Quem leu o meu livro “Não há amanhã”, sabe o quanto admiro a doutrina pitagórica. O conto “O último pitagórico” possui várias frases do filósofo grego desconstruídas e amplificadas dentro da narrativa, em uma verdadeira “carnavalização pitagórica”. Mas também apresenta uma inquietação: se a principal ideia de Pitágoras era que tudo podia ser transformado em números, até mesmo Deus, o último pitagórico foi aquele que chegou no último número do infinito e, por conseguinte, virou Deus. No caso do conto, chegar na natureza da divindade também é chegar no início do Tempo, o qual considerei como um pântano repleto de areia movediça, o que explica o fato do personagem estar preso em um looping temporal do qual nunca conseguirá sair, vivendo o mesmo dia sem parar, começando na ignorância e terminando no auge do saber (o qual se tornará a sua prisão).
Pena que não analisem meu conto por essa ótica, que, para mim, é muito mais vibrante e cheia de profundidades do que o resto da narrativa. Mas, um dia, espero que alguém me explique as consequências filosóficas daquilo que escrevi. Enquanto isso não acontece, sempre oportuno falar sobre Pitágoras de Samos.
Recentemente descobri a existência da “Taça de Pitágoras”. Diz a lenda que foi ele quem a criou, com o intuito de punir aqueles que, na hora de servir o vinho, preenchiam os copos até a borda. Essas pessoas esgotavam os vinhos das festas, enchendo as taças até o limite e, pior ainda, às vezes sequer tomavam todo o seu conteúdo. Afinal, o que hoje tomamos como vinho é uma versão educada e pasteurizada dos vinhos de antigamente, muito mais selvagens. Não é difícil de acreditar que, naquela época, um bebedor rematado tomasse meia taça de vinho e desmaiasse.
A “Taça de Pitágoras” pode ser descrita como uma pequena vasilha com uma coluna no meio. No topo dessa coluna ( e embaixo da taça), encontra-se um furo, por onde escoa o líquido excedente colocado pelos “malandros” que desejavam levar vantagem sobre os outros.


Um dos fundamentos da filosofia pitagórica é “nada em excesso”. Não espanta que, na “Taça de Pitágoras”, esse princípio seja aplicado com sabedoria: quem se servir em excesso terá essa conduta “punida”.
E temos o vídeo:
Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo