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Um dos maiores cronistas que o Brasil já teve, Sabino foi dono de uma prosa leve, ágil e graciosa

Matheus Lopes Quirino

“Não faça biscoitos, Fernando, faça pirâmides”, foi o que disse Guimarães Rosa ao amigo Fernando Sabino, um camaleão na escrita, que completaria 100 anos nesta quinta-feira, 12. Mineiro de Belo Horizonte, Sabino brilhava nas narrativas curtas: em contos e crônicas, além de ser autor de clássicos da literatura brasileira. São mais de 40 títulos, como os romances O Grande Mentecapto (1979) e Encontro Marcado (1956), que ganha uma edição comemorativa pela Record, com texto de Clarice Lispector.

Em resposta a Rosa, ao defender a crônica – gênero que o autor de Grande Sertão: Veredas considerava ‘biscoito’ (algo menor, com prazo de validade) –, Sabino não escondia que aqueles biscoitos eram seu ganha pão. Foi cronista dos maiores jornais do país (Folha, Estado, Manchete, etc.), tendo sua literatura rompido barreiras a partir de úblicações das coleções Para Gostar de Ler.

Jornalista, escritor, baterista amador, Fernando Sabino foi dono de cartório, nadou no Minas Tênis Clube, sendo ele dono do recorde insuperável de 400m livres de costas, em 1939. Arriscou-se no cinema. Chegou a filmar profissionalmente e realizou uma série de mini-documentários sobre escritores brasileiros ao lado do companheiro de roteiro e produção David Neves, como O Fazendeiro do Ar, sobre o poeta maior, Carlos Drummond de Andrade.

Para começo de conversa

Sabino publicou o primeiro conto aos 12 anos, no ginásio. Uma história policial, publicada na extinta Revista Argus, periódico da polícia de Minas Gerais — que equivocadamente creditou o texto a um tal Fernando Tavares “Sobrinho”. Desengano feito. A partir daí se tornou colaborador da imprensa mineira escrevendo críticas, crônicas e histórias. Em 1941, ele lançou seu primeiro livro de contos, Os Grilos Não Cantam Mais – bancado pelo pai, agrado pelo ingresso no curso de Direito, ano antes.

“O Fernando mandou o livro [Os Grilos] ao Mário [de Andrade], que foi muito bem recebido. Daí nasceu uma bela correspondência entre os escritores, uma relação aprendiz-mestre, reunida mais tarde no livro Cartas a Um Jovem Escritor e Suas Respostas, de 2003”. Foi o que me contou o jornalista e escritor Humberto Werneck, em 2019, quando Sabino entrou para o time de autores do Portal da Crônica Brasileira, que ele brilhantemente editava. 

“Sabino era um escritor profissional, um verdadeiro amante das palavras, tinha gosto por gramática e etimologia, estudou com afinco português; das vezes que estive ou entrevistei o Fernando, notei que ele também era um sujeito extremamente organizado, tudo era rigorosamente muito bem-disposto, gabava-se de achar um texto em 40 segundos, tinha gosto por remexer nos papéis, fazia isso à exaustão”, lembrou HW.

Sabino iniciava uma conversa com o leitor, sentava-se no meio fio da crônica e conquistava a todos como Sherazade – a personagem de um dos contos do clássico universal As Mil e Uma Noites que contava histórias ao sultão Shariar para se manter viva. A leveza, característica de sua prosa, conseguiu tirar dos lábios mais amargos risada, pois o escritor fazia da queda, de repente, um passo de dança – como está escrito logo no início de O Encontro Marcado.

 Direto ao ponto

Ao lado de Rubem Braga no panteão dos grandes cronistas, Fernando Sabino nunca negou a difícil arte de escrever, tendo confessado esta façanha – da qual foi mestre – nas poucas entrevistas que concedeu em vida. “Imaginem só, você vai preparar um jantar, um banquete daqueles, tem uma trabalheira, vêm os convidados, comem bem, depois você tem que tirar a mesa, bolar uma nova receita, fazer tudo outra vez, é assim com o cronista”, contou FS, sobre o modo de preparo da crônica e seu ritmo, muitas vezes, diário ou semanal, em um Roda Viva, de 1989.

Entre biscoitos e pirâmides, o escritor ficou marcado por um episódio icônico na história do jornalismo cultural. Autoproclamado pão-duro, Sabino, durante apuros textuais, resolveu contar uma história sobre o funcionamento do cronista apertado com o prazo do jornal diário – uma entidade respeitada na lógica da imprensa de papel. Na crônica O Estranho Ofício de Escrever, Sabino narrou: “Éramos três condenados à crônica diária: Rubem no Diário de Notícias, Paulo (Mendes Campos) no Diário Carioca e eu no O Jornal. Não raro, um caso ou uma ideia, surgidos na mesa do bar, servia de tema para mais de um de nós, às vezes para os três. Quando caiu um edifício no Bairro Peixoto, por exemplo, três crônicas foram por coincidência publicadas no dia seguinte, intituladas respectivamente: “Mas não cai?”, “Vai Cair” e “Caiu”.Até que um dia, numa hora de aperto, Rubem perdeu a cerimônia – Será que você teria aí uma crônica pequenininha para me emprestar?”.

Sabino não negou ajuda ao velho amigo, que aumentou o preço do prato para cinco cruzeiros e fez algumas alterações – dentre elas o título. Deu certo.  Algum tempo depois, Braga retribuiu o favor: emprestou a mesma crônica que havia pegado de Sabino, que aumentou o preço do caldo: “Não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos, atualizei o preço para dez cruzeiros e liquidei de uma vez com ela, sob o título: Esta Sopa Vai Acabar.

“Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”, foi esse o epitáfio deixado pelo autor de O Menino do Espelho (1982). E ele fazia questão de lembrar “Sempre falo para o Otto que essa frase vai para o meu túmulo, ele já ficou encarregado da missão”, contou Sabino, aos risos, durante a antológica entrevista no Roda Viva. Em seus 84 anos, o mineiro de beagá escreveu até pouco tempo antes de morrer. Foi o último moicano do grupo literário batizado por Mário de Andrade de ‘Os vintanistas’ – eram Sabino, Otto Lara Resende (1922 – 1992), Paulo Mendes Campos (1922 – 1991) e Hélio Pellegrino (1924 – 1988).