Vento em Setembro, 292 páginas, é da Cia. das Letras

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O livro é estruturado em capítulos bem curtos, de duas ou três páginas. Em parceria com as amplas margens, a constante troca de capítulos cria um monte de espaços em branco, que colaboram para encher as quase trezentas páginas e dar a impressão de obra volumosa.

A história é impossível de resumir, cheia de eventos e pequenas reviravoltas.

Máximo, um fazendeiro, faz uma festa para o filho, Alexandre. Contrata uma garota de programa, Laura. Alexandre some, depois é encontrado. Depois quer virar padre, mas desiste. O outro filho, Winston, transa (ou não transa?) com Laura. A garota tem um irmão gêmeo, Laércio, que está viajando pela Itália com o fotógrafo Yanis. Por sua vez, Cassandra, mulher de Máximo, se envolve com o professor Mario Sérgio. O terceiro filho de Máximo, Cesar, se mata, e Winston e Cassandra vão atrás de uma mensagem dele com Chico Xavier. Décadas depois, Davi está encucado com umas pichações que apareceram numas igrejas e que parecem endereçadas a ele. Quem fez essas pichações? O que essa pessoa quer? Laura teve um filho? Quem é o pai? Telepatia existe? O que uma coisa tem a ver com a outra?

A narração é frenética, trocando de personagem, de lugar, de época, de assunto, a cada poucas páginas. Nenhum personagem tem um desenvolvimento adequado, vários coadjuvantes aparecem e somem, os fios soltos se acumulam, as tramas paralelas competem por atenção, citações pop-literárias abundam, a coisa toda é uma salada, que no final precisa ser explicada em detalhes senão ninguém entenderia bulhufas.

Davi é autor de um livro sobre Aleijadinho, publicado por uma editora pequena e que “não vendeu nada, mas recebeu algumas críticas razoavelmente positivas na imprensa.” Tony Bellotto é tão fora da realidade que acha que um livro de autor desconhecido, publicado por editora pequena, e que não vendeu nada, vai ser objeto de “críticas” (no plural) na imprensa.


A escrita em si é ginasial.

O mundo dos homens é cheio de regras e de sangue

Mulheres podem ser inconvenientes, mas não se faz uma orgia sem elas

fizeram amor de forma desajeitada mas intensa

Saí para a rua, não havia táxis parados no ponto, acionei o Uber. Enquanto esperava, fiquei observando pedestres e carros que passavam pelo asfalto

Chamados selvagens não costumam obedecer às regras da razão

A religião católica sempre me pareceu misteriosa e sobrecarregada de dor, culpa e enigmas

Jacques ansiava pelas graças de Apolo, mas acabou vítima das artimanhas de Dionísio

Máximo e Cassandra se deparam com o filho morto. Cena terrível, certo? Eis como o autor se desincumbe dela: “Quando chegaram ao quarto, o cheiro de pólvora se misturava ao de sangue, e nunca mais eles conseguiram se desvencilhar do redemoinho de dor e de culpa em que caíram”. Eis tudo.

O fazendeiro exige que a prostituta aborte uma gravidez. Que sentimentos isso provoca nela? “Aquilo a magoou profundamente”. Ela decide ter o filho. Decisão importante, que tem consequência: “A maternidade a tinha transformado e feito com que ela desenvolvesse uma autoestima mais responsável”.

“A dor parecia comprimir seu peito e apertar seu cérebro com a força de um torno mecânico.” Afora o clichê, é engraçado notar que nem autor, nem editor, nem revisor jamais entraram numa oficina mecânica (tornos não servem para apertar).

Dois adolescentes que se amam são separados inesperadamente. Material para muito drama? Que nada. Uma linha: “Lívia e Alex sofreram com a separação abrupta, pensaram que iriam morrer de amor”.


Este é um daqueles livros “mornos” que eu já critiquei numa resenha anterior (clique aqui para ler). É um livro que nos faz questionar qual era o intuito do autor ao escrevê-lo. Explorou a psicologia dos personagens com profundidade? Não. Abordou algum drama que representasse a condição humana? Não. Fez rir? Não. Tem um contexto histórico interessante? Não. Usa a língua de forma criativa? Não. Tem uma trama bem construída? Não. Por que diabos alguém perderia meses escrevendo isso? Que ainda por cima ganhe prêmio é um escárnio.

Três machadadas.

(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)


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