Fui ao supermercado fazer aquelas compras do mês. Momento único. Eu sei que vocês adoram. É lindo!

Pra variar, cheio, lotado! Não gosto de ir em dias assim, mas foi o jeito. As coisas acabando, aquela vontade de mastigar uma besteira. Tomei vergonha e fui.

Mercado é sempre meio agoniado em qualquer lugar do mundo. E olha que eu já precisei fazer compras na Finlândia, onde passei três meses. Os finlandeses têm uma fama talvez superada apenas pelos japoneses: quietos, comedidos, educados. Um silêncio impressionante nos corredores. Mesmo assim, agonia. Nesse caso, minha: confesso!

Não gosto e vai além da preguiça, mas tive de ir e fui.

Claro que aqui é Brasil. Saem de cena os finlandeses educados e entram senhoras, senhores, moças, rapazes e crianças que berram, gesticulam, deixam os carrinhos espalhados em qualquer lugar.

O brasileiro é uma contradição ambulante. Uma dissonância cognitiva em movimento. Ao mesmo tempo que ele imagina “estar em casa” (no pior sentido do termo) em absolutamente qualquer ambiente; ele parece desconsiderar completamente a humanidade do outro. Não importa se tem gente precisando passar naquele corredor, eu vou deixar aqui meu carrinho enquanto escolho pacientemente entre o biscoito de coco ou de queijo.

Não que isso seja exclusividade dos mercados, devemos dizer. Eu moro próximo a uma escola e por vezes precisei pacientemente esperar o pai descer do carro, deixar o filho, voltar pro veículo, dar partida e finalmente sair da frente da minha própria garagem para que eu pudesse entrar ou sair de casa. Apesar de ser uma rua larga, de existirem vagas abundantes de estacionamento, as pessoas precisam parar sempre a poucos metros. Talvez tenham aprendido desde criancinhas que é assim que se faz. Que se você estiver de carro o certo é parar muito perto do local até onde vai, mesmo que atrapalhe a vida de outras pessoas. Talvez até tenham aprendido que algo muito ruim acontece se essa regra não for seguida. Sei lá… vai que a demora de andar alguns metros a mais pode ser o tempo suficiente pra encontrar a garagem dele trancada. Nunca se sabe!

Eu já disse que não gosto de ir ao mercado. E um dos motivos é ter de enfrentar esse caminho interrompido e sair pedindo licença. A pessoa não escuta, você empurra por conta própria o carrinho, o dono se chateia, te olha torto. Uma agonia, mas enfrentamos com bravura, afinal, precisamos ser caridosos. Boa parte dessas pessoas, prefiro acreditar, não têm consciência do quanto atrapalham a vida de outros pobres coitados. Está tudo bem, ninguém morre por isso.

Ou não deveria… porque da última vez foi um dia bem especial nesse quesito. Juro que cheguei a ver uma luz branca e não era o teto do mercado.

Como eu creio já ter dito, eu não gosto de ir ao mercado. Ainda menos em fim de mês, mas fazemos porque é preciso. Filas quilométricas, daquelas que só conseguimos acessar indo até o início do corredor. Mas fazemos porque precisamos fazer. Depois de uns quarenta minutos que dariam orgulho a Einstein, chegamos próximo ao caixa. Uma senhora mal encarada, dessas que já nos olham como se nós que estivéssemos atrapalhando, resolveu apossar-se daquele território. Subiu aquele morro, espalhou seus exércitos, fincou uma bandeira e começou seu processo de povoamento.

Já vi muita gente folgada, dessas que se espalham sem pudor, mas essa senhorinha era certamente a professora de todas elas. Ela começou um processo curioso em que parecia ter algum receio de encostar o carrinho no caixa.

Calculou metodicamente a distância e dava três ou quatro passos até pegar um pacote de arroz e levar até a esteira. Depois, mais três ou quatro passos e outro pacote de arroz. De vez em quando, ia até a outra ponta da esteira, onde ficam os produtos já faturados, e conferia se a filha – uma jovenzinha que em nada lembrava a mãe – organizava tudo em outro carrinho. Ela encarnava um engenheiro e verificava o andamento da obra. Tirava algo que a filha colocou, realocava em outro lugar. Voltava pro seu próprio carrinho e reiniciava a trajetória: alguns passos, pacote na mão, mais passos e pacote na esteira.

Em dado momento, talvez tendo misturado as personas de transportadora e engenheira, resolveu retirar tudo de dentro do carrinho e espalhar sobre aquelas prateleiras com guloseimas e brinquedos que ficam perto do caixa pra seduzir crianças e terminar de derreter o juízo que restou dos pais.

Ela fez isso sem pressa e todos que assistíamos ao espetáculo de seu meticuloso trabalho achamos que ela estava desistindo. Não seria a primeira pessoa a fazer isso e muito menos a última. Afinal, este é outro patrimônio brasileiro.

Aqui, as pessoas parecem ignorar a existência de listas e calculadoras. Entendo que muitos sejam analfabetos funcionais, outros tantos sejam ruins de conta, mas uma lista não demanda tanta perícia, muito menos o manuseio da calculadora. Acontece então de abarrotarem o carrinho com tudo aquilo que desejam levar pra casa e deixam pra saber se cabe no orçamento quando os itens vão sendo processados pela mocinha de cara blasé e pouca disposição. A cada bip, um item ganha a honra de ir pra casa e outro é descartado.

Porém, este não parecia ser o caso. Depois de alocado tudo nas prateleiras, ela começou um processo de realocar no carrinho e de lá mandar para a esteira. O processo que já estava lento ganhou ares sádicos. As pessoas na fila se entreolhavam enquanto ela esvaziava o primeiro de três carrinhos. Estávamos exaustos e aquela dança macabra em muito assemelhava-nos a uma bexiga cheia a caminho do banheiro. Cada passo era um golpe em nossa esperança. Ela, alheia a nosso sofrimento, pincelava tudo com cores de crueldade ao olhar para a moça logo atrás e comentar o preço do salgadinho.

Eu discordo de quem diz que o brasileiro não tem noção de comunidade. Essa senhorinha que tanto nos causou desespero é a refutação cabal disso. Ela comentava feliz sobre os itens do seu carrinho, com uma intimidade que me fez achar, a princípio, que a moça logo atrás dela era uma parente… mas não! Ela estava tão íntima porque de fato sentia-se assim. Ela estava em casa e aí está o genuíno problema.

O brasileiro não acha que o ambiente familiar é um lugar de regras, limites e valores e requintes. Ele acha que este é justamente o local do desprendimento e relaxamento absoluto. O espaço primordial do “chegou a minha vez”! O brasileiro é o que mantém a louça nova pra visita enquanto a família usufrui de copo trincado e garfo sem dente.

A verdadeira lei brasileira não é a de Gerson, é a da farinha: pra quem é de fora oferecemos o que tem, mas com os de casa é o meu pirão primeiro e ai de você se reclamar.