Nessa semana, no “Obras Inquietas”, eu falei sobre um quadro da pintora surrealista Dorothea Tanning, “Retrato de Família”. Dorothea é mais conhecida pelos seus trabalhos literários, que são muito elogiados, mas não se pode esquecer a sua importância para a pintura, arte na qual se destacou desde a adolescência.
Na época em que fez esse quadro, ela estava casada com o pintor Max Ernst – cujas obras são mais conhecidas do que as dela – e não consta que se sentisse pressionada como a mulher que retratou. Inclusive é famosa uma entrevista em que Dorothea Tanning afirmou que ela e Max Ernst jamais conversavam sobre arte em casa. No entanto, um poema do mesmo período deixa entrever a mágoa por constatar que o casamento obscureceu a sua arte (bom, Max Ernst deixou a sua mulher para casar com Dorothea, e ela sempre foi vista como a mulher sedutora-destruidora-de-lares, o que acabou se refletindo na apreciação da sua pintura):
Many years ago today
I took a husband tenderly
This simple human gentle act
Seen as a hard decisive fact
By all who dote on category
Did stain my work indelibly
I don’t know why that is
For it has not stained his
Em uma tradução muito livre:
Há muitos anos hoje
Eu recebi um marido com ternura
Este simples ato gentil humano
Visto como um fato difícil e decisivo
Por todos os que trabalham na categoria
Manchou o meu trabalho indelevelmente
Não sei por que isso aconteceu
Pois não manchou o dele.
Boa leitura.
“Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning

Mesmo ausente, a sombra incômoda do homem se espalha pela sala de jantar, espalhando ordens com a sua onipresença raivosa. Ela diz para a empregada: se vista de forma apropriada, isso aqui não é um puteiro; alimente o cachorro, ele é o ser mais importante da casa; não erga a voz, seja discreta e mantenha a limpeza em dia, mesmo nos desvãos mais improváveis. A sombra fala para os móveis: mantenham a posição em que eu os coloquei, vocês me pertencem e eu controlo a sua vida e a sua morte; não tenham personalidade; não tentem se destacar. Em seguida, a sombra concentra toda a sua atenção na mulher, deliciando-se com a tensão com que a pequena figura se segura na cadeira, os olhos impregnados de um medo palpável que se projeta para o mundo em busca da salvação que não virá: não coma, não desejo que você engorde; não sorria, você não tem o direito de ser alegre sem a minha presença por perto; não fale, você não pode ter voz própria longe de mim para cercear as suas palavras burras e descuidadas; não coloque chinelos ou uma roupa velha, mulher minha tem que estar sempre ajeitada, sempre perfeita; não tenha uma vida ou carreira, pois nada pode obscurecer a minha existência, ainda mais uma criatura ínfima como você. A sombra do homem ausente sufoca a vida da casa, um lembrete constante sobre quem realmente manda na família. Dentro dos olhos cristalinos da mulher, um esgar de terror – sombra fugidia repleta de líquido – tenta escapar, mas ela não foi autorizada a chorar, e tem medo do deboche da sombra, tem medo de que aquilo que chama de amor seja uma prisão dourada, então mantém o corpo teso sobre a cadeira, esperando que a sombra em breve se junte ao corpo do homem de quem está desgarrada – o homem que acabou com a sua luz.
Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/18/obras-inquietas-57-retrato-de-familia-1954-dorothea-tanning/
Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo