Madame K - Frazão, você é artista visual, poeta e editor. Quando olha para a própria trajetória, como essas três dimensões se articulam? Há uma que funciona como motor das outras?
Marcelo Frazão - Sempre fui inquieto e curioso a respeito das mais diferentes coisas e assuntos. A primeira dessas personas a surgir em mim foi a do poeta. Isso, por volta dos meus dez anos de idade, após ler Cecília Meireles na escola. Eu tinha uma professora, a Dona Didi Feijó, que me incentivava muito. Eu preenchia vários dos meus cadernos com dezenas de poemas. Infelizmente, eles acabaram se perdendo. Depois, veio o artista visual. Começou também criança, aos 12 anos, “decorando” as paredes de casa. Na minha família, não havia tradição de pessoas com vocação artística, queriam que eu tivesse uma profissão “séria”. Mas, mesmo sem receber incentivo, essa paixão represada acabou se constituindo no objeto de minha formação acadêmica, vindo a se desdobrar nas figura do curador de exposições e na do professor universitário. O último a surgir foi o editor, que catalisou as duas paixões anteriores. Refletindo um pouco, acredito que essas três dimensões se deem em perfeita simbiose, mas que a força motriz sejam as artes plásticas.
MK -Sua formação em Gravura e em Ciência da Arte acompanha toda a sua produção. Que marcas dessa formação você percebe hoje na sua poesia, especialmente na relação entre imagem e palavra?
MF - A gravura está comigo sempre, embora hoje minha fé nas artes plásticas se encontre abalada. Esse casamento das artes visuais com a literatura aconteceu profissionalmente a partir de 1994, com o lançamento de uma plaquete em parceria com uma amiga escritora. Em razão desse lançamento, criamos uma pequena editora, a “Impressões do Brasil”, que publicou dez álbuns com tiragens limitadas, sempre acompanhados de uma gravura original. Publicamos trabalhos de escritores como Armando, Freitas Filho, Ferreira Goulart e João Gilberto Noll ao lado de gravadores como Kazuo Iha, que é meu mestre Jedi e foi meu professor na Belas Artes, Edineusa Bezerril, entre outros. Ter Kazuo como professor foi um divisor de águas em minha vida. Em decorrência dessas experiências, a principal característica da minha poesia reside na sua imagética ou visualidade. Ao escrever um poema, preocupo-me inicialmente com a imagem a ser projetada na cabeça do leitor, só depois trabalho a sonoridade. Desejo que o leitor consiga visualizar sensações provocadas pela combinação e jogos de palavras.
MK - Como a mudança geográfica e cultural transformou sua produção artística e literária?
MF - Passou um filme na minha cabeça agora. Atrás de uma mudança visível, tem sempre inúmeros fatores que impulsionam a mudança de fato. Vim pra Salvador com cinquenta e três anos, depois de ter vivido meio século no Rio (risos). Foi uma mudança radical, inesperada. Eu sempre fui atento aos sinais que a vida emite. São como sinais de trânsito. Se está vermelho, não adianta insistir em ultrapassar. E Salvador foi um grande sinal verde, uma experiência feliz. Não tem como não se deixar influenciar pela cultura desta cidade. Ela me trouxe informações culturais completamente novas relativas à sua história de formação, sua gente, valores e religiosidade. Algo que só se descobre vivendo aqui, pois Salvador se mostra outra aos turistas apressados.
MK - Um marco importante da sua carreira é Anima Animalis, parceria com Olga Savary, premiado com o APCA de Poesia. Como nasceu esse projeto e o que esse prêmio representou para você naquele momento?
