Luciene Azevedo

Crédito da imagem: Princeton’s Department of Rare Books and Special Collections, Iṣfahān, 1921
Recentemente, li o diário de trabalho de Brecht. Na edição brasileira, publicada em 2005, em dois volumes, há pouco da rotina privada do dramaturgo. O diário cobre o período entre 1938 e 1947 no qual Brecht leva uma vida nômade fugindo do nazismo.
Fui levada à leitura do diário porque queria entender melhor a famosa proposição pelo dramaturgo de seu teatro épico e, em especial, os procedimentos do famoso V-Effekt (ou Verfremdungseffekt).
A noção de estranhamento, testada nos diferentes artíficios que Brecht criava dramaturgicamente, não foi recebida pela crítica sem alguma resistência. No diário, Brecht reclama: “Como sou um inovador em meu campo, há sempre alguém disposto a gritar que sou um formalista. Eles sentem falta das velhas formas no que eu escrevo. Pior ainda: encontram formas novas e por isso mesmo acham que as formas são o que me interessa”. Brecht também mostra-se consciente das dificuldades que enfrenta com sua fórmula dialética, ao anotar que a arte tem “uma função social de tipo totalmente contraditório e alterável, condicionada pela história e sucessivamente condicionadora dela. É a diferença entre “espelhar” e “segurar um espelho”.
Podemos inferir, então, que a dificuldade do termo não encontra uma solução fácil, pois não acolhe nem elogio absoluto da forma, nem o didatismo político. Assim, a lógica do estranhamento atua plenamente quando, diz Brecht, “A gente torna as coisas invisíveis destruindo-lhes a forma, dando-lhes uma forma inesperada, fazendo com que fiquem, por assim dizer, não indistinguíveis, mas ao mesmo tempo impressionantes e estranhas.”
A leitura do diário de trabalho do dramaturgo alemão também me levou a pensar na minha rotina docente. No atual semestre, estou ministrando mais uma vez uma disciplina introdutória para os calouros que tem a pretensão de lhes apresentar os problemas básicos de nossa área. Gosto de apresentar a eles a noção de estranhamento. Essa escolha metodológico-conceitual também funciona como uma espécie de laboratório de minha atuação docente. Diante de um poema de Klebnikov, que tematiza o riso, os alunos riem: “maluquice!!”, alguns dizem. Durante a análise de um conto de Lydia Davis, os alunos não entendem porque a narradora não diz o que tem a dizer, complica tudo, afinal, “ela está dizendo o quê?”
Alguns gostam de ser desafiados; outros, ficam à espera da “resposta certa”. A heterogeneidade é sempre muito grande. Mas, se não me engano, a resistência ao estranho prevalece. Muitos desejam encontrar uma âncora para a estranheza, apoiando-se em um referente seguro, na identificação, no texto, de um sinal etnograficamente fiel a si mesmos, ao mundo que reconhecem. Esses resistem a perceber “que para representar carne e sangue o teatro (a arte, a literatura) usa papelão e tinta vermelha, que chegam a parecer carne e sangue”, como afirma Brecht.
Mas se essa resistência é mesmo esperável de um público jovem, que mal convive com as práticas letradas no seu cotidiano, o que me chama a atenção é a qualidade dessa resistência. E me explico.
Mais recentemente tenho me deparado com hipóteses de leitura levantadas pelos alunos que resistem a colocá-las à prova por meio de argumentos, que resistem ao diálogo que proponho ao tentar construir em conjunto de possibilidades de leitura para os textos literários que discutimos em sala.
Recentemente, analisando o famoso poema de Olavo Bilac (!), Nel mezzo del camin, boa parte da audiência “resistiu” à interpretação do último verso “na extrema curva do caminho extremo” como indicação da morte da mulher amada, insistindo na possibilidade de uma separação traumática. E tampouco mostrou compreender a contradição do verso “Hoje segues de novo / Na partida” “Segue para onde? Se segue, como parte?” “A mulher foi embora ou não?” Perguntavam- se os alunos. A controvérsia não me interessa como pretexto para mais um lamento sobre as dificuldades de leitura do texto literário. Minha inquietação é, como disse, pela qualidade dessa “resistência” que parece replicar uma conduta própria das redes sociais, nas quais cada um tem sua própria certeza e a expressa abertamente, sem muita preocupação com estabelecer qualquer interlocução. Some-se a isso, a busca pela imediaticidade do entendimento, que deve ser claro, direto, concreto. Uma outra expectativa facilmente (embora não sem consequências) atendida pela vida virtual. E se é assim mesmo, também é verdade que nossa época nos impele a um esforço cognitivo para ver o que não é tão evidente assim.
Se há algo de aproveitável nessa minha reflexão, talvez a insistência no procedimento brechtiano, possa funcionar como um antídoto contra um risco a que todos nós estamos expostos: o de banalizar a realidade, como afirma o historiador Carlo Guinzburg ao fazer o elogio do estranhamento.