Coração sem medo, 345 páginas, é da Todavia

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Rita descobre que seu filho mais velho, Cid, desapareceu. O livro conta sua busca por esse filho, de um lado para o outro em Salvador. Em busca de informações, ela vai a um hospital, a uma delegacia, depois a outro hospital, outra delegacia, ao necrotério, à escola… Faz aquela peregrinação por repartições públicas que é tão conhecida dos brasileiros. A princípio ainda tenta manter seu emprego, mas depois precisa negociar uma demissão para poder ter tempo de continuar a procura pelo jovem.

A história de Rita recebe alguma atenção da mídia, ela aparece nos jornais e na televisão. Uma vizinha afirma que viu o menino ser levado pela polícia militar. A polícia civil começa a investigar o desaparecimento, a Anistia Internacional oferece ajuda legal. A notoriedade lhe traz ameaças de morte e ela precisa ir embora. Decide voltar à fazenda onde nasceu e, paralelamente, resgatar um pouco a história da família. Quando adolescente, sua mãe saiu da fazenda para tentar ganhar a vida e, depois que seus irmãos morreram, levados pela correnteza de um rio, Rita foi enviada pela avó para a cidade, onde viveria como empregada doméstica e depois teria uma série de empregos mal remunerados e daria à luz três filhos, de três pais diferentes.

O autor procura usar a história de Rita para pintar um panorama da dificuldade da vida da camada mais pobre da população brasileira, em particular das mulheres. especialmente as negras. Ele faz isso bem, apesar de forçar um pouco a mão na hora de criar uma suposta continuidade entre as vidas de Rita, sua mãe, sua avó, etc., como se as dificuldades de hoje fossem pouco diferentes das dificuldades enfrentadas por escravos ou por recém-libertos, ou por quaisquer negros que já viveram. A expressão “sua gente”, por exemplo, faz hora extra no texto e termina mais cansada que a própria Rita.

A protagonista na verdade é chamada o tempo todo de Rita Preta. Qual o motivo dessa especificação cromática? Ela é muito preta? Não. É o seguinte: “nos primeiros tempos ganhou a alcunha Preta para se diferenciar da patroa, também chamada Rita, mas que se considerava pertencente a uma casta superior.” Então ela era chamada de Rita Preta na casa da família onde trabalhava, pois havia ali uma Rita que era branca. Ok. Mas por que cargas d’água a moça depois levaria esse apelido para o resto da vida? Inexplicável.

A trama em si é boa. A jornada de Rita (“Preta”), primeiro atrás de Cid, depois atrás apenas de informações, tem seus altos e baixos, seus dramas, sua tensão, dá origem às reflexões que Vieira quer apresentar sobre a sociedade, que trazem lá o seu interesse. Ademais, Rita é uma boa personagem, realista, com virtudes, defeitos, personalidade. O problema do livro é o texto mesmo, é a parte técnica da escrita, que tem várias fraquezas.


Um dos defeitos é a falta de traquejo ao tentar evocar imagens. O primeiro parágrafo já acende alguns alertas:

Fazia muito tempo que Rita Preta não recordava o infortúnio que marcou sua vida de maneira definitiva, e assim continuaria não fosse a chuva repentina que transformava, à sua frente, o espaço entre a avenida e o meio-fio num pequeno riacho. Era sempre assim: imagens que despertavam memórias distantes, boiando e submergindo na corrente das lembranças. A água arrasta folhas secas, sacolas plásticas, fragmentos de objetos, papéis e até mesmo pequenos animais

Falar em “pequeno riacho” é redundância, pois a palavra “riacho” já denota um rio pequeno. Dizer que a água arrastava “fragmentos de objetos” é muito genérico. Quais objetos? Não dá nenhum exemplo? “Pequenos animais”? Seriam ratos? Gatos? Baratas, talvez? Mas esses bichos não são espertos em fugir de chuva?