MF - Eu já havia trabalhado com o Armando antes da Olga. E, antes do Armando, outros escritores haviam me convidado para participar de seus projetos, mas que, por falta de afinidade, não saíram do papel. A imagem precisa dialogar com o texto em pé de igualdade e não se reduzir a uma ilustração fugaz. Se não for assim, não funciona. Acaba virando um apêndice, uma coisa menor, uma distração. Olga, sempre foi uma amiga querida e uma pessoa generosa. Eu estava preparando uma exposição individual, que se chamava “Anima animalis”, misturando técnicas de xilogravura e gravura em metal. Como o nome indica, minha ideia era capturar a alma dos animais. Eu achei que dali poderia surgir um livro interessante. Então eu mostrei as gravuras pra Olga. Ela adorou o trabalho e sugeriu que eu selecionasse apenas bichos brasileiros. Depois de ver o resultado, ela resolveu escrever um poema para cada uma das gravuras que mais a impressionaram. Assim aconteceu nossa parceria. Tudo de forma espontânea. E vencemos o APCA com o livro. Na época da premiação, eu estava em Lisboa. Não compareci ao evento. Quem me conhece sabe que sou tímido. Acho que não iria mesmo se estivesse no Brasil. Prêmios são interessantes, na medida em que dão visibilidade ao trabalho e ajudam a atingir um público maior, mas sabemos que nem sempre são justos. Há quem trabalhe em função da lógica das premiações. Eu não sou assim. O trabalho tem que me estimular e dar prazer por si. Eu não esqueço de uma coisa que Carlos Scliar, após escrever o texto para o catálogo de uma minha individual no MNBA, em 1999, me disse: “O artista não tem que ter compromisso com nada nem com ninguém.” Essa frase se tornou um mantra para mim.
MK - Você também tem uma longa parceria com Armando Freitas Filho, em livros como Loveless e Erótica. O que essas colaborações ensinaram sobre o ofício de escrever e sobre o diálogo entre vozes poéticas?
MF - As parcerias com Armando e Olga foram muito significativas. Aprendi muito com eles. Na preparação do “Haikai”, meu primeiro livro, Olga foi praticamente a minha editora. Lembro-me com muito carinho de ela compartilhar conselhos que Drummond havia passado pra ela. Inclusive, tenho alguns bilhetinhos guardados, onde ela me dá várias dicas do que cortar, o que manter, ficar atento ao ritmo, aos possíveis significados das palavras, “cortar as gordurinhas”. Foi uma aula. Já o Armando, devo a ele a volta à poesia depois de um longo hiato sem escrever. Nosso primeiro trabalhou, “Loveless”, me inspirou. Daí, surgiu o livro “Homo Sapiens Sexualis”, que ficou engavetado por um tempo. No começo, escrevi os poemas e preparei uma série de gravuras para ele. Mas, na hora de editar, achei que a coisa tinha ficado parecida com um disco do Prince, onde ele compõe todas as músicas, toca todos os instrumentos e produz. Então, resolvi dividir o projeto em dois. Peguei as gravuras, engavetei os poemas e fui visitar o Armando. Ele gostou das imagens e sugeriu utilizá-las em um livro com poemas dele, constituído de onze publicados e um inédito, que se chamaria “Erótica”.
O Centro Cultural Caravelas, em Botafogo, onde ficava a sede da editora Velocípede, organizou um evento com a exposição das gravuras originais e o lançamento do livro. Na abertura, encontrei o Álvaro de Sá. Depois de várias taças de vinho, perguntei a ele se não gostaria de escrever um prefácio para o meu livro. A resposta foi: “Frazão, vou ser muito sincero com você. Me manda as poesias, mas eu só faço, se gostar.” Fiquei temeroso. O Álvaro era convidado a ir a Portugal dar palestras sobre Camões. Olha a responsabilidade! Para minha sorte e surpresa, ele gostou. O prefácio ficou tão bonito, que me encorajou a publicar. Convidei um amigo querido, o Paulo Villela, para fazer os desenhos. Enviei para três editoras no Rio. Uma não respondeu. Outra, me disse que topava, mas sem as ilustrações, o que para mim era inadmissível. A terceira recusou. Então, publiquei pela Villa Olívia. Não fosse o estímulo do prefácio do Álvaro, talvez o “Homo Sapiens” nunca tivesse saído da gaveta.
