Madame K – André, como a sua formação em Letras e as suas raízes em Itabaiana influenciam sua escrita?
André Ricardo Aguiar - Minha formação em Letras só me deu certa ambientação, pois o cenário universitário já tem uma certa energia, onde encontros, palestras, a convivência entre alunos e professores já meio que estimula muitas trocas, e não necessariamente dentro de uma sala de aula. Então foi uma influência tangencial, mas produtiva, pois muitos professores também eram escritores e por hábito, faziam revistas ou publicavam em jornais e meio que consegui participar dessas publicações nesta época. Já Itabaiana, por sua geografia humana, além das reminiscências, posso colocar na conta do sonho e da meninice e isso me trouxe esse sedimento que faz a riqueza interior que resulta em imaginação e memória. É claro que não reverte no meu estilo, e sim nos temas, quando quero recuperar algo desse universo, das descobertas, das relações entre os parentes e o povo simples. Minha escrita mesmo é um caleidoscópio das minhas leituras e nem me atrevo a mapear tanto assim.
MK - Você trabalha com microcontos, poesia, literatura infantil e crônicas. Como diferencia seu processo criativo entre esses gêneros?
ARA - Eu confesso que sinto até uma certa dificuldade de mapear estes processos, porque tenho uma tendência de misturar às vezes, e olho para os gêneros com certa desconfiança. É claro que muita mais quando o assunto é o infantil, pois o processo criativo mais puro, de pulsão imprevista e meio bagunçada pega o pensamento mágico que me invade ao tratar com crianças – mas no sentido amplo, incluído a criança que habita na gente.
MK - Entre seus livros (A idade das chuvas, Fábulas portáteis, O rato que roeu o rei), há alguma que tenha sido particularmente desafiadora de escrever ou publicar?
ARA - Não chamaria desafio só para um, ou precisaria dizer que todo livro em algum grau é desafio, pois envolve tantas variantes, tantos empecilhos, além da criação. Acho que desafio mesmo é fazer o livro circular, fazer vender, é esta parte que pega. Em termos de criação, processo de escrita e controle, acho que, quando entro num livro, só saio depois de me livrar. O resto é pedreira, e não se pode procrastinar, ainda que isso não significa que eu precise correr livro por livro, numa agonia de publicar tudo ao mesmo tempo.
MK - Em 2023, você organizou Casa Encantada: o conto fantástico paraibano. Quais critérios guiavam a seleção dos contos e autores incluídos?
ARA - Sendo sincero, o critério é a qualidade, pois decidimos que o tema fantástico abria uma clareira muito vasta e eu não me preocupei em fechar demais numa definição estanque. Os autores foram chegando, embora com uma lista prévia do que já conhecia, pude manter contatos e convites. O resto aparecia, e pode-se avaliar se valia o risco entrar para a antologia.
MK - Como surgiu a ideia de fundar o clube do conto? Quais resultados literários ou troca de experiências você observa entre os participantes?
ARA - A ideia surgiu de uma lista de discussão criada pelo escritor Antonio Mariano. Era uma época pré-rede social, então muito das trocas foram por email. Daí para o presencial foi um pulo, o esse salto aterrissou num café de shopping. A história do Clube passa por esse café, mas o nomadismo chegou também até a gente, e foram vários lugares (escolas, quiosques de praia, bibliotecas). Isso fala muito do lugar em que nos fundamos, o que traria consequência para o modus operandi. As trocas foram boas porque se traduz em gente que escreve e que se lê, e o ganho é imenso. Primeiro, porque promovemos produção literária, com todos os riscos e demandas de um tempo curto. Cada tema gerava uma semana em que se pensava um conto. Depois, o conto, não necessariamente pronto, ia para a faca, para o palpite, para o toque. E mais troca, o que resultava em segurança e aceitação, e alguns integrantes passaram a ter um arsenal até para um futuro livro. Aliás, muitos livros saíram dessa troca, que o diga Maria Valéria Rezende, entre outros. Também se gerou antologias do clube, já no quarto volume. E para não dizer que não paramos, o elemento humano é contínuo, com levas de integrantes, embora também com perdas que a vida ceifou. Isso vale um nome: longevo.
MK - Você ministra oficinas de microcontos e escrita criativa. Qual o principal objetivo dessas experiências para os participantes?
ARA - Eu diria que é levar um maior aporte sobre o que se é capaz de criar com a ferramenta da linguagem, sobretudo na potência do texto breve, que tantos e tantos caminhos se abrem até com um pontapé de frase. Faço microcontos porque me acostumei a pensar curto e direto, mas leio muito mais, e vejo que tem uma imensidão do minúsculo para dar conta. Não é porque não só estamos numa época veloz, mas é para quebrar também o preconceito com a forma breve, neste tempo em que se pensa mais e mais em páginas e catataus como índice de respeito editorial. Então eu elaboro para os alunos estratégias que cabem melhor em oficinas, com mais precisão e direcionamento e isso o texto breve, o haicai, o miniconto, são ótimos e producentes. Isso também cria um vínculo maior de leitura dos autores que trabalham tão bem com essa perspectiva.
MK - O microconto exige concisão e precisão. Qual é o maior desafio em comunicar uma ideia com tão poucas palavras?
ARA - É manter o equilíbrio entre o pouco (palavra) e o que o leitor vai capturar (ambiguidade, ressonância, encantamento). É fazer com que do brevíssimo ele decole para reflexões e questionamentos. É preciso decidir o que vai e o que se corta, é capturar no momento certo a centelha, o estalo, a sacada.
MK - Ao escrever para crianças, como você equilibra entretenimento, estética e uma mensagem educativa ou sensível?
ARA - Acho que o que menos penso é na mensagem educativa, e me concentro no entretenimento. Quando digo entretenimento, a estética meio que segue junto, porque sinto que ela é um plano de fundo em que me movo, até por osmose. Se temos uma boa ideia, se ela funciona, a mensagem pode vir aos pulos, pode se assentar e espalhar seus tentáculos, criando aí suas camadas ou direcionamentos. Como eu equilibro mesmo, eis o mistério.
MK - Como você avalia o cenário literário no Nordeste atualmente? Quais tendências ou autoras/es chamam sua atenção?
ARA - O cenário é dos mais vibrantes, mas como sou testemunha mais do meu rincão, João Pessoa, não tenho o panorama. Aqui mesmo já é difícil mapear, pois escritores tem uma tendência de formar suas ilhas. É precso um trabalho de pesquisador atento para capturar o espírito dessa época e dessa região. Eu diria que a tendência, num mundo em que a internet também atua, é a mesma do resto do país. Com pequenas diferenças, acho. Como se fala na recente treta, a literatura de conteúdo está mais em voga, há também um maior investimento em literatura de testemunho, autoficção. Aqui tudo segue como a banda toca, incluindo essa corrida (pois parece) aos prêmios e eventos. O cenário é rico, mas há excessos também.
MK - Você está trabalhando em algo novo? Há algum tema ou formato que deseja explorar nos seus próximos livros?
ARA - Estou trabalhando em resgates e obras que deixei no caminho. Um livro de viagens (diário português). Eu tenho uma tendência a soltar textos que lá na frente podem ganhar unidade. E sim, desejo imenso pensar numa narrativa mais longa, e não sei quando. Mas desejo.
MK - Seu livro mais recente mistura crônicas com uma pitada de fantasia. Essa transição é um convite à imaginação, qual é o fio filosófico que conecta os textos?
ARA - Sim, o Faz de conta é um balaio, é quase como um almanaque lúdico, e quando me vi coletando crônicas – num estilo mais próprio do gênero, vi que não conseguiria fazer um livro só de crônicas. Então é a tal pegadinha. Quis botar tudo o que posso chamar de crônica, mesmo não sendo. E o tal fio é esse olhar específico, que mistura um lance de dados com as possibilidades da língua, do cotidiano (entra aí influências a la Calvino, Cortázar) e da metalinguagem. E dos trocadilhos.
MK - Em Da existência enquanto gato, há uma filosofia felina, uma sabedoria silenciosa. Que aprendizados você projetou ali sobre o ser no mundo? Ser escritor é mais próximo de ser gato ou cachorro?
ARA - O livro foi um tatear aos poucos no escuro. Na época em que estava na produção, eu criava dois gatos no Sul, com a ex. Também estava mais isolado, época de pandemia. É uma proposta poética de observação que nos coloca nesse Outro, no caso, o outro animal, mas que reverbera e muito nesse espanto que estar vivo. Queria fazer uma poética do gato no estilo dos poemas de Borges, mas com pitadas mais leves, um texto que brincasse com o novelo das palavras. Sou da opinião que há escritores-gato e escritores-cão. (risos). O escritor-gato não tem pressa, não está na vive da correria, e se planta no seu lugar, não é de arroubos, e fica de tocaia. Já o escritor-cão é do tipo que fuça com violência, necessita de ar livre, erra mais e diria que é até mais estabanado. Estou brincando, claro, e nem sei se há contaminação de uma categoria em outra.
Você já escreveu para o público infantil. Há uma leveza no texto, mas também ironia e crítica. Que tipo de adulto você tenta alcançar quando escreve para crianças?
Boa pergunta. O ponto é a intenção, que é misteriosa, ou não tento pensar muito. O que escrevo “para crianças” precisa me trazer alguma recompensa que eu chamo de “minha melhor experiência de leitor”. Não me sinto como se estivesse escrevendo só para crianças, porque muito do que mostro, tem sempre um adulto que curte, seja uma mãe, um tio, enfim, amigos que têm crianças e isso fica misturado. Eu preciso perseguir leveza, o lúdico, mas as camadas podem se acrescentadas, até que o texto fique apto a ter consistência para não ficar apenas no infantil (o que não considero numa escala de valor menor). No texto para crianças é o adulto que tem que entender que ser criança lendo é a maior honraria que ele pode alcançar. Chamar um leitor de criança é um baita elogio pra mim.






