João Matos

Créditos da imagem: Gertrude Abercrombie,1909- 1977

Importa conhecer os autores que lemos e pesquisamos? Eu responderia essa pergunta com uma negativa, não por acreditar cegamente na morte do autor – como vaticinou Barthes –, mas por entender que a quantidade de informações e conteúdos produzida pelos próprios autores, e também sobre eles, já forma um bom arquivo de investigação. Mas, quis o destino que eu fosse à última edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Assumindo uma responsabilidade (quase) jornalística, lá fui eu acompanhar de perto nomes que já interessaram e ainda interessam a mim e ao Leituras Contemporâneas

No primeiro dia da festa, assisti à mesa da qual participava a escritora Natalia Timerman, comentando seu último romance “As pequenas chances”. Quando perguntada sobre a relação entre a ficção e a realidade nas imagens produzidas em seu romance, Timerman recorreu a uma anedota sobre um dos trechos da narrativa – quando ela vai com seu pai para uma peça no Teatro Oficina antes dele falecer. A autora contou que, ao chegar na arquibancada do teatro, deu de cara com o “Pedro” – personagem do romance “Copo vazio” – e que esse acontecimento teria ficado fora da narrativa por uma decisão editorial. Ao final, a autora destacou a capacidade da ficção de “fazer mundos” e que seu principal intuito na narrativa estava relacionado ao luto.

Chamou minha atenção a quantidade de mesas que a autora participou debatendo o mesmo tema: o luto. Lembro que, quando sua obra tinha acabado de ser lançada, no ano passado, a recepção crítica comentava a obra e sua relação com a autoficção. 

Mas a autoficção seguiu aparecendo como mote de algumas discussões, como a mesa que envolvia Gabriel Abreu, autor de “Triste não é ao certo a palavra” – um livro que faz parte da minha investigação de mestrado. Abreu, interessado na exploração de formas e outras linguagens artísticas na composição de sua produção literária, afirmou que mesmo que seu livro tenha documentos, “é possível ler tudo como ficção”,  justamente porque a ficção seria uma forma de “aumentar a realidade”. 

Mas como Abreu encara a relação da autoficção com o romance? Perguntei e ele respondeu:

  Como leitor e escritor eu acho que o romance, assim como a dramaturgia, é inesgotável. Ele está constantemente em disputa. Eu acho que a “autoficção” é um tema que foi um pouco desgastado, por causa dessa última leva, desses últimos anos, dessa tendência de escrita de si, mais a partir da experiência pessoal (Annie Ernaux, Édouard Louis) […] Mas eu acho que, nesse sentido, é importante nos lembrarmos da parte da ficção do termo (“autoficção”), porque é entender e explorar como a ficção pode habitar também o lugar da escrita de si, como ela pode contribuir para o romance e continuar desdobrando ele. […] A ficção não como mentira ou algo oposto da realidade, mas como essa possibilidade de aumentar a realidade, de estendê-la, de levar a gente para outro lugar de leitura dessa mesma realidade.

A última atração que acompanhei foi também uma das principais de toda a festa, o escritor francês Édouard Louis. 

Vale destacar que o escritor foi apresentado nas redes sociais da própria festa como “expoente da autoficção”, mas, ao longo da discussão, o termo praticamente não foi mencionado por Louis ou por seu mediador – o jornalista Paulo Roberto Pires. Por outro lado, a mesa tematizou bastante a autobiografia de Louis e os acontecimentos que marcam sua produção literária: as transformações experimentadas pelo escritor – que vão desde aspectos da sua aparência física até sua classe social e nome próprio – e a aproximação com suas leituras e seus pares intelectuais, como o filósofo Didier Eribon. 

Retomando a pergunta que deu início ao texto, chego à conclusão que esses eventos podem ser interessantes para observar um panorama geral em que se inscrevem os autores e as obras que lemos, e consequentemente refletir sobre suas tomadas de posição em meio às tensões e transformações que estão acontecendo na literatura. A impressão que fica é de que a produção literária do nosso tempo toma como norte a exploração do autobiográfico e do não-ficcional, no entanto, a demanda mercadológica reivindica a preservação do entendimento da literatura como ficção, invenção de personagens, histórias e mundos.