MK - Ao longo da vida, você transitou por diferentes formas de erotismo literário, do mais explosivo ao mais metafísico. O que continua te instigando nessa zona de encontro entre corpo, linguagem e desejo?
MF - O erotismo é uma coisa que não me deixa (risos). Pra você ter uma ideia, estou trabalhando num outro livro de poesia, o segundo de uma trilogia, que começou com “Cinco rios”. Este segundo livro é um réquiem. Tem momentos em que falo do corpo. O erotismo, no meu trabalho, surge com o entendimento de Eros como uma força mobilizadora que rege, une e mantém vivo os seres. É a procriação dentro da criação. A continuidade das espécies. Um software que já vem instalado na programação animal. O outro lado é Tânatos, a morte, a outra face da mesma moeda. Então, não consigo falar de morte sem falar de erotismo. Mesmo no “Cinco rios” há uma carga de sensualidade e desejo. O Homo Sapiens Sexualis é erótico e às vezes beira o pornográfico, pois é preciso dar nome aos bois e descrever o ato. Porém, nunca de forma chula ou óbvia. Embora as fronteiras entre sensual, erótico e pornográfico sejam difusas para muitos, na minha cabeça esses territórios são bem delimitados.
MK -A Villa Olívia, que começa como casa/ateliê e se transforma em editora, ocupa hoje um lugar importante na cena literária baiana. Como você define o projeto editorial da Villa Olívia e o que busca na escolha de autores e coleções?
MF - Hoje a Villa Olívia, que já possui mais de 25 anos de atividade, tem como fonte de inspiração, guardando as devidas proporções, a Massao Ohno e a City and Lights dos primeiros anos. Publico o que eu gostaria de ler. Geralmente, textos em que as grandes editoras não apostariam, por não enxergarem nelas um potencial lucrativo . Além disso, tenho uma grande preocupação com a qualidade do projeto gráfico, com a apresentação e a identidade a ser transmitida no objeto livro. Quanto à escolha dos originais, temos um pequeno conselho editorial composto por cinco membros: eu, o escritor Lima Trindade, que assina algumas publicações como editor ou subeditor, e três profissionais do ramo que se alternam e preferem ficar anônimos. Em relação às coleções, só posso dizer que em 2026 teremos novidades.
MK - A editora tem uma estética muito própria, com atenção ao design e ao livro-objeto. Para você, o que caracteriza um livro bem resolvido graficamente, sobretudo no campo da poesia?
MF - Oitenta e cinco por cento do que leio hoje é poesia. A poesia é meu oásis dentro da literatura. Sou um leitor chato, exigente. Para mim, independente do gênero escolhido, a capa deve, de alguma forma, comunicar ao leitor o que ele vai encontrar naquele livro. Eu sou da velha escola em relação a este pensamento. O livro precisa ter capa bonita ou, no mínimo, neutra. Uma capa sem cuidado estético afasta o leitor – espécime cada vez mais raro no país. Já o miolo, deve possibilitar uma leitura confortável aos olhos. Cada projeto pede uma solução específica. Quanto à tipologia, um livro nunca deve se parecer com um mostruário de possibilidades.
MK - Em paralelo ao trabalho de editor, você segue publicando livros autorais, como Haikai, Homo Sapiens Sexualis e E nada pode ser feito quanto a isso. Como enxerga a evolução da sua voz poética ao longo dessas obras?
MF - Houve um hiato de vinte anos entre o “Homo Sapiens” e o “E nada pode ser feito quanto a isso”. As pessoas me perguntavam quando seria o próximo. Eu não queria publicar apenas por publicar. Em 2019, no lançamento comemorativo do “Erótica”, com Armando, também teve uma exposição com as gravuras originais do novo livro, no Centro Cultural Correios, no Rio. Essa exposição ocorreu paralela a outra comemoração com a escultora Marina Vergara – fizemos nossas primeiras individuais juntos. Ela me pediu um texto para a exposição que acabou virando um poema que está no “E nada pode ser feito…” Desde então, tenho escrito compulsivamente. Quanto a evolução da minha voz poética, é difícil definir se houve ou não evolução, prefiro deixar esse julgamento para os leitores. O que posso dizer é que o amadurecimento, a leitura de poesia e a troca com outros poetas fazem parte do processo de retorno à escrita.
MK - Agora você lança Cinco Rios, um livro que nasce da escuta de Orfeu e Eurídice e de uma tensão com a narrativa bíblica de Sodoma e Gomorra. Como esses dois imaginários — o mito grego e a Bíblia — se encontraram e deram origem aos poemas?
MF- Isso é bem complexo. São aquelas “viagens”, delírios que fazemos. A ideia surgiu em 2022, ao ouvir Orfeu e Eurídice de Gluck. A descida de Orfeu ao Hades guarda um paralelo com a historia bíblica sobre a destruição de Sodoma e Gomorra. Orfeu e Lot receberam a mesma recomendação:“não olhar para trás”. Ambos os fins são trágicos. É sobre este mistério, estar preso ao passado, a certeza das limitações do corpo e da vontade, que surge a ideia de “Cinco rios”. Nos poemas, as respostas para estes enigmas chegam através da consciência dos limites do corpo ao analisar sentimentos como perda e tristeza. Ao indagar sobre a leitura do mundo, que nos chega através dos sentidos e pela ilusão do livre arbítrio. Mas não espere encontrar Orfeu, Eurídice ou a narrativa bíblica de Sodoma e Gomorra explicitada no livro. Estas referências servem para analisar a questão do corpo, que é um dos pontos centrais do livro: a descoberta do corpo, dos cinco sentidos, uma analogia com os cinco rios do inferno, o tangível e o intangível.
MK - Em Cinco Rios, corpo, memória e espiritualidade aparecem entrelaçados. Que perguntas esse livro te permitiu fazer — ou enfrentar — que seus livros anteriores ainda não tinham permitido?
MF - As perguntas que sempre fazemos depois dos cinquenta anos: O que estou fazendo aqui? Para onde vou? Mas o pior não são as perguntas. São as respostas. É descobrir que aquele inferno hipotético, que alguns poetas já descreveram, é aqui e agora, que somos carne e talvez nada mais. E o pior: iremos pra lugar nenhum. Mas como canta Chico: “Não se afobe não, que nada é pra já!” “Cinco rios” é um livro bem diferente dos anteriores. Aambientação e o título sugerem um mundo de águas, mas vai além. As águas dos rios encontram o corpo e o corpo se deixa submergir e experimentar diversas sensações enquanto as águas se misturam. Se, num primeiro instante, a epígrafe do livro evoca os rios do inferno, no decorrer da leitura espero que o leitor perceba os afluentes não descritos, que emergem das entrelinhas e da passagem da água de um estado a outro. Cada poema é uma porta de entrada no labirinto e sugere uma saída que é a passagem para outro labirinto – o percurso de cada corpo em seu tempo e espaço, como o percurso das águas, a busca pessoal pelo conhecimento ou a fuga de todo e qualquer conhecimento, com isso problematizo a relação de busca e vazio com que somos confrontados diariamente.
MK - Por fim, olhando para sua trajetória como artista, poeta, editor e articulador de cenas literárias, que novos projetos ou “sexto rio” você ainda deseja criar nos próximos anos?
MF - Como disse, tenho escrito compulsivamente. Estou com quinze livros de poemas na gaveta. Não sei se verão a luz do dia (risos). “Cinco rios” surge como proposta de uma trilogia a pensar o corpo, a morte e o inferno. Estou me dedicando ao que poderá ser o segundo volume, “Réquiem”. Em meio a isso tudo, para não enferrujar o traço, colaboro no jornal Rascunho como ilustrador – o que me dá grande alegria. Há a quarta temporada de TODO POEMA É UM FILME, no canal da Villa Olívia doYoutube e os lançamentos futuros da editora, que é minha cachaça. Porém, como diz a canção, “e no balanço das horas tudo pode mudar.”





