Em um livro obrigatório para os amantes da cultura, Aristóteles falou da importância do Herói na Tragédia. Alguém muito superior, dotado de capacidades extraordinárias e que compõe um modelo invejável.
O filósofo grego não sabia, mas aquilo que ele reconheceu há tanto tempo continuaria reverberando de forma voraz ao longo dos milênios.
Quando criança, todo novo filme que eu via tornava-se logo tema principal de minhas fantasias infantis. Eu fui Rambo e fui Braddock, fui Daniel Sam e fui Jackie Chan. Entre eles e eu, apenas a mais profunda inveja. Um desejo absoluto e incontrolável de também realizar aqueles feitos, de ser herói.
É o modelo aristotélico que está na tela atirando, lutando, fazendo acrobacias maravilhosas. É esse super-homem tão humano e ao mesmo tempo tão superior que inspirava minhas brincadeiras e que continua fascinando crianças e adultos ao longo do tempo. Uma presença tão firme e constante que nos acostuma e paramos de perceber.
Veja o caso do circo. Todo mundo gosta de circo. Não há como ignorar aquele espaço mágico contido por uma lona onde observamos seres que se apresentam como humanos e num piscar de olhos transformam-se em seres mágicos diante de nosso nariz. Que magnífico é o circo!
Dois rapazes entram em cena, sérios, um metal pesado reverbera em nossos corações. Eles assumem suas posições numa geringonça de metal e em poucos minutos aqueles que pareciam homens tornam-se semideuses realizando movimentos que desafiam a fronteira entre a fantasia e a realidade, o encanto e o terror, a vida e a morte.
E pensar que há bem pouco eles pareciam tão comuns… tão normais.
Mal respiramos e surgem mulheres saltando, homens manipulando o fogo, uma jovem erguida pelos cabelos… vez ou outra os semideuses saem de cena e o humano reaparece. Seu rosto é branco, seu nariz é vermelho, seus sapatos estão evidentemente sobrando nos pés. O palhaço é o nosso retrato, nossa mais profunda mediocridade diante da magnífica potência daqueles semideuses. Ele é o espaço da comédia e já dizia também Aristóteles que o riso é o produto que resulta de nossa auto contemplação.
Aquele homem de cara pintada nos faz rir ao revelar de forma carinhosa nossa inútil fragilidade. Ele quebra a tensão construída antes, remove nosso olhar daquele céu de estrelas e nos devolve pra dentro de nós, mas faz isso nos arrancando gargalhadas. O palhaço é uma comédia! E debaixo daquela lona tem espaço para tudo, como num caldeirão efervescente onde podemos viver o melhor daquilo que Aristóteles identificou.
É uma pena que os circos estejam morrendo, desparecendo em um mundo em que essa divisão necessária entre heroísmo e mediocridade tornou-se irrelevante. Nós louvamos a mediocridade, aplaudimos a ignorância e damos milhões de likes que valem mais do que dinheiro a homens e mulheres que nada fazem.
Nossas narrativas não têm mais espaço para o heroísmo.
O circo grita contra isso enquanto faz acrobacias, cospe fogo e motoqueiros alucinados giram em uma gaiola de metal. O circo nos ensina o que é comum ao mostrar o extraordinário, nos aponta o medíocre enquanto mostra o grandioso, nos fala a Verdade enquanto nos deslumbra com a mentira. Um espetáculo feito de homens e mulheres que no picadeiro tornam-se semideuses para nos lembrar de como somos medíocres e ao mesmo tempo extraordinários.
Pensei tudo isso enquanto buscava fôlego diante de tantas criaturas daquele Olimpo. Comigo, meu filho de quatro anos fazia seu queixo conhecer o peito. Nos seus olhos e sorriso eu tive a certeza do sonho em ser artista de circo e a compreensão – do seu jeito, no seu tempo – da verdadeira Graça da existência.