Outro exemplo: “Rita imagina que todos, assim como ela, estão entretidos com seus mundos, refletindo sobre assuntos que precisam ser ou não decididos. Todos imersos numa miríade de pensamentos que costumam ocupar os dias de seus semelhantes.” Seria um desafio conseguir escrever algo mais inane. Quer dizer que as pessoas estão envolvidas em seus próprios pensamentos? Não me diga.

Logo depois: “Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos, e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo.” Dizer que as histórias de uma pessoa estão reunidas em suas memórias é dizer nada.

A certa altura, Rita anda a esmo pela favela, por caminhos que nunca tomara. O que ela vê durante sua caminhada? “carros abandonados, pequenos montes de lixo, vasos de plantas.” O autor não consegue dar detalhes.

A luz é elemento descritivo recorrente, mas sem muita criatividade: “a luz atravessava o céu de um dia nublado”, “a mesma luz que a acompanha invade o cômodo da sala”, “a luz penetra abundante na sala”, “a luz entra pelo basculante”, “a luz penetrando o vidro da fachada”, “a luz que penetra pela fresta da janela”, “a luz da manhã se insinua pelas frestas da janela”, “a luz incide na construção”, “uma luz especial toca o ambiente”, “a luz de um dia ensolarado”, “refletindo a luz de um dia ensolarado”, “a nesga de luz que atravessava o telhado”, “a nesga de luz que entra através do vigia”.

O rio também: “O fluxo se torna então o rio da infância”, “o rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes”, “depois, o rio, a morte”, “o sangue correndo como rio em suas veias”, “um sinal para poder tocar seu corpo, onde possa desaguar como um rio”, “um caminho, tornado rio”.

Outro defeito é o uso meio capenga da língua, que se esforça numa direção que se pretende poética mas que resulta em construções tortas, imagens banais, frases triviais ou sentimentais.

“O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos.”

“As crianças saltam nas águas do rio como se trotassem um cavalo alado.”

“todos os que vivem nascem em algum pedaço de chão.”

“Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará quando ele voltar.” (como se pode ensaiar um discurso de maneira involuntária?)

“o medo parece servir à autoproteção.” (não diga)

“Rita Preta tem a crença nos laços que a unem aos filhos, e por sua vez a todos os seres em todos os tempos, memória de seu corpo vivo.”

“Rita e Fátima experimentavam os condimentos, o sal, para que a comida fosse agradável ao paladar de quem se alimentaria dela.” (meu deus)

Sobre o encontro entre Rita e o pai de Cid: ela “encontrou o jovem, também migrante do campo”, enquanto ele, por sua vez, conheceu “uma jovem sem família, também oriunda do campo”.

No capítulo 11 temos “quantas pessoas, para sobreviver, precisam dominar seus medos” e, uma página depois, “quantos tiveram que controlar o medo para continuar vivendo”.

O terceiro defeito é o didatismo. Quando um autor confia na inteligência do leitor, ele pode dizer apenas que o personagem foi dormir, ou decidiu comer alguma coisa. Itamar sempre diz que alguém foi dormir porque estava cansado, que comeu algo porque teve fome, que continuou a busca porque ainda tinha esperança, que não enfrentou um perigo porque teve medo.

Eis o que ele diz sobre a dificuldade de pessoas pobres acharem um cômodo para alugar: “Quando o local parecia bom e não precisava de reforma, o aluguel era alto. Em contrapartida, os locais mais baratos eram também os mais precários”. Isso é o óbvio ululante, Itamar, não existe quem não saiba disso, meu filho.

Outro exemplo: ao ser abandonada pelo marido, “Rita entendeu que estava sozinha outra vez: para as despesas da casa, para educar e amparar o filho. Sentiu receio de não ser capaz de dar conta de todas as responsabilidades”. É claro que uma mulher pobre vai sentir esse receio. Eis o óbvio de novo. Não basta para a literatura dizer coisas verdadeiras, isso qualquer relatório pode fazer. Se for dizer o óbvio, faça isso ao menos com algum estilo, alguma originalidade.

Duas machadadas.

(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)

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