

Estadia de Luís de Camões no Ribatejo. Alenquer, Constância, Belver, Santarém? Refúgio ou desterro?
«Não oferece dúvida, em face do conteúdo de algumas das suas elegias e canções, que o poeta estanceou por terras ribatejanas, pois que seria desmarcado cepticismo inscrever esses deambuleios como simples fábulas geográficas da fantasia. Os sucessos duma vida desenvolvem-se segundo uma cadeia inenodável, sucessiva e sem elastério cronológico, articulada a dias e meses como aos dentes duma roda. Reportando-nos a essa lógica de espaço e tempo, somos levados a concluir que a permanência de Luís de Camões fora de Lisboa se deve interpretar como um homizio a fugir às malhas da justiça.»




«É certo que concordam os primeiros biógrafos, excepção feita do licenciado Manuel Correia, em que estivera desterrado fora de Lisboa, por causa de amores com uma dama do Paço. Dama do Paço quereria dizer senhora nobre, e, embora Camões não fosse um fidalgo de alta estirpe e nada abone que alguma vez pisasse as alcatifas da Corte, o enredo amoroso é possível. Camões era jovem, ardente, e, antes do desastre que o desfeiou, parece que moço bem parecido e agradável. Atravessava-se uma época de grande dissolução, com os maridos levados para o Oriente na mira de encher ainda mais as algibeiras do que ganhar coroas de glória. Amores no limite platónico, repetimos, não justificam o desterro. Com mulher de outro, assistente no Reino, seria pretexto duma carga de pancada. Com marido ausente, o mais crível é que não deviam erguer celeuma nem causar represálias.»
(continua)