Uma dos medos mais terríveis que tenho é de barata.
Eu sei que não é o mais aceitável ou louvável dos medos para um marmanjo no alto dos seus quarenta anos. Eu tenho vergonha, claro! Não falo isso pra todo mundo e espero que mantenhamos isso em segredo.
Eu até sei da origem desse medo. Consigo explicar o motivo ou ao menos sei verbalizar uma bela desculpa pra imensa vontade que sinto de sair correndo quando me deparo com um desses insetos malditos. Baratas são bichos do esgoto, das fossas, daquilo que rejeitamos e que de pior produzimos. Quando encontramos montanhas de lixo, de podridão, o que encontramos lá? Baratas! Sempre com suas patinhas asquerosas, com anteninhas que passearam por lugares imundos, com aquelas asas que usam para traçar voos malucos e imprevisíveis. Baratas me enojam, baratas fedem… enfim: são baratas!
Eis que no terceiro dia do ano, abrindo um novo período, naquele momento em que os astrólogos juram estarmos abertos para toda energia positiva, surge olhando para mim um barata bem dentro do box do banheiro. Veja bem, não tenho um banheiro imundo… é tudo limpinho, juro! Mas baratas combinam com esse ambiente. Ela surgiu revelando-se por trás de um cabo de um rodo que sei lá por qual motivo deixaram ali. Ela surgiu faceira, sacudindo as anteninhas, balançando as asinhas, agarrando o cabo com aquelas patinhas saídas do pior momento do apocalipse.
E eu, nu e completamente vulnerável, não sabia o que fazer. Correr era uma boa opção, mas molhado e sem roupa seria algo vergonhoso e perigoso: boa parte dos acidentes domésticos fatais acontecem no banheiro. Não seria um bom começo de ano pra minha família.
Respirei fundo, calculei as rotas, saí do box, peguei a sandália e, repetindo pra mim mesmo que eu era capaz, ataquei a maldita com toda potência. Foi um belo combate e espero que você tenha visualizado bem isso ao invés de imaginar a cena deplorável de um homem de meia idade, nu e molhado, com uma sandália na mão, tentando matar uma barata no box do banheiro.
Só que você leu esse texto todo e pode estar se perguntando, com toda razão, por que eu resolvi falar sobre isso, compartilhar esse evento tão vergonhoso, logo no primeiro texto do ano.
Acontece que todos nós temos nossas baratas.
E por vezes escolhemos o caminho mais fácil, mais cômodo. Saímos do ambiente e deixamos ela lá. Podemos também pedir pra alguém fazer o trabalho sujo por nós. Podemos até lançar mão de belos subterfúgios para nutrir a ilusão que a enfrentamos. Sacamos um inseticida e ali, de longe, vemos o bicho definhar… nutrimos a ilusão que estamos nós mesmos atacando e destruindo o que nos incomoda.
No fundo, porém, sabemos que cedo ou tarde o momento barata no banheiro chegará para todos. Há certas baratas que aparecem em certos momentos que não nos permitem fuga, saída ou tapeação. É preciso enfrentar a criatura, assumir as rédeas e eliminá-la de uma vez por todas. É isso ou aprender a conviver com aquele ser asqueroso e fedorento, ficar preso ali com ele pra sempre e até mesmo tornar-se igual a ele em certa medida.
Quem sabe seja este o ano em que finalmente teremos coragem de enfrentar nossas baratas.
