Na minha rua, há um banco de jardim. Castanho, voltado para o rio que corre mais abaixo, tem na vista a paisagem saudosa dos homens que ali se sentam.
De manhã, um morador, de um prédio dos arredores, senta-se só no banco e lembra-se dos que deixou para trás. Está cá a lutar pela sua vida, a cuidar da sua saúde, com poucas notícias dos seus, que deixou em Moçambique. Será rápido o regresso? Não sabe, ninguém lhe consegue dizer. Senta-se a olhar o rio, deixando que a água dos seus olhos espreite e veja que não vale a pena competir, com a força da maré que enche. O sol ainda amorna as manhãs, ainda lhe aquece o corpo e o coração, mas deixa o banco pouco depois para regressar ao lar que por estes dias tornou seu.
Pouco depois, vão chegando, um a um, às vezes em par, outros que usam o banco, apenas para conversar. Agrada-me assim vê-los, sem nada que fazer, na plenitude dos dias, aparecem para se ver. O convívio é diário, discutem quem vai e quem chega. Todos os cumprimentam, confiam na sua presença que é assídua e estranham até, se algum deles faltar, havendo logo conversa para saber o que se passou. Vêm os miúdos a correr da escola para casa, relembram os seus tempos de juventude, quando tinham grão debaixo da asa. E a zona era diferente, os prédios não existiam.
Relembram os namoros, as esposas, as traquinices dos filhos... mas se uns estão felizes, outros há preocupados... ou por vezes revoltados, com o abandono, com a tristeza de não os virem ver, ou ligar para conversar. Então, ali juntos, desabafam as suas mágoas, levando para casa o coração mais leve e o peito mais animado. Amanhã cá voltarão a estar, estranho seria não os vermos.
Elsa Filipe