Adam Smith – A riqueza das nações – Livro II – semana V

Obra A Riqueza das Nações
Livro Livro II
Autor Adam Smith
Data 1776
Semana V
Capítulo Capítulo I V – Do capital emprestado a juros
Trechos […] A quantidade de capital, portanto, ou como geralmente dizem, do dinheiro que pode ser emprestado a juros em qualquer país, não é regulada pelo valor do dinheiro, seja de papel ou moeda, que serve como o instrumento dos diferentes empréstimos feitos naquele país, mas pelo valor daquela parte da produção anual que, assim que obtida do solo ou das mãos dos trabalhadores produtivos, é destinada não apenas para repor um capital , mas aquele capital que o proprietário não se incomoda em ter o trabalho de empregar ele mesmo. Como esses capitais são geralmente emprestados e pagos em dinheiro, eles constituem o que é chamado de juros em dinheiro.
[…] Conforme a quantidade de capital a ser emprestado a juros aumenta , os juros, ou o preço que deve ser pago pelo uso desse capital , necessariamente diminui, não somente por conta dessas causas gerais que compõem o preço de mercado das coisas geralmente diminuírem conforme sua quantidade aumenta, mas de outras causas que são específicas desse modo em particular. Conforme os capitais aumentam em qualquer país, os lucros que podem ser conseguidos por seu emprego necessariamente diminuem. Fica cada vez mais difícil de encontrar no país um método lucrativo de empregar qualquer novo capital. Em consequência, surge uma competição entre diferentes capitais, com o dono de um tentando tomar posse desse emprego que é controlado por outro. Mas, na maioria dos casos, ele pode tentar atrapalhar aquele outro oferecendo termos mais razoáveis. Ele não deve apenas vender aquilo que negocia um pouco mais barato, mas no intuito de conseguir a venda, deve, às vezes, também comprar mais caro. A demanda pelo trabalho produtivo, pelo aumento dos fundos que são destinados à sua manutenção, fica cada dia maior. Os trabalhadores facilmente conseguem empregos, mas os proprietários dos capitais tem dificuldade em conseguir trabalhadores para empregar. Sua competição faz aumentar os salários do trabalho e diminuir os lucros do capital. Mas, quando os lucros que podem ser adquiridos pelo uso de um capital caem, como deve acontecer, dos dois lados, o preço que lhe pode ser pago por seu uso, ou seja, a taxa de juros, deve necessariamente diminuir com eles.
[…] Qualquer aumento na quantidade de prata, enquanto a das mercadorias circuladas por meio dela permanecem o mesmo, não poderia causar outro efeito senão a diminuição do valor desse metal. O valor nominal de todos os tipos de mercadorias seria maior, mas seu valor real seria exatamente o mesmo de antes. Elas seriam trocadas por um número maior de peças de prata; mas a quantidade de trabalho que poderiam controlar, o número de pessoas que poderiam manter e empregar , seria exatamente o mesmo. O capital do país seria o mesmo, apesar de um número maior de peças passar a ser necessário para conduzir qualquer porção equivalente dele de uma mão para outra. As transferências de posse, assim como as escrituras de um advogado verboso, seriam mais enfadonhas, mas a coisa transmitida seria exatamente a mesma de antes, e poderia produzir somente os mesmos efeitos. Os fundos para manutenção do trabalho produtivo sendo os mesmos, a demanda por eles seria igual. Seu preço ou salários, portanto, apesar de nominalmente maiores, seriam, na verdade, os mesmos. Eles seriam pagos em um número maior de peças de prata, mas comprariam somente a mesma quantidade de mercadorias. Os lucros do capital do capital seriam iguais tanto nominalmente como de fato. Os salários do trabalho são geralmente calculados pela quantidade de prata que é paga ao trabalhador. Quando ela aumenta, então, seus salários parecem aumentar, embora possa, às vezes, não ser maior do que antes. Mas os lucros do capital não são calculados pelo número de peças de prata com as quais eles são pagos, e sim pela proporção que essas peças possuem com relação ao capital empregado.
[…] Qualquer aumento na quantidade de mercadorias anualmente circulada no país, enquanto a quantia de dinheiro que as fez circular permaneceu a mesma, produziria, ao contrário, muitos outros efeitos importantes além do efeito de elevar o valor do dinheiro. O capital do país, apesar de nominalmente poder ser o mesmo, seria na verdade, aumentado. Ele poderia continuar a ser expresso pela mesma quantidade de dinheiro, mas controlaria uma quantidade maior de trabalho. A quantidade maior de trabalho produtivo que poderia manter e empregar aumentaria, e consequentemente a demanda desse trabalho seria também maior. Seus salários aumentariam de modo natural com a demanda, embora pudessem passar a impressão de estarem diminuindo. Eles poderiam ser pagos com uma quantidade menor de dinheiro, mas essa quantidade inferior poderia comprar uma quantidade maior de mercadorias do que uma maior antes. Os lucros do capital seriam reduzidos de fato e aparentemente. Com o capital total do país aumentado, a competição entre os diferentes capitais do qual era composto também aumentaria de modo natural junto com ele. Os donos desses capitais particulares seriam forçados a se contentar com uma proporção desse trabalho que seus respectivos capitais empregou. Os juros do dinheiro , sempre no mesmo ritmo dos lucros de capital , podem, dessa maneira, cair muito, embora o valor do dinheiro, ou a quantidade de mercadorias que qualquer quantia específica pudesse comprar, aumentasse muito.
[…] A taxa legal, devemos observar, embora deva ser um pouco acima, não deve ser muito além da taxa mais baixa do mercado. Se a taxa legal de juros na Grã-Bretanha, por exemplo, foi fixada no valor alto de 8% ou 10%, a maior parte do dinheiro que deveria ser emprestada seria oferecida a esbanjadores e projetores que, sozinhos, estariam dispostos a pagar esses juros altos. Pessoas moderadas, que darão pelo uso do dinheiro não mais do que uma parte daquilo que poderão ganhar com seu uso, não arriscariam participar dessa competição.Uma grande parte do capital do país seria, assim mantida longe das mãos que provavelmente fariam um uso lucrativo e vantajoso dele, e acabariam nas mãos daqueles que , ao que tudo indica, desperdiçariam e destruiriam tudo. Onde a taxa legal de juros, ao contrário é fixada, embora um pouco acima da taxa mais baixa do mercado, pessoas moderadas são universalmente preferidas como mutuários, em comparação aos esbanjadores e projetores. A pessoa que empresta dinheiro consegue quase tantos juros do primeiro quanto ousa conseguir do segundo, e seu dinheiro está muito mais seguro nas mãos do primeiro grupo de pessoas do que nas mãos de outro. Uma grande parte do capital do país chega, então, às mãos daqueles que, muito provavelmente, o empregarão com vantagem.