Muriel Lerner
“E como se uma geleira tivesse deslizado para dentro do quarto, lá estava meu Heroísmo” (CARSON, 2021, s.p., tradução nossa)
Anne Carson imaginou H of H Playbook, como livro, de uma maneira singular: como se fosse um fac-símile. O livro também não é exatamente uma tradução, mas reescrita que reafirma a voz autoral de Carson. Para quem tem a oportunidade de manusear a obra, é fácil se confundir em meio a marcações de cores variadas que vazam para o verso da página e a fragmentos de textos e páginas cortadas pela metade. Ao abri-lo, um círculo vermelho marca em um mapa a localização da cidade grega de Tebas. O título vem logo após. Então, uma paisagem com longos prédios rascunhados contra um céu vazio. “Uma tragédia de Eurípedes. Apresentada pela primeira vez em 416 a.C. Traduzida por Anne Carson”.
Já escrevi acerca de H of H Playbook sob várias lentes, vários ângulos. Dessa vez, me interessa pensar o livro como palco, um local físico e material, onde a narrativa acontece. Assim, o livro, como objeto material, não é apenas suporte da história, mas espaço de performance, onde os elementos textuais, gráficos e espaciais colaboram para a construção de uma cena. O livro, nesse sentido, torna-se uma espécie de aparato cênico, um território de ação onde o gesto da escrita e da leitura se inscreve como acontecimento.
Além disso, quero pensar como, em Playbook, o texto escrito se propaga por meio da montagem. A leitura, assim, deixa de ser um ato linear silencioso e se torna uma experiência quase dramatúrgica na qual o leitor, a cada página, assume uma postura ativa, sendo levado a participar dos silêncios, da organização de um aparente caos e dos horrores narrados.
Em “Blood in the Gutter”, Genevieve Liveley analisa o livro e diz que H of H Playbook “providencia um plano de fundo alternativo textual para imprimir e performar a redenção e reabilitação do herói – fonte pequena, buracos de tiro, e tudo mais”. É possível pensar que todos os livros são palcos, pois as narrativas ganham vida e movimento a medida que as lemos. A diferença aqui está exatamente na utilização multimídia da colagem e do uso da ilustração junto ao texto escrito para adensar o ato de contar uma história, criar uma experiência na qual o leitor acompanha também o trabalho de composição da obra, busca reconstruir o modo de relação entre as imagens e a narrativa.

Mapas da Grécia Antiga utilizados no início e fim de H of H Playbook. Na primeira foto, a cidade de Tebas aparece em destaque. Na segunda foto, reproduzida ao final do livro, Atenas é destacada.
H of H entra em cena, e sua esposa Megara diz: “é como se uma geleira tivesse entrado no quarto. Uma geleira é silêncio, até que se quebre”. Ao longo da leitura, o leitor-espectador entende que H of H realmente é como uma geleira: silencioso, impassível, misterioso. Um veterano de guerra, traumatizado pelos horrores vivenciados, encara um destino trágico. A geleira se rompeu e o caos impera – entretanto, esse caos é apenas sugerido, pois não há descrição do que H of H fez. O leitor se depara, então, com o silêncio e com as pinceladas frenéticas de tinta vermelha e cinza, que se espalham pelas páginas.
H of H tenta entender o que fez. Suas últimas conversas durante a narrativa – com seu pai, Anfitrião, e seu amigo Teseu – são quase todas breves, representadas por pequenos fragmentos isolados na imensidão da página branca. O diálogo é intercalado com páginas em branco ou com ilustrações abstratas, até que Teseu convence o filho a fugir de Tebas e ir com ele para Atenas. Como afirma Liveley, H of H segue Teseu para “fora do palco, fora da página, e fora do livro”. E o leitor também está nesse mesmo caminho, até que os personagens saem de cena e o leitor fecha o livro, saindo dele, mas levando consigo os personagens e seus impasses.