Noite dessas de insônia, ouvindo músicas num aplicativo de streaming, localizei o áudio de um vídeo postado pela cantora Norah Jones em 19 de março de 2020.

De moletom verde, Norah canta ao piano Patience. Ao ver esse vídeo pela primeira vez, eu já estava trancada em casa há dois dias, era o início da quarentena, às voltas com tutoriais de aulas remotas.

Escutar essa gravação — o que faço enquanto escrevo essa crônica, sob o calor dos últimos acontecimentos — dispara em mim uma série de memórias da pandemia.

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Intrigada com o fato de que muitos parecem ter tornado irrelevantes as lembranças do período, decidi reler a transcrição de uma conferência proferida em 2003 pelo filósofo francês Paul Ricoeur.

Em sua fala, entre outras questões, ele aborda “o dever de não esquecer”. Revisitar esse texto me fez pensar nos cerca de 700 mil brasileiros mortos.

Para termos a dimensão metafórica da tragédia, é como se a população dos municípios de Feira de Santana (cerca de 620 mil pessoas) e de Irecê (em torno de 70 mil) desaparecessem tragicamente.

Só de imaginar essas duas cidades inteiramente vazias me deu um nó na garganta. Sinto que algo de nossa inteireza parece ter sumido também ao longo da pandemia de 2020.

Para Paul Ricoeur, o dever de fazer memória se justifica por nosso débito com as vítimas, que reivindicam justiça. Em nome delas não devemos esquecer.

Mas, por que parecemos ter esquecido? Nesse caso, Freud explica, e é a ele que este autor recorre, examinando conceitos relacionados à psicanálise, em Luto e Melancolia e outros escritos.

Repetir não equivale a rememorar, pontua em certo trecho, observando que é pela narrativa que promovemos o resgate da memória, entre as estratégias de lembrança e de esquecimento.

As possibilidades de variações narrativas abrem brechas a manipulações que, ainda como escreve Paul Ricoeur, “enxertam-se diretamente no trabalho de configuração: evitamento, evasão, fuga”.

Feridos coletivamente, nós processamos a dor individualmente, não sem considerar todas as pressões psicológicas e sociais que são exercidas sobre nós.

E, nesse ponto, o filósofo francês cita o histórico decreto ateniense de 403 a.C. que, no contexto da anistia, proibia seus cidadãos de recordarem os crimes políticos após o fim da Guerra do Peloponeso.

Obrigados a prestarem um juramento, eles prometiam ao Estado: “não recordarei as infelicidades”. O termo infelicidade é usado por Paul Ricoeur, constando também como “males” em outros textos.

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A releitura da conferência de Paul Ricoeur, que se mistura à imagem de Norah Jones cantando Patience em minha memória daqueles primeiros dias de medo e incerteza, termina com Isack Dinesen.

Uma frase desta escritora dinamarquesa foi usada pela filósofa estadunidense Hannah Arendt em um dos capítulos de seu livro, A Condição Humana:

“Todas as tristezas podem ser suportadas se você as colocar em uma história ou contar uma história sobre elas”.