Daniel Galera – Barba ensopada de sangue – semana II

Obra Barba ensopada de   sangue
Autor Daniel Galera
Data 2012
Semana II
Cadê a Vê um nariz batatudo, reluzente e   esburacado como uma casaca de bergamota. Boca estranhamente juvenil entre   queixo e bochechas tomados por rugas finas, pele um pouco flácida. Barba feita.   Orelhas grandes com lóbulos maiores ainda, parecendo esticados pelo próprio   peso. Íris da cor de café aguado no meio de olhos lascivos e relaxados. Três   sulcos profundos na testa, horizontais, perfeitamente paralelos e   equidistantes. Dentes amarelados. Cabelos loiros abundantes quebrando numa   única onda por cima da cabeça e escorrendo até a base da nuca. Seus olhos   percorrem todos os quadrantes desse rosto no intervalo de uma respiração e   ele pode jurar que nunca viu essa pessoa na vida, mas sabe que é seu pai   porque ninguém mais mora nessa casa desse sítio em Viamão e porque ao lado   direito do homem sentado na poltrona está deitada de cabeça erguida a cadela   azulada que o acompanha faz muitos anos.
[…]Senta aí, diz o pai   acenando com a cabeça para o sofá branco de dois lugares, imitação de couro.
É início de fevereiro e, independente do   que alegam os termômetros, a sensação térmica em Porto Alegre e arredores   está acima dos quarenta graus. Ao chegar viu que os dois Ipês que montam   guarda em frente à casa estavam carregados de folhas e padeciam no ar parado.   Na última vez em que esteve aqui, ainda na primavera, suas copas floridas de   roxo e amarelo tremiam no vento frio. Ainda dentro do carro passou pela   parreira cultivada à esquerda da casa e avistou numerosos cachos de uvas   miúdas. Dava para imaginá-las transpirando açúcar após meses de seca e calor.   O sítio na tinha mudado nada nesses poucos meses, nunca mudava, um retângulo   plano tomado de capim à beira da estrada de terra, com o campinho de futebol   jamais utilizado entregue ao desleixo habitual, os latidos irritantes do   outro cão na rua, a porta da casa aberta.
Cadê a caminhonete?
Vendi.
Por que tem um revólver na   mesinha?
É uma pistola.
Por que tem uma pistola na   mesinha?
[…] Como vai a vida,   filho?
E esse revólver? Pistola.
Tu parece cansado.
  Tô meio cansado, sim. Tô   treinando um cara pro Ironman. Um medido. O cara é bom. Ótimo nadador, tá se   virando bem no resto. […] Só que ele é chato pra caralho, tenho que   aguentar. Tenho dormido pouco, mas vale a pena, ele paga bem. Continuo dando   aula na piscina. Consegui finalmente consertar a lata do meu carro esses   dias. Tá zerado. Gastei dois paus. E mês passado fui à praia, passei uma   semana no Farol com a Antônia. A ruiva aquela. Ah é, tu não chegou a   conhecer. Tarde demais, a gente brigou lá no Farol.
  […] Esse Farol de Santa   Marta é lá pros lados de Laguna, Né?
É.
Giram as tampinhas de suas   long necks, o gás escapa dos gargalos com interjeições de desdém, brindam a   nada específico.
Me arrependo de não ter   ido mais a esse litoral catarinense. Todo mundo ia nos anos setenta. Tua mãe   ia antes de me conhecer. Eu que comecei a levar ela pro sul, Uruguai, coisa e   tal. Essas praias lá me davam um pouco de agonia. Meu pai morreu pra esses   lados de Laguna, Imbituba. Em Garopaba.
Leva alguns instantes para   perceber que se trata do avô, morto antes dele nascer.
O vô? Tu sempre me disse   que não sabia como ele morreu.
Eu disse?
Várias vezes. Que não   sabia nem como nem onde ele tinha morrido.
  […] O pai diz que ele e   o avô não eram semelhantes apenas no sorriso, mas em numerosos aspectos   físico e de comportamento. Que o vô tinha esse mesmo nariz, mais estreito que   o dele próprio. O rosto meio largo, o olhos meio afundados no crânio. A mesma   cor de pele. Que aquele sanguezinho indígena do avó tinha pulado do filho e   caído no neto. Esse teu porte atlético, diz o pai, pode ter certeza que vem   do teu avô. Era mais alto que tu, devia ter um e oitenta. Naquela época   ninguém fazia esporte assim como tu faz, mas do jeito que teu avô cortava   lenha, domava cavalo, capinava, ele deixava no chinelo esses triatletas que   tem hoje.
[…] Teu vô era meio   quieto assim que nem tu. Sujeito calado e disciplinado. Não era de encher linguiça,   falava só quando precisava e se irritava com os outros quando falavam demais   no ouvido dele. Mas a semelhança para por aí. Tu é mansinho, educado. Teu vô   tinha pavio curto. Ô velho desaforado. Era famoso por puxar a faca por   qualquer coisa. O homem ia ao baile e brigava. E até hoje eu não entendo como   ele arranjava briga, porque bebia pouco, não fumava, não jogava e não se   metia com mulher. A tua vó quase sempre saía junto com ele, e é engraçado.   Ela parecia não se importar com esse lado violento dele. Ela gostava de ouvir   ele tocar. Ele era um violeiro e tanto.
[…] Não lembro dele ter   voltado pra casa, também. Fora quando levou o tiro.
Tiro.
Ele levou um tiro na mão.   Isso eu já te contei.
É verdade. Perdeu os   dedos, Né.
  […] O que acabou mesmo   com ele foi quando tua vó morreu de peritonite. Eu tinha dezoito anos. A vida   nunca mais foi a mesma, tanto pra mim quanto pra ele.
  O pai faz uma pausa e bebe   um gole de cerveja.
  Vocês saíram da chácara   depois que a vó morreu?
Não, vivemos mais um tempo   lá. Uns dois anos. Mas tudo começou a ficar estranho. Teu avô era muito   apegado à tua vó. Era o homem mais fiel de que tenho notícia. […] E a gente   começou a se afastar, eu e ele. Não por causa disso, claro, embora nossas   convicções de como lidar com a mulherada fossem conflitantes. Mas a gente   começou a brigar.
E foi aí que tu veio pra   Porto Alegre?
Foi. Eu vim em sessenta e   cinco. Tinha recém-feito vinte anos.