A Exemplar Família de Itamar Halbmann, 156 páginas, é da Danúbio
De acordo com o Prólogo, o objetivo do romance é “fixar no papel um tipo humano” específico, qual seja, o do “petista milionário”, que tem um discurso de esquerda mas adota o “estilo de vida burguês”. Para esse fim, o autor descreve tanto o esquerdismo quanto o estilo de vida de Itamar Halbmann, desembargador em Curitiba, de sua esposa, professora universitária de direito, e de suas filhas.
Na primeira metade do livro, ficamos sabendo como foi seu casamento, como é sua casa, quais são seus empregos e como os conseguiram, quanto dinheiro eles têm e, principalmente, o que pensam e sentem sobre política, que veem como uma luta do bem contra o mal, na qual o bem é a esquerda e o mal é a direita (o autor, presume-se, acredita que é o contrário). Na segunda metade, vemos o quanto são esquerdistas, a partir de suas reações ao processo de impeachment de Dilma Roussef.
O livro é assumidamente panfletário, ou seja, foi escrito para apresentar uma tese, a de que ricos esquerdistas são hipócritas arrogantes, iludidos, que não entendem o povo, que acumulam diplomas mas no fundo não têm cultura nenhuma. Como o título já adianta, o livro não está preocupado com a vida dos Halbmann, quer apenas apresentá-los como “exemplo”.
Eis como um personagem, professor esquerdista, revela seu entendimento da universidade:
Vocês têm que entender uma coisa: foda-se a tese, foda-se o “valor acadêmico”. A maioria é uma merda mesmo (…) A universidade é um instrumento da luta de classes; é um aparelho reprodutor da ideologia da classe dominante; precisa ser tomada pelas forças populares (…) A coisa é simples, porra. Se for dos nossos, aprova, se não for, não precisa nem ler, caralho.
Eis um diálogo entre filha e esposa de Itamar, sobre a participação da empregada nas manifestações verde-amarelas contra Dilma:
— Até a Maria disse que vai (…) Eu a vi falando na cozinha. Ela e o jardineiro do vizinho, pela janela. Eles são a favor do impeachment.
— Meus Deus do céu, só faltava essa agora! A empregada virou jurista. Que gente sem noção. Ela está pensando o quê? O negócio dela é limpar, não é opinar sobre o que não sabe.
(Entre parênteses: uma rima infeliz entre “cozinha” e “vizinho”).
Não há espaço para sutileza, para nuances, ambiguidades, psicologia, nada disso. É tudo bem esquemático. O petismo da família é histérico, caricatural, extremo. Diz o narrador:
Para eles, Dilma Roussef ainda era um coração valente; e Lula da Silva, o grande filho do Brasil, o herói prometido mil vezes, o melhor presidente que este país já teve. Eles não queriam mudança, nenhuma mudança. Seu petismo era irreversível. Defendiam o governo como um cão defende o pote de comida
Em um dos capítulos, Itamar se recorda de uma festa às vésperas da eleição de 2002. É um convescote de esquerdistas, onde todos falam exatamente o que alguém de direita sem muita imaginação acha que esquerdistas falariam (“confisca tudo, distribui para os pobres”; “fuzilava todos os latifundiários”; “o grande capital internacional está querendo influenciar a eleição”).
(Existem por aí pessoas que falam assim? Certamente muitas. Mas essa não é a régua com a qual se julga obras literárias)
A prosa em si também não impressiona. Dou apenas alguns exemplos rápidos. “Dar a vez a uma charrete” não tem crase; olhos não ficam “mareados” e sim “marejados”; “Como quem segura um vaso da mais valiosa porcelana chinesa” é lugar comum, “Era inverno em Curitiba, fazia um frio do cão” é outro; “Uma casa de praia (…) erguida em algum ponto do litoral” (onde mais?); “geleia importada, comprada na seção de importados”; Asfalto, semáforos e construções “conferem ao povoado certo ar de cidade ocidental moderna” — que outro tipo de cidade haveria de ser?; “Curitiba já era um daqueles micropolos regionais que se tornam antros balzaquianos, onde as carreiras se fazem e se desfazem, as ambições se entrechocam, e os sonhos se degradam em ilusões perdidas” (qual cidade grande não é assim?)
Mas o problema principal é mesmo o didatismo. O autor não quer fazer literatura, quer falar sobre esquerda e direita e quer falar mal da esquerda. “Nos primeiros meses de 2016…” e lá vem um resumo da situação política, que é o tema que realmente interessa.
Os personagens são figurantes, nenhum deles é protagonista, não são sujeitos, não são agentes, não fazem nada, ficam ali parados enquanto o narrador se encarrega de nos contar tudo. Talvez nem sequer possamos dizer que são personagens de um romance. Não há enredo, não há drama, eles não têm vida interior, não há nem vestígio da condição humana, tudo é mensagem que vem diretamente do autor. Lembra um desses documentários sobre os animais do Serengeti.
No final do livro, os Halbmann estão de férias e conhecem uma família de venezuelanos que vivem exilados nos EUA. Itamar antipatiza com eles por serem de direita, postura que é logo criticada:
Nosso magistrado poderia ter aprofundado o interesse pelo outro, sondado os motivos daquela triste situação, ter-se interessado pela tragédia singular daquele homem. Mas não quis saber de nada, e, justificando o seu desprezo, traçou um desenho esquemático (…) do oponente
Sem querer, Diogo Fontana descreveu a si mesmo nesse trecho.
Três machadadas.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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