Casa de família, 296 páginas, é da Cia. das Letras
Narrado em primeira pessoa, o livro vai e volta no tempo conforme a protagonista rememora momentos importantes de sua vida, principalmente sua adolescência, quando a mãe passou a viver acamada e na cadeira de rodas por desenvolver o que depois descobrimos ser esclerose múltipla. A família passa por dificuldades financeiras, pois o pai não ganha muito e não têm plano de saúde. Parte do salário do pai é usado para pagar cuidadoras, empregadas domésticas que residem na casa da família e trabalham na limpeza, na cozinha e no cuidado com a mãe doente. Vem daí o título da obra.
Curiosamente, Paula Fábrio não se vexa em usar uma linguagem bem “realista” para retratar as opiniões dos personagens. Por exemplo, uma das empregadas é chamada de “a Lurdes gorda”.
A Lurdes gorda fumava um Derby atrás do outro, e entre a sua calça branca e a camiseta tinha sempre uns três ou quatro dedos de carne. Eu e todo mundo conhecíamos um bom trecho do traseiro da Lurdes gorda.
Conforme a pobreza da família vai ficando mais intensa, vão se aproximando daquelas a quem empregam.
Conforme entravam em nossa casa pessoas mais simples e mais miseráveis, nós nos aproximávamos daquelas pessoas, de sua condição social.
No dia-a-dia da doença, só as vizinhas mais pobres nos ajudaram verdadeiramente. Contudo, somente quando pedíamos a elas, nunca de modo espontâneo. Tínhamos vergonha de pedir aos mais ricos.
Há alguns capítulos que exploram as vidas e os pontos de vista das empregadas, mas é bem pouco. Momentos. Basicamente elas são coadjuvantes no livro tanto quanto na casa de família. São importantes apenas na medida em que a passagem delas pela casa influencia a visão de mundo da narradora.
Parte dos capítulos se passa em 2019 e mostra a narradora com problemas de memória. Mas, pelo que eu entendi, ela nasceu em 1970, então só teria uns cinquenta anos. Talvez sofra de Alzheimer precoce? Não fica claro.
Outro personagem importante é o irmão dela, mostrado basicamente como um ser ignóbil. Egoísta, ambicioso, capaz de dizer aos amigos que a mãe é na verdade a empregada. Ainda por cima vaidoso, mau aluno, gastador, iludido, metido a malandro. Corre atrás de esquemas para se dar bem, mas só se dá mal. Será que é isso que a orelha do livro chama de “entender as origens da ideologia de extrema direita”? Se for, é uma tentativa muito mal sucedida.
Aliás, parece haver uma certa ambição por parte da autora de traçar um painel do Brasil ao longo das décadas, ou pelo menos da classe média baixa da periferia de São Paulo. O texto é atravessado por reflexões sobre o país, a política, a direita e a esquerda, etc. Porém, são reflexões incipientes, sem nenhuma força ou originalidade, não vão um milímetro além do senso comum.
Por outro lado, o livro funciona como retrato de uma vida sofrida, de uma vida pobre, em vários sentidos. A falta de entendimento da narradora a respeito das próprias condições sociais é bem construída. A ideia de um livro narrado por uma personagem ao mesmo tempo sincera e tola é interessante. A vergonha do pai, até mesmo a ambição do irmão, são convincentes.
Uma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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