Caroline Barbosa
Crédito da imagem: Tudo começou no mar, Larissa de Souza, 2024.
No artigo Potential History: Thinking through violence, Ariella Azoulay explana seu método de investigação para pensar a relação entre árabes e judeus. Através da mobilização do arquivo fotográfico dos anos iniciais da formação de Israel em conjunto com uma delimitação da noção de cidadania, a pesquisadora nos impele a refletir sobre a possibilidade de coexistência.
Nas imagens revisitadas por Azoulay, árabes e judeus aparecem como parceiros de negócios, construindo casas juntos, frequentando os mesmos espaços e cultivando relações de amizade. O viver junto significava também a possibilidade de coexistência. Tudo muda com a ofensiva isralense de conquista dos territórios: os israelenses passam a perpetradores da violência, os palestinos são expulsos das próprias casas.
A pesquisadora chama esse processo de sujeição e destruição do Outro de “regime-made-disaster”, caracterizando-o como o desastre produzido por um regime que condiciona os cidadãos de seu governo a justificarem a violência imposta a outro grupo e a não se reconhecerem como agentes diretos dela. Assim, as imagens servem a Azoulay como um exercício de desautomatização, pois mostram a possibilidade de coexistência, do viver-junto, do respeito à cidadania por israelenses e palestinos.
O interesse de Azoulay está em pensar “no potencial da cidadania como parceria”. Aí reside a noção de história potencial que rege o método de Azoulay. Nessa forma de pensar a história, os arquivos recebem uma reinterpretação, o historiador compreende sua posição enquanto alguém que intervém na leitura dos eventos e a naturalização da violência é questionada. É uma investigação do passado que nos ajuda a pensar nas narrativas criadas no presente, uma vez que ao analisar a cooperação entre judeus e árabes surge uma interrogação sobre a imposição de termos como “guerra” e “batalhas” para se referir a situação entre eles.
Entrar em contato com o texto de Azoulay me fez ampliar a bibliografia de métodos empregados hoje para contrapor uma história dominante, pois assim como Hartman ela monta e desmonta o arquivo para apontar as vidas invisibilizadas e as perspectivas que foram privilegiadas. Além disso, sua noção de história potencial promove tensões com a fabulação crítica, pois qual é o conceito de cidadania que se coloca para o sujeito negro? Quais são as possibilidades de coexistência? Como manejar o arquivo na Literatura e na História pensando nessas noções?