Sexo e amizade, de André Sant’Anna, publicado pela Companhia das Letras em 2007, suscita no leitor, talvez como primeira entre todas, a seguinte pergunta: como um livro de qualidade tão rara pode ter um título tão ruim?

Verdade seja dita, títulos não é o forte na obra de André Sant’Anna: antes desse, vêm Amor (1998), Sexo (1999), Amor e outras histórias (2011).

Bem, quando apanhei na estante Sexo e amizade, já tinha ideia de quem era o autor, um tanto famoso nos circuitos literários, e sempre tive boas impressões no poucos contatos que tive com sua prosa. Depois de escandalizar-me com o título, resolvi correr os olhos pelo sumário, para conferir os títulos dos textos. Não me pareceram ruins. Abri o livro a esmo – é uma mania de muitos leitores –, e cheguei a estas palavras:

Aquarius

Havia uma mulher gorda, vermelha, descascada, cheia de bolhas nas costas, cobrindo as pernas gordas com uma toalha toda suja de areia. Havia o marido da mulher gorda, que parecia olhar o mar, mas estava mesmo era olhando para o vazio, com uma barriguinha, a barba por fazer, olheiras bem fundas e um órgão sexual enrugado e minúsculo.

“Seco, enxuto, sarcástico, com belo encadeamento sonoro”, pensei, já saltando – aleatoriamente de novo – para outra página:

Rush

Mulher no trânsito é um pobrema. Bom era no temopo da ditadura. Eles não davam carteira pra qualquer um, não. tinha que mostrar que sabia dirigir mesmo. Se o cara não arrumava o banco direito quando ia sentar no carro, pelo jeito do cara, o instrutor já percebia se o cara era bom de dirigir mesmo.

“Texto vivo. Cruel. Excelente apropriação da oralidade”, concluí.

E foi assim, saltando de início a início, que descobri estar diante de uma obra de evidente valor literário.

Comprei o livro e fiz as primeiras leituras sentado num ônibus lotado, parado num congestionamento terrível – ambientação perfeita para a mundanidade crítica e observadora de Sant’Anna.

O livro me fisgou e acho que dificilmente não fisgará um leitor que busca literatura genuinamente contemporânea, intensa, certeira na crítica, ritmicamente impecável, uma literatura que – como a boa literatura – sabe dar saltos sobre os poços da mesmice vocabular, sintática e imagética.

André Sant’Anna nasceu em Belo Horizonte em 1964, morou no Rio de Janeiro grande parte de sua vida e hoje vive em São Paulo, cidade que parece ser o ponto de partida de seus argutos exames psicossociais, cidade que ele louva e ironiza de modo magistral em seu Pro Beleléu, uma bela homenagem à Pauliceia:

Detesto São Paulo.

Antes eu gostava quando eu era do Rio e eu vinha pra São Paulo ver show da Vanguarda Paulista e eu saía de noite e eu era muito jovem e eu estava aprendendo a tocar contrabaixo e eu era mineiro e eu tenho uns tios que são mineiros e moram em São Paulo há muito tempo e eles são músicos e eu queria ser músico que nem eles, os meus tios, e eu saía de noite com o meu tio que tinha uns amigos que eram da Vanguarda Paulista e tinha o Gigante que era amigo do meu tio e tocava com o Itamar Assumpção e eu fui no ensaio do Itamar Assumpção no dia que a Elis Regina morreu e de noite fazia um frio que eu achava gostoso e eu botava uns casacos que eram muito bonitos e elegantes que só dava pra eu usar quando eu vinha pra São Paulo (…)

E foi assim, entre um texto e outro, que cheguei (dias depois, em casa, já livre do trânsito) a uma obra ainda mais impressionante: a última narrativa da antologia, mais comprida que as outras, intitulada (infelizmente) Sexo.

Exame cru da realidade urbana brasileira, essa narrativa, ao abordar o campo do erotismo, revela ao leitor os signos que estão em jogo na sociedade de consumo. Apontando o chão ideológico das paixões, desnaturaliza e desmistifica os desejos, inscrevendo-os num código social, ou seja, num campo imaginário construído num tempo e num espaço.

Como disse no começo, não sei se encontrei a resposta para o título ruim. Mas tenho a hipótese de que André Sant”Anna conta com leitores desavisados, que acreditam estar comprando uma obra “digestiva”, “fácil”, coisa que o livro de André Sant’Anna está longe de ser.

Talvez o autor, publicitário que é, tenha calculado esse efeito. O duro é saber se o tiro não saiu pela culatra.

Seja como for, registre aí mais uma dica do Prefácio (vale como conselho para leitura de férias).