado, no mocho, no meio de tudo. Ao que cruzou as pernas. E :
– “Se abanquem…Se abanquem, senhores! Não se vexem…”
[…] – O Hermógenes tinha levantado , para falar:
– “ Acusação , que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante,,, Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se a vida sobrava, para não sobrar!”
[…] – “Ei! Com seu respeito discordo, Chefe, máxime” – Zé Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo com embargos! Porque acusação de ser em sensatas palavras – não –e com afrontas de ofensas e insulto…” Não alarga voz”.
[…] Imediato Joca Ramiro deu a voz a Sô Candelário, não deixando frouxura de tempo para mais motim: – “Hê, e você, compadre? Qual é a acusação que se tem?”
[…] – “Só quero pergunta: se ele convém em nós resolvermos isto à faca! Pergunto para briga de duelo…É o que acho! Carece mais de discussão não… Zé Bebelo e eu – nós dois na faca!…”
[…] Mas aí Joca Ramiro remediou, dizendo, resistencioso, e escondeu o de se ria:
– Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore que logo vai ver. Agora é acusação das culpas. Que crimes o senhor indica nesse homem?
– “Crime?…Crime não vejo. È o que acho, por mim é o que declaro: com a opinião dos outros não me assopro. Que crime? Veio guerrear, como nós também. Perdeu, pronto! A gente não é jagunços? A pois: jagunço com jagunço – aos peitos, papos. Isso é crime? Perdeu, está feito um umbuzeiro que boi comeu por metade…Mas brigou valente, mereceu…Crime que sei é fazer traição, ser ladrão de cavalos ou de gado… não cumprir palavra…”
– “Sempre eu cumpro a palavra dada! – Gritou de lá Zé Bebelo.
[…] “Apraz ao senhor, compadre Ricardão?” – Joca Ramiro solicitou, passando a vez.
[…] “Compadre Joca Ramiro, o senhor é chefe. O que a gente viu o senhor vê, o que a gente sabe o senhor sabe. Nem carecia de cada um desse opinião, mas o senhor quer ceder alar de prezar a palavra de todos, e a gente recebe essa boa prova…
Ao que agradecemos, como devido. Agora, eu sirvo a razão de meu compadre Hermógenes: que este homem Zé Bebelo veio caçar a gente, no Norte sertão, como mandadeiro de políticos e do Governo, se diz até que a soldo… A que perdeu, perdeu, mas deu muita lida, prejuízos. Sérios perigos, em que estivemos; o senhor sabe bem, compadre Chefe. Dou a conta dos companheiros nossos que ele matou,que eles mataram. Isso se pode repor? E os que ficaram inutilizados, feridos, tantos e tantos…Sangue e sofrimentos desses clamam.Agora que vencemos chegou a hora dessa vingança de desforra. A ver, fosse ele quem vencesse, e nós não, onde é que uma hora dessas a gente estava?
[…] “A condena que vale, legal, é um tiro de arma. Aqui, chefe – eu voto!…”
[…] Nisso Joca Ramiro já tinha transferido a fala à Titão Passos – esse era como um filho de Joca Ramiro, estava com ele nos segredos simples da amizade. Abri os ouvidos. Idéia que me veio que ia valer vivo o que ele falasse. Aí foi:
[…] “ O que acho é o seguinte: que esse homem não tem crime constável. Pode ter crime para o Governo, para delegado e juiz de direito, para tenente de soldados. Mas a gente é sertanejos, ou não é sertanejos? Ele quis vir guerrear, veio – achou guerreiros! Nós não somos gente de guerra? Agora ele escopou e perdeu, está aqui, debaixo de julgamento.A bem, se na hora, a quente a gente tivesse falado fogo nele,e matado, aí estava certo, estava feito. Mas o refrêgo de tudo já se passou. Então, isto aqui é matadouro ou talho?…Ah, eu não, matar não. Suas licenças…”
[…] Joca Ramiro agora queria o voto de João Gonhá – o derradeiro falante, querente dificultava.
[…] “ – Antão pois antão…” ele referiu forte: – “meu voto é com o compadre Sô Candelário, e com meu amigo Titão Passos, cada com cada…Tem crime não. Matar não. Eh, dia!…”
[…] Haja veja, que Joca Ramiro repetiu o perguntar:
– “Que por aí, no meio de meus cabras valentes, se terá algum que queira falar por acusação ou para defesa de Zé Bebelo, dar alguma palavra em favor dele? Que pode abrir a boca sem vexame algum…
[…] Dei um passo adiante, levantei a mão e estalei o dedo, feito menino em escola. Comecei a falar.
[…] – “Dê licença, grande chefe nosso, Joca Ramiro, que licença disso eu peço! O que tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…”
[…] – “ Eu conheço este homem bem, Zé Bebelo. Estive do lado dele, nunca menti que não estive, todos aqui sabem. Saí de lá fugido. Saí porque quis, e vim guerrear aqui, com as ordens destes famosos chefes, vós…Da banda de cá, foi que briguei, e dei mão leal, com meu cano e meu gatilho…Mas agora eu afirmo: Zé Bebelo é homem valente e de bem, e inteiro que honra o raio da palavra que dá. Aí. E é chefe de jagunço, de primeira, sem ter ruindades em cabimento, nem matar os inimigos que prende, nem consentir de com eles se judiar…Isto afirmo! Vi.
[…] Pois então, xente, hão de se dizer que aqui na Sempre-Verde vieram se reunir os chefes de todos os bandos, com seus cabras valentes, montoeira completa, e com o sobregoverno de Joca Ramiro – só para, no fim, fim, se acabar com um homenzinho sozinho – se condenar a matar Zé Bebelo, o quanto fosse um boi de corte? Um fato assim é honra? Ou é vergonha?…”
[…] Joca Ramiro encurtou tudo num gesto. Era a hora.
– “ O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo o este Norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles, nem cacundeiro. A sentança vale. A decisão. O senhor reconhece?”
– “ Reconheço” – Zé Bebelo aprovou, com firmeza de voz, já descabelado demais. […]
[…] – “Então e, honrado vou. Mas agora, com sua licença, a pergunta faço: pelo quanto tempo eu tenho de estipular, sem voltar nesse Estado, nem na Bahia? Por dois, três anos?”
[…] – “Até enquanto eu vivo for, ou não der contra-ordem…” – Joca Ramiro aí disse, em final.
[…] Não me esqueci daquelas palavras dele: que era “ o mundo a revelia…”
João Guimarães Rosa