Gustavo Nascimento

Créditos da imagen: Gan Hosoya, 1973, “Silence” poster
As obras contemporâneas que se utilizam da apropriação como procedimento de escrita enfrentam grandes impasses. Um deles diz respeito à postura de uma parte da crítica que encara a apropriação como sinônimo de plágio. Assim, os produtos fruto da releitura seriam obras de menor valor devido à falta de originalidade autoral. Contrariando esse ponto de vista, nesse post comentarei brevemente o capítulo “Mutaciones” do livro El hacedor (de Borges), remake de Agustín Fernández Mallo.
O livro é um remake do livro El hacedor de Jorge Luis Borges. Mallo toma a obra de Borges e a reinventa, reapropriando-se dos títulos dos capítulos, de partes do prólogo e epílogo do livro de Borges e reinscrevendo muitas das narrativas que ora aparecem totalmente transformadas, ora são apenas recontextualizadas. Escolho comentar o livro justamente por sua inserção em uma teia de discussões sobre autoria e direitos autorais, que provocou a suspensão da circulação da obra por decisão do autor após receber uma contestação da viúva de Jorge Luis Borges. Mallo é autor de seu livro ou um mero copiador de Borges?
Em “Mutaciones”, capítulo do livro de Mallo, o narrador decide fazer uma caminhada pelas ruas de Nova York, no ano de 2009, inspirado por uma aventura fotográfica, feita por Robert Smithson em 1967, que é a origem de seu trabalho “Um passeio pelos monumentos de Passaic”.Mas, logo no início, o leitor é surpreendido pelo fato de a caminhada, feita por Mallo, na verdade ter sido executada através do aplicativo Google Maps. Mallo narra de forma minuciosa seu passeio virtual pela metrópole e constrói uma relação entre passado e presente, de forma a habitar o espaço geográfico pelo qual circula através da escrita e dos frames que vai captando a partir de sua tela de computador.
Se comparamos o remake de “Mutaciones” feito por Mallo ao “original” do escritor argentino, a apropriação ipsis litteris só acontece no título. No entanto, o texto também dialoga com a própria invenção borgiana de outra maneira. O parágrafo inicial do conto de Borges é esse: “En un corredor vi una flecha que indicaba una dirección”. Mallo aproveita a ideia e a transpõe para a mãozinha que faz as vezes de cursor na tela e a associa ainda à mão fantasma de Michael Jackson que o guia pelas ruas de Nova York.

Mas o que parece delírio imaginativo vai construindo um sentido para a apropriação, já que Jorge Luis Borges pode ser considerado um dos precursores das estratégias de Mallo. Em El hacedor, Borges faz de Homero o grande inventor de toda a literatura ocidental, sugerindo uma diretriz retomada pela arte conceitual: afinal, se tudo já está dito qual o trabalho do escritor ao escrever contemporaneamente? Outra possibilidade é pensar em contos como “Pierre Menard, o autor do Quixote”. Aí, Pierre Menard depara-se com o dilema de escrever um Quixote contemporâneo em que não se muda uma vírgula do original. O método sugerido na ficção é então um convite a Fernández Mallo que, ao escrever um texto apropriando-se de Borges, se escreve como autor , lendo Borges, apropriando-se dele.
No livro O gênio não-original: poesia por outros meios no novo século, Marjorie Perloff sugere que estamos lidando com uma reformulação da inventio, ou seja, estamos reinventando modos de sermos criativos. Um desse modos Perloff afirma que pode se dar a partir da seleção e reelaboração de formas e textos. Se Menard afirma que “meu problema é bastante mais difícil que o de Cervantes”, Mallo poderia muito bem afirmar que “meu problema é bastante mais difícil que o de Borges”